Movimento, som e neurociência. Os três elementos aliados à improvisação e ao impulso dos corpos. É assim com o projeto “Cinderella (RockaFela)”, em que o artista inglês Alex Reuben propõe uma nova visão sobre o fazer artístico pela linguagem cinematográfica. Hoje, o público de Belém pode ter acesso, gratuitamente, ao conhecimento e à experimentação de Alex. Um workshop com o artista será realizado, a partir das 10h30, no Sesc Boulevard. No final, será realizado um flashmob e os participantes do evento se tornarão personagens do “Cinderella (RockaFela)”.
O trabalho de Alex é reconhecido mundialmente. “Routes-Dancing to New Orleans”, um road-movie de dança filmado um pouco depois da passagem do furacão Katrina, foi selecionado para o Top 20 dos melhores filmes da década pelo crítico britânico Geoff Andrew. No workshop realizado hoje, Alex tratará do conceito de “coreogeografia”, discutirá temas relacionados à cognição e à improvisação e preparará os participantes para a realização do flashmob. Como o “Cinderella (RockaFela)” é um filme improvisado sobre improvisação, nem o próprio cineasta sabe exatamente como o material será aproveitado no resultado final. Tudo será criado coletivamente.
A professora Val Sampaio, do Instituto de Ciências da Arte da UFPa, é especialista em vídeo e novas tecnologias voltadas para a pesquisa em arte. Para ela, o trabalho de Alex é rico porque ultrapassa conceitos fechados. “Por mais que a dança contemporânea classifique o ato das pessoas como uma dança, o que interessa para o Alex é o movimento do corpo. A coreografia é simplesmente o jeito e a forma como as pessoas se movimentam”, fala.
Segundo a professora, o cineasta tem uma relação quase etnográfica com seus filmes. “Quando ele fez o filme em New Orleans, captou justamente essa alegria dramática que os moradores estavam vivendo depois do furacão. Então, o filme é dele, mas o foco está sempre nas pessoas”, diz.
Para Alex, que já esteve quatro vezes em Belém, a cidade é única e possui uma força criativa que a torna individual. “Belém é incrível. A cultura é muito rica e as pessoas são muito criativas e gentis. Há barulhos e sons em todos os lugares, mesmo nas ruas mais silenciosas. Além disso, o contraste da Amazônia antiga, colonial, com a arquitetura moderna é fantástico”, observa.
O cineasta, que já trabalhou anos como DJ, afirma que a riqueza musical e sonora da cidade deveria ser motivo de orgulho para quem é daqui. “A música tradicional é linda e a cultura popular, das ruas, tem uma força impressionante. Eu me interessei muito pelo tecnobrega. Nunca vi sistemas de som tão diferentes em festas populares, nem mesmo na Jamaica”, conta.
No workshop de hoje, Alex trabalhará elementos do Círio de Nazaré para tratar de neurociência. “Não existe nada parecido com a corda no mundo. Nela, as pessoas não têm controle sobre seus movimentos, simplesmente perdem o livre-arbítrio e se deixam levar. A neurociência discute exatamente isso. Nós temos realmente liberdade nas nossas escolhas ou é tudo pré-determinado e nós somos guiados por escolhas mecânicas inconscientes?”, questiona.
Apesar de ser um artista com fama internacional, ele não esconde as dificuldades de investir em uma produção autoral livre de padrões mercadológicos. “Como o filme é sobre improvisação, é muito aberto. Mas pretendo terminar até julho do ano que vem e espero voltar a Belém para mostrar o resultado. Não posso me alongar muito porque larguei tudo pelo projeto e preciso arrumar um emprego novo para sobreviver”, completa rindo.
(Diário do Pará)
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