Michel Pinho não fez apenas a sua segunda exposição individual ao levar “Patrimônio da Dor” para a galeria Teodoro Braga, no Centur, no último mês. Ele compartilhou com as mais de 700 pessoas que passaram por lá seu olhar diferenciado sobre os campos de concentração nazistas de Auschwitz e Birkenau, na Polônia ocupada durante a 2ª Guerra.
Mais do que o olhar fotográfico, sua visão histórica grita em cada foto, carregada de sentimentos e de vivências de Michel Pinho. Ele mesmo confessou que ir até o local, fazer as fotos e torná-las exposição foi um grande desafio e o ato o colocou em confronto consigo mesmo. “Durante anos pensei se teria coragem de expor essas fotos que mexeram muito comigo e agora percebi que compartilhá-las seria terapêutico, uma forma de dividir esses sentimentos”, disse o fotógrafo e historiador, em um das visitas guiadas que realizou na galeria.
Ao contar a história de cada uma de suas fotos, ele inseria cada um dos visitantes em um universo particular da dor, revivendo uma das histórias mais cruéis da humanidade e que já foi retratada de diversas formas artísticas, principalmente pelo cinema. “Eu queria escrever o que sinto porque não consigo verbalizar, mas faço isso através das minhas imagens. Eu não consigo imaginar e também não consigo explicar, a cabeça de pessoas que fizeram coisas como essas”, disse Michel aos visitantes.
Os adolescentes e jovens, maioria do público que participou das visitas, se emocionavam junto com Michel ao percorrer com ele novamente aquela trilha de dor, morte, sofrimento e perdas.
A visitação se iniciava com uma motivação do fotógrafo para os visitantes analisarem as fotos de forma isolada e refletirem. As cenas lindas e chocantes são apenas objetos, como bem definiu o filósofo e professor Ernani Chaves no texto de apresentação da exposição: “Fotografias do que restou do não-humano, numa experiência radicalmente humana: a do campo de concentração”.
Os visitantes partiam junto com Michel, acabavam tendo uma verdadeira aula de história em cada detalhe. “Estou vindo pela terceira vez na exposição e estudo muitos sobre nazismo, é um assunto que sempre me choca. Mesmo estando distante do local aonde aconteceu, a gente sente aquela dor mas claro, nada se compara ao que aconteceu lá”, disse Paulo Paraense, estudante de publicidade.
Michel fez quase 1,3 mil fotografias durante o caminho que percorreu na Alemanha, cada uma como uma vivência de dor, fato que fez com que ele não conseguisse rever as imagens depois disso. “Fiquei nove meses da minha vida com problemas graves de sono, é como se você perdesse um pouco a fé na humanidade”, avalia.
O fotógrafo Alberto Bitar fez a seleção e edição das 13 imagens que compuseram a exposição. As fotos sem legenda levavam o público ao ponto que Michel queria, o da reflexão. Como no retrato em que mostra milhares de sapatos dos que chegavam aos campos e tinham que entregar suas roupas e usarem uniformes, ou os que trocavam seu nomes por números e códigos.
“Essa foto representa aqui vidas e nomes que foram esquecidos, viraram apenas números. Ou a perda da individualidade de cada um em escolher seu sapato que agora desaparece dentre os milhares de sapatos que foram deixados para trás”, explicava o fotógrafo.
“Vemos esse assunto todos os anos na escola, chega a parecer comum, algo normal. Ir até os locais dos campos para fazer as fotos e trazê-las até nós é algo que nos faz ver o fato histórico de outra forma. Com elas podemos tentar imaginar o que aconteceu. As fotos fazem lembrar pessoas que deveriam ser esquecidas, mas que eu não vou apagar da minha memória”, desabafou Luyza Costa, estudante de ensino médio.
(Diário do Pará)
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