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O Marajó virado do avesso

“Marajó – Barreira do Mar” é um grande projeto que está no papel, um papel que deseja ser copiado e distribuído para o Brasil e o Mundo. Ele é o novo livro do mineiro Miguel Von Behr, um arquiteto e ambientalista que faz da fotografia uma arma a favor do

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“Marajó – Barreira do Mar” é um grande projeto que está no papel, um papel que deseja ser copiado e distribuído para o Brasil e o Mundo. Ele é o novo livro do mineiro Miguel Von Behr, um arquiteto e ambientalista que faz da fotografia uma arma a favor do conhecimento e da sensibilidade.

Com sete livros de fotografia publicados, este será o quarto volume do selo editorial “Série Ecossistemas Brasileiros”, no qual o autor voltou seus olhos para o Marajó - descrito por ele, com autoridade de quem viu de perto o maior arquipélago fluviomarítimo do mundo, como um espaço em constante assoreamento e vítima de fenômenos erosivos naturais, que constroem e destroem esse ambiente todos os dias.

No município de Afuá, no local denominado Praia das Madeiras, existe muitos troncos de árvores arrancados pelo rio e pelo mar. Como a ação do rio Amazonas e do Oceano Atlântico é muito forte, as madeiras são empurradas pela força das águas e ficam encostadas na ilha, oferecendo um espetáculo de paisagem impressionante. Em Chaves, a força do oceano Acausa desmoronamento de barrancos próximo à cidade.

“Realmente não esperava essa constatação, pois somente visitando e pesquisando podemos entender melhor como o Marajó diminui no lado que é ‘impactado’ pelas águas do Oceano Atlântico, e cresce em direção oeste, pela descida de sedimentos do rio Amazonas. Acho que o livro pode contribuir para divulgar junto à sociedade como é frágil e ao mesmo tempo importante conhecer a formação territorial do Marajó”, afirma Miguel.

Busca por investimentos

A série da qual participaria o livro “Marajó - Barreira do Mar” apresenta um resumo de cada capítulo e legendas em inglês. Os outros volumes foram “Jalapão - Sertão das Águas”, enfocando o bioma do cerrado, no Tocantins, “Quixadá - Terra dos Monólitos”, representando o bioma da caatinga, no sertão central cearense, e “Costa dos Corais”, sobre o litoral norte de Alagoas e litoral sul de Pernambuco, e o bioma marinho e costeiro.

A exemplo dos volumes anteriores, a obra que trata do Marajó contaria com uma tiragem de três mil exemplares, de alto padrão gráfico e editorial, em sua maior parte composta por fotografias, num total de 280 páginas. O livro aborda a beleza cênica das paisagens, a biodiversidade, a história da ocupação humana, a cultura e as iniciativas de conservação dos ecossistemas do arquipélago do Marajó, como a Reserva Extrativista Marinha de Soure e o Parque Estadual de Charapucu, dentre outras.

“O livro contribuirá também para justificar a necessidade e importância do Arquipélago do Marajó ser declarado pela Unesco como Reserva da Biosfera. Será um livro inédito sob este enfoque”, adianta Miguel, que faz questão de defender seu trabalho, pois ainda encontra dificuldades para levá-lo até os leitores, ainda que as facilidades a quem queira investir no projeto seja muitas.

Os direitos de publicação da série são da Somos Editora, de São José dos Campos, em São Paulo. A editora está aberta para fazer parcerias com instituições governamentais, não governamentais e com a iniciativa privada paraense com o objetivo de finalizar a publicação da obra, que já tem texto em português e inglês, fotos e projeto gráfico concluído. Ainda são oferecidos aos parceiros do projeto uma cota de livros, inserção da logomarca na publicação, e outros.

“Caso haja interessados, o projeto poderá receber os incentivos fiscais da Lei Rouanet e da Lei Semear. Além, obviamente, de divulgar o Marajó no Brasil e no exterior, outro dos principais objetivos do livro é contribuir para subsidiar ações a serem desenvolvidas na área de educação ambiental e pesquisas de professores, estudantes e demais interessados no estudo da natureza, história e cultura marajoara”, alega Miguel.

“O Marajó é muito mais que somente búfalos”

Miguel Von Behr é arquiteto formado pela Universidade Católica de Santos e mestre em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade de Brasília. Foi funcionário do Ibama entre 1982 e 2007, e atuou na criação e implantação de unidades de conservação, reservas extrativistas e corredores ecológicos, além de diversos projetos em temas como planejamento urbano e meio ambiente e populações tradicionais.

Ele tem sete livros publicados, que abordam diversos biomas brasileiros, e sempre que se envolve na produção de cada um, mergulha na realidade a ser retratada, com fases de pesquisa, observação e convivência. Durante uma pré-pesquisa para compor “Marajó – Barreira do Mar”, o autor foi em busca dos aspectos mais relevantes da natureza, história e cultura marajoara e, a partir disto, traçou um roteiro básico que foi adaptando conforme o conhecimento da região foi ocorrendo. É o que ele conta em entrevista ao Você:

Você chegou a viver no Marajó?

Praticamente, pois saindo de Brasília foram dez viagens de cerca de doze dias pela região, ou seja, quase 150 dias. Permaneci durante muitos dias em todos os dezesseis municípios da mesorregião do arquipélago do Marajó: Afuá, Anajás, Bagre, Breves, Cachoeira do Arari, Chaves, Curralinho, Gurupá, Melgaço, Muaná, Ponta de Pedras, Portel, Salvaterra, Santa Cruz do Arari, São Sebastião da Boa Vista e Soure.

E como foi sua locomoção dentro desse território?

Utilizei búfalos, bicicleta, cavalo marajora, barcos, carro, avião e fiz muitas caminhadas. Visitei fazendas, cidades distantes, vilarejos isolados, o lago do Arari, berço da civilização marajoara, manguezais e restingas, os campos naturais e a floresta tropical úmida. Devido a essa variedade de vegetação, a fauna do Marajó também é muito rica, com espécies como a ave vermelha guará.

Conseguiu se divertir e acompanhar eventos locais?

Além do Museu do Marajó, em Cachoeira do Arari, terra do maior poeta e escritor marajoara, Dalcídio Jurandir, fui também a diversos festivais, como o Festival do Açaí, em Bagre, o Festival do Camarão, em Muaná, e o Festival do Vaqueiro e Pescador, em Chaves. Documentei a dança do carimbó em praticamente todos os municípios.

Foi tudo parar no livro?

Diversos fatos interessantes e atraentes foram contados e mostrados no livro, como a cultura dos caboclos marajoaras, que ainda realizam a cerâmica, baseados nos seus ascendentes indígenas aruãs.

Há uma continuidade para esse projeto?

A idéia é também realizar um documentário sobre a floresta marajoara, já que um documentário sobre os campos do Marajó já foi realizado pela Plural Filmes. Os dois acompanharão o livro.

Sua formação e atuação é como ambientalista e arquiteto. Onde se encaixa a fotografia?

No sentido de apontar que ela tem o papel – dentre outros objetivos - de mostrar à sociedade uma determinada realidade, boa ou má do ponto de vista do fotógrafo naquele momento, e contribuir para que a coletividade, a partir do impacto da imagem, reflita e tome medidas para transformar essa realidade. É uma ferramenta de transformação social. Neste projeto a fotografia também foi utilizada no sentido de elevar a autoestima da tão sofrida população marajoara.

Seu livro retrata o apogeu e a decadência do arquipélago. Qual dos dois momentos vivemos?

Entendo que a estagnação do desenvolvimento marajoara ao longo dos séculos é causado por diversos fatores, dentre eles fatores históricos e dificuldade de acesso. É necessário maior compromisso dos governos estadual e federal para com as políticas públicas sociais. As ações devem ser integradas, e principalmente, gerar renda para a população local, tanto no aproveitamento dos ricos recursos naturais, como na valorização do turismo, aliado à geração de alternativas de empregos, sem esquecer de melhorar a qualidade do transporte hidroviário ao arquipélago, tanto por Belém como por Macapá. Mas tudo isso tem que ser visto de forma articulada e unificada com a Associação dos Municípios do Arquipélago do Marajó, a Amam. O Marajó é muito mais que somente búfalos.

(Diário do Pará)

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