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Memorial dos Povos padece sem uso

Ele surgiu como um belo projeto que assumia nossas origens e defendia a diversidade. O Memorial dos Povos seria mais um espaço dedicado às artes, ao ser inaugurado em 2003 pela Prefeitura de Belém. Projetado pelo arquiteto José de Andrade Raiol, ele f

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Ele surgiu como um belo projeto que assumia nossas origens e defendia a diversidade. O Memorial dos Povos seria mais um espaço dedicado às artes, ao ser inaugurado em 2003 pela Prefeitura de Belém. Projetado pelo arquiteto José de Andrade Raiol, ele formava um complexo que, além do Palacete Bolonha, englobava o anfiteatro, a Sala Vicente Salles, a Sala de Cinema Acyr Castro, a Biblioteca Engenheiro Augusto Meira Filho e o Museu da Belle Époque.

O nome do espaço fazia referência a seu objetivo de reunir e expor a cultura de vários povos que contribuíram para a história da cidade: africanos, árabes, espanhóis, índios, italianos, japoneses, libaneses e portugueses. Hoje, esses povos continuam ali, em fotos logo na entrada do Memorial, como retratos de um espaço em deterioração.

O anfiteatro, onde antes eram realizados shows e gravações musicais, apresentações cênicas e lançamentos literários, agora tem pisos e paredes corroídos, e vegetação que nasce em meio ao abandono. A Sala Vicente Salles, onde funcionava a União Espanhola e seria dedicada à exposições artísticas, abriga atualmente parte das atividades administrativas da Fundação Cultural do Município de Belém (Fumbel), assim como duas casas da vila do Palacete Bolonha cujo acesso também se dá por dentro do complexo do Memorial.

De acordo com o diretor do Departamento de Patrimônio Histórico da Fumbel, Jorge Pina, atual responsável pelo Memorial dos Povos, o complexo está desativado para as atividades que antes abrigava, permanecendo apenas algumas visitações ao Palacete Bolonha - que estão, inclusive, provisoriamente suspensas desde o final de julho para uma obra emergencial na cobertura do palacete.

O que acontece com o Bolonha é o mesmo pelo que passam os demais espaços do Memorial dos Povos. “A ação das intempéries, como as chuvas, principalmente, compromete pisos e barrotes, que são de madeira. A Sala de Cinema Acyr Castro, além dos problemas estruturais, também tem problemas nas instalações. O projetor está com defeito e há problemas de iluminação. Ela, assim como demais espaços, só será reativada após a restauração completa no Palacete, do qual é anexa”, diz Pina.

A restauração citada por Jorge Pina está prevista no Plano de Aceleração do Crescimento - PAC voltado para cidades históricas - com orçamento já aprovado, mas ainda caminhando para dar início ao processo licitatório. “Por esse projeto, a ideia será tornar o Palacete totalmente ‘museal’, recriando uma residência do século 19, a casa onde morou Francisco Bolonha. O mesmo recurso previsto para o Palacete abrange o prédio da Fumbel no Largo da Sé, por isso nossa estadia aqui também é provisória”, explica Pina.

E é sobrevivendo de forma provisória que uma das ideias mais importantes do projeto Memorial dos Povos vem se perdendo: a de mostrar uma Belém cosmopolita e democrática. Afinal, todas as mudanças, com espaços sendo desativados e reativados ao longo do tempo, coincidem com mudanças de gestão, com a chegada de um novo prefeito. Outros dois grandes exemplos de como o projeto foi simplesmente abandonado com a troca de gestões são o Museu da Belle Époque e a Área Gastronômica.

Em seu início, o Projeto permitiu a recuperação de cerca de 250 livros da Antiga União Espanhola que ficariam incorporados ao acervo do Museu da Belle Époque - espaço que resgataria a história desse período através de mobílias, documentos e fotos. Assim como a Biblioteca Engenheiro Augusto Meira Filho. Mas boa parte desses dois acervos acabou indo parar no Museu de Arte de Belém - Mabe.

Já a área gastronômica teve tudo comprado e instalado. “Foi preparada uma cozinha industrial mesmo, com espaço para eventos e degustação com a culinária de todas as origens étnicas presentes no Estado, mas nunca chegou a funcionar”, diz Pina. E o mais lamentável, completa ele, é que o Memorial seria um patrimônio para garantia da inclusão social. O que o atual diretor da Fumbel ainda espera que seja - mesmo sem uma previsão certa de quando isso poderá acontecer.

(Diário do Pará)

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