Quem olha Marina Guerreiro amamentando a pequena Helena, de apenas sete meses, não imagina quantas mulheres existem em uma só. A profissional que atua como secretária executiva de um escritório de advocacia; a dona de casa com responsabilidades e afazeres; a mãe da Helena, e do Pedro, de 6 anos; a ativista, um papel mais recente, que ajuda não só a ela entender melhor essa nova configuração social, como a de muitas outras mulheres que a acompanham. Foi Marina, a mãe e ativista, que organizou pela primeira vez “A Hora do Mamaço” em Belém, usando o Facebook para reunir cerca de 50 mulheres na Praça da República, no último domingo. Mais do que levar à sociedade a naturalidade do ato de amamentar, elas trocam experiências sobre como ser esta mulher consciente daquilo que quer e acredita.
“Sempre me vi nestes papéis, conciliá-los é um desafio diário, mas veio de uma mudança de pensamento na qual você acredita que pode dar o melhor para o seu filho, diante dos benefícios incontáveis que a amamentação pode trazer, não só para o bebê, mas para a nossa relação”, diz a organizadora do “mamaço”, também ativista pela humanização dos partos, que acabou descobrindo e endossando a ideia a partir de uma amiga doula (profissional que dá suporte físico e emocional a gestantes para o parto).
As convicções viraram ativismo depois que Marina passou por violência obstétrica no parto de seu primeiro filho e ingressou para o Grupo de Apoio ao Parto Ativo. “As mulheres são vítimas de tantas violências do machismo, do patriarcado, de gênero... me descobri feminista, quero ter voz e direitos para amamentar onde eu quiser, de parir onde eu quiser”, diz, com orgulho.
Hoje ela participa também de um Grupo Solidário de Aleitamento Materno, onde aprendeu muitas dicas sobre o armazenamento do leite, para que a filha tome enquanto ela está no trabalho. “Como todo profissional, passo mais de 8 horas fora de casa, e ela toma o leite no copinho, porque não uso mamadeiras ou chupetas, que fazem mal à saúde. Tenho apoio da minha família para me ajudar a cuidar dela quando estou no trabalho”, explica Marina.
A servidora pública Moara Fagundes é mãe de Mani, de 1 ano e 4 meses. O menino loiro de cabelos cacheados adorou a hora em que pode mamar abraçando a mãe em um gesto fraternal. “Quando fiquei grávida, ressignifiquei em mim o feminino. Estou me capacitando para ser doula e poder ajudar outras mulheres. Você pode escolher terceirizar seus filhos e a nossa sociedade reforça isso. Desde que vamos à escola aprendemos o quanto o profissional é importante, mas eu fiz escolhas diferentes”, define.
Ela diz também ter sido vítima de violência obstétrica e que, ao passar por isso, se descobriu feminista. “Ser mãe me fez descobrir o significado da dor. Com o que passei, tive forças para curar minhas feridas e buscar força para ajudar outras mulheres”, explica Moara, que ainda não retornou ao trabalho porque resolveu se dedicar ao filho, mas quer voltar a trabalhar e conciliar os papéis que escolheu.
“Sei que o trabalho é redobrado. Mas ser mãe me fez mais forte, mais criativa, mais viva. Sei como me conectar ao meu filho e a amamentação é um dos caminhos”, acrescenta.
A biomédica Symara Rodrigues acha natural ser mãe, pesquisadora, profissional, esposa, tudo ao mesmo tempo e mais um pouco. “Me sinto feliz assim”, diz. Apesar do pequeno Miguel ter apenas dois meses, ela encara com naturalidade o que planeja para os próximos meses. “Vou iniciar o doutorado e minha família me dá o suporte que preciso. Quanto à amamentação, eu tiro leite e deixo em casa para que alguém o alimente quando não estou. Quando retornar ao trabalho, ele vai comigo, se for necessário. Não é natural que seja assim?”, diz, com um sorriso.
Revolução masculina
Não são apenas as mulheres que estão assumindo uma posição mais equilibrada entre as tarefas profissionais e as experiências com a família, a casa e os filhos. Os homens estão mudando com elas. Marido da biomédica Symara, o advogado Elton Franco olhava sua esposa amamentar o filho Miguel. Ele foi peça fundamental para que ela pudesse ter dois filhos e ainda assim conciliar a carreira acadêmica, as aulas que leciona na universidade e a profissão de biomédica. “Optamos pela amamentação e juntos dividimos responsabilidades. Não temos babá e sempre criamos nossos filhos com muito amor e carinho”, diz ele, que também é pai de Davi, de 5 anos.
O psicólogo Alexandre Amaral não estava na Praça da República enquanto pai, mas como profissional pronto a ajudar as mães, com a chancela de uma carreira de 20 anos, sete deles envolvidos com o tema da amamentação e dois exclusivamente dando apoio a essas mulheres com novos perfis e novas escolhas. “Passamos muito tempo afastados da nossa essência humana. Estamos dificultando os ciclos naturais da vida e a amamentação era uma dessas coisas que estavam sendo deixadas de lado. Para refazer as escolhas, não depende só da mulher, depende principalmente de suporte da família, de tempo para coleta e melhores formas de armazenar esse leite, de um emprego onde seu chefe possa entender a humanização deste processo, afinal, o que são 15 minutos em que a mãe possa receber o seu filho durante o expediente e amamentá-lo? Enfim, uma rede social de suporte à escolha dessas mulheres”, explica o psicólogo.
(Diário do Pará)
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