“O vento do deslocamento da rabeta acaricia meu rosto, a sensação é gostosa e conhecida, apesar do barulho infernal que o motor produz. Estou de olhos fechados agora, enquanto imagino a floresta que mais amo... A floresta mágica”. Essa descrição tão íntima nos transporta para os pensamentos de Richard Rasmussen, biólogo que conquistou o Brasil ao mostrar na TV que a relação com a natureza pode – e deve - ser mais bonita e harmoniosa do que na realidade é. Aventureiro, ele sempre nos convida a desbravar mundos desconhecidos e a perder o preconceito com o mundo animal – sim, há muito preconceito do homem em relação a outros animais. Mas no livro que lança hoje em Belém, na livraria Saraiva, ele como que nos abre um diário de viagem, daqueles que os ambientalistas faziam séculos atrás para descrever suas descobertas, cheias de impressões e sensações. Um convite a descobrir a Amazônia que nem sempre nós, amazônidas, costumamos enxergar de forma tão apaixonante e apaixonada.
Resultado de seis meses de viagens de uma equipe de TV de natureza pela Amazônia, o livro é um retrato da região em prosa e imagens. A expedição partiu do Acre, fez uma escala no Pará até chegar em Cristalino, Mato Grosso. Mas o ponto de partida se deu muitos anos antes, em um porto hoje localizado na memória do aventureiro. “Comecei minhas viagens levado pelo meu avô materno, o Nonno Carlo, pelos rios do Pantanal e da Amazônia, aos 12 anos de idade e não parei mais”, conta no livro.
O livro combina textos de Richard com fotos de Márcio Lisa. “Posso dizer que o Márcio é o melhor fotógrafo de natureza que já cruzou o meu caminho e que poucos teriam tirado tanto de tão pouco. Para mim, este livro vai imortalizar um dos períodos mais importantes de minha carreira”. A recíproca é verdadeira. “Richard possui um conhecimento incrível da nossa fauna e, na grande maioria das vezes, sabe exatamente o que está fazendo. Sinto-me totalmente seguro, quando ele diz, por exemplo, que posso colar numa serpente para fotografar. Mesmo que estejamos falando de um bicho peçonhento numa região bastante remota”.
Com tantas aventuras, em belas paisagens com animais exóticos, escolher as imagens das cerca de 230 páginas não foi tarefa das mais fáceis. “Foi uma tarefa mais difícil do que captar as imagens, afinal havia imagens mais documentais, que serviam para suportar o texto, e aquelas que considero mais românticas, mais gostosas de se ver. Conseguir mesclar essas fotos de uma forma harmônica foi um dos grandes desafios deste projeto. Este livro tem como objetivo trazer um pouco mais de informação de uma região do Brasil que a maioria dos brasileiros desconhece: a nossa bela Amazônia”.
A linguagem, acessível a todos, quer mandar um recado para um público certo, os jovens, vislumbrando que o futuro do planeta pode estar garantido a partir de um despertar para essas paisagens que poucos conhecem. “Apesar dos jovens de hoje possuírem muito mais conhecimento por conta da facilidade de acesso à informação e de serem muito mais educados ambientalmente que os jovens de 30 anos atrás, falta a eles a prática de andar descalços, abraçar uma árvore, deitar em um campo e sentir os cheiros da natureza. É para eles especialmente que realizamos nosso trabalho”, admite o biólogo.
Sabedoria e tradição para preservar
Richard se revela na intimidade, tal qual faz nos programas que exibe, e busca uma integração total com a cultura local, mesmo nos casos em que essa cultura, por ignorância ou tradição (termos que, por vezes, se misturam), se oponha ao conhecimento científico dele.
É o caso, por exemplo, da amizade que fez com Seu Bebé, com mais de 60 anos de vida na Amazônia.Ele teimava que a pepéu, ou surucucu-do-pantanal, uma serpente peçonhenta, era venenosa. Não acreditou nem quando Richard se deixou morder diante dele duas vezes.
“Com este argumento indiscutível , Seu Bebé calou-se, mas no fundo de seus olhos ainda percebi uma desconfiança. Estou certo de que ele não colocaria a mão para ser mordida pela pepéu. A sua idade e suas crenças fizeram dele um sobrevivente neste ambiente tão maravilhoso e, ao mesmo tempo, tão cruel. Aqui, vida e morte se alternam o tempo todo”, filosofa.
“Não sou mais corajoso que Seu Bebé ou qualquer outro nativo da Amazônia, mas entendo que uma das formas de proteger animais como serpentes, sapos, jacarés e tubarões e aranhas é trazê-los para perto, mostrando que o medo é falta de conhecimento. E o medo leva a atitudes radicais como a supressão daquilo que você teme, por isso matamos esses bichos sem pensar duas vezes. Nós, seres humanos, somente nos importamos com o que conhecemos. Tenho certeza de que Seu Bebé vai levar estes dias que passamos juntos em seus pensamentos para o resto da vida e vai compartilhar esta experiência com outros bravos moradores dos rios amazônicos”, diz.
“O Marajó é um dos locais mais bonitos que visitei”
No Pará, Richard passou um tempo por Belém e seguiu para o Marajó, cheio de ansiedade. “Estou há muito tempo querendo ir para esse lugar”, revela. A primeira parada foi em Soure, onde foi acolhido por Eva Abufaiad, conhecida como “encantadora de búfalos”, e também visitou a fazenda Sanjo, do chef Carlos Nimo e sua esposa Ana Tereza Acatauassú Nunes.
“Passei uma semana aqui, o suficiente para afirmar que, no conjunto da obra, o Marajó é um dos locais mais bonitos que visitei no Brasil”, diz o biólogo.
Richard curtiu todos os momentos no arquipélago: andou em cima de búfalos junto com a patrulha montada da Polícia Militar, desatolou da lama um cavalo marajoara recém-nascido, e teve seu primeiro encontro com uma sucuri da espécie mais rara, a Eunecter dechauenseei, em função da ocorrência restrita ao extremo Norte brasileiro. Transformou-se em um autêntico nativo.
“Fico feliz que esta publicação seja um livro de fotografias, pois as palavras não seriam suficientes para descrever as emoções que vivenciei neste local maravilhoso. O que gostava de fazer enquanto minha equipe fazia ‘cliques’ e ‘takes’ era sair para buscar o rebanho de búfalos, montado em outro búfalo. Aquilo era alegria pura e, confesso, me sentia como um animal. Gritava como um louco de alegria no meio daquela baita confusão, tocando rebanho”, diverte-se.
Fim da viagem, fim do livro. Mas Richard projeta mais, muito mais. “Eu adoro viajar. Viajo frequentemente há pelo menos 20 anos. Conheço o nosso país como poucas pessoas conhecem. Já viajei pela América Central, América do Norte, Europa e África, faltando alguns lugares que em breve irei conhecer. Me falta ainda a Ásia e Oceania, projetos para um futuro próximo”. Podemos, então, esperar, porque vem muito mais aventura por aí.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar