Depois de estrear nos palcos da Europa e fazer uma temporada brilhante em São Paulo o espetáculo “Florbela Espanca – A Hora que Passa” chega a Belém como um presente em tempo de Círio. Em apresentação única hoje, no Teatro Estação Gasômetro, às 20h, o solo teatral em que a atriz paraense Lorenna Mesquita vive uma das maiores poetisas portuguesas, retrata a vida e obra da artista, contada sob a perspectiva de sua última hora de vida.
Questionadora, no espetáculo a poeta discorre sobre si mesma e levanta o papel da mulher na década de 1920, com reflexões que caem como atuais. “Estou muito emocionada por trazer Florbela Espanca a Belém, minha terra querida, onde a cultura portuguesa é tão presente. Já faz quase dez anos que não me apresento nos palcos paraenses e voltar com esse espetáculo que mudou a minha vida profissional e pessoal tem um sabor especial”, revela a atriz.
Dirigido por Fabio Brandi Torres, o espetáculo é fruto de diversos estudos e vivências de Lorenna, que foi até a cidade natal de Florbela reviver um pouco da vida da autora que tanto admira.
“Quando conheci as poesias de Florbela Espanca, o que mais me chamou atenção foi a sua intensidade. Ela parecia viver exatamente o que escrevia. Um misto de amor e de dor. Eu me perguntava: Quem foi essa mulher que ousou naquela época, na década de 1920, expressar os mais íntimos sentimentos? Por que ela se matou? Por que nunca estava satisfeita? Intrigada, decidi ir atrás da sua história. Fui a Portugal e conheci as três principais cidades em que ela viveu: Vila Viçosa, Évora e Matosinhos. Visitei suas casas, o cemitério, as homenagens nesses lugares - bustos em praças, biblioteca, túmulo em destaque no cemitério -, além de Lisboa e Porto. Filmei cada passo no meu vídeo-diário de bordo. E lá percebi que Florbela ainda não possui o reconhecimento que merece”, explica Lorenna.
A peça estreou em 2014, em Portugal, no dia Mundial da Poesia, em 21 de março, e percorreu 16 cidades em 40 dias de temporada internacional. Depois foi a vez de São Paulo receber o espetáculo, que agora chega a Belém. “Só poderia escolher a minha cidade para iniciar a circulação nacional desse projeto. Sei que na plateia também estarão a minha família e muitos amigos e a melhor coisa é poder compartilhar esse momento com as pessoas que eu amo, ainda mais na semana do Círio”, comemora.
Estreia em livro
Além do espetáculo, Lorenna Mesquita também assina um livro a quatro com Fábio Brandi. “É o texto do espetáculo com fotos. As pessoas estão amando a peça e muitas chegaram a nos pedir o texto. Apresentamos para esta editora, especializada em dramaturgia, e ela quis fazer na hora o livro”, comemora.
A autora, que trará alguns poucos exemplares na bagagem, deixa assim o pacote da obra completa. “O texto do espetáculo é feito com todas as palavras da Florbela. Nós fizemos uma costura, que chamo de ‘colcha de retalhos’, com poemas, cartaz, contos e diário da poeta”, descreve. “Meu primeiro monólogo, agora meu primeiro livro!”, diz, exultante.
Oportunidade única
“Florbela Espanca – A Hora Que Passa”, monólogo com Lorenna Mesquita
Quando: Apresentação única hoje, 20h
Onde: Teatro Estação Gasômetro (Parque da Residência – Av. José Malcher com 3 de Maio)
ENTRE NO CLIMA
Horas Rubras
Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos rubros e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...
Oiço olaias em flor às gargalhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas...
Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...
Sou chama e neve e branca e misteriosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!
Florbela Espanca, in “Livro de Sóror Saudade”
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