A liberdade do corpo, os amigos como irmãos, ser um personagem novo a cada dia, ser você mesmo. As razões para fazer teatro são muitas e poucos são os jovens que deixariam de vivê-lo se tivessem a oportunidade de um primeiro contato. Na verdade, poderiam fazer como os jovens Renan, Gleyse, Katiane e João Paulo fizeram, tornando o teatro parte essencial de sua vida, 24 horas por dia, sete dias por semana.
“O teatro está na minha vida de segunda a sexta, em ensaios e exercícios que duram de duas a três horas. Mas também está na maneira de falar, de andar, de fazer amigos… Eu era muito tímido”, conta Renan Silva, 19, sobre sua relação com as artes cênicas. E mesmo que ser tímido fosse sua principal característica antes de entrar para uma oficina de teatro, não é essa a razão pela qual ele mergulhou neste universo. “A convite de amigos vi uma peça sendo apresentada. Quis ser um personagem”, diz ele.
E como amar a arte de atuar, mesmo sem nunca ter entrado em um teatro? Gleyse dos Santos, 17, nunca entrou. Nunca viu o palco do Theatro da Paz, Margarida Schivasappa, nem Cuíra. Mas viu na rua de seu bairro, a Terra Firme, alunos do Espaço Ribalta apresentando um espetáculo. Achou que seria divertido atuar. “Achei que precisava começar em algum lugar, fiz aqui (no Espaço Ribalta) minha primeira oficina, com o João Batista. E foi muito bom. Já aprendi o quanto exercícios de alongamento e de equilíbrio ajudam a dar segurança durante o espetáculo, até para desenvolver o texto com segurança”, conta.
Passagem São Pedro, casa 4, entre as passagens 24 de Dezembro e Santa Helena. Esse é o endereço do Espaço Ribalta, uma casa em uma estreita rua do bairro da Terra Firme. Distante do centro da cidade, ali seu coordenador, Eli Chaves, formou um centro cultural próprio, onde os jovens como Gleyse e Renan se encontram, onde adolescentes de outros bairros chegam para conhecer os que lá vivem e fazem teatro de forma simples, mas com intensidade.
“Quando você entra para o teatro começa a fazer parte de uma família. E tudo que aprendemos aqui acaba sendo levado para a vida pessoal, todo o aprendizado que adquirimos antes de compor um personagem, todas as técnicas teatrais nos fortalecem e nos fazem amadurecer. A disciplina e um pouco de cada personagem, é isso que a gente leva”, declara João Paulo Santos, 18, que já foi Herodes, Salomão, e agora se prepara para atuar em “O Fantasma da Ópera”, o próximo espetáculo que os alunos do Espaço Ribalta irão apresentar.
Essas apresentações, feitas em frente ao espaço, na mesma rua estreita, são o ponto inicial para muitos daquele bairro que nunca foram ao teatro. E essa, afirma Katiana Oliveira, 27, deveria ser a principal função do teatro: levar arte a todos e em todos os lugares. “Para mim, o teatro começou com trabalhinhos de escola. Aos 14 anos comecei a fazer parte de um grupo e hoje ministro oficinas no Propaz da Terra Firme. O teatro para mim deve ter essa função de gerar melhoria social. Com ele a gente vê uma sociedade diferente, vê a pessoa como irmã, somos livres para trabalhar o corpo, para ter contato com o outro, vemos a todos sem discriminação”, analisa.
Os jovens do Ribalta, que hoje se apresentam nas ruas do bairro, têm exemplos de que o caminho trilhado pode levar a destinos muitos mais distantes, como a Alemanha. Foi o que aconteceu com o ator João Batista, que iniciou a carreira na Terra Firme e mora há 12 anos em Berlim. O artista conta, aqui, um pouco da trajetória cênica.
(Diário do Pará)
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