Entre a pressa desgastante da rotina, os olhos distraídos podem ser surpreendidos com versos simples, frases curtas. Um intervalo pequeno, mas grande o bastante para levar o leitor, por alguns segundos, para outro lugar. Pregados em postes de Belém, fragmentos de poemas de Fernando Pessoa e Paulo Leminski podem ser encontrados em meio a trechos de canções de Rita Lee, Vinicius de Moraes e até das paraenses Liah Soares e Lia Sophia.
É com esta proposta que o grupo “Poste Arte”, formado em sua maioria por estudantes, pretende difundir a poesia e aproximar as letras da vida prática dos belenenses. Além das ações na rua, os jovens desenvolvem trabalhos filantrópicos com idosos, crianças e moradores de rua. O objetivo é o mesmo: provar que a literatura pode ser uma ferramenta de transformação pessoal e social.
“Corro atrás do tempo/Vim de não sei onde/Devagar é que não se vai longe”. Basta um pouco de sorte e um olhar mais atento para se deparar com as palavras de Chico Buarque enfeitando um poste. A ideia, apesar de simples, encanta e faz do “Poste Arte” um sucesso no Facebook, com quase 6,5 mil “curtidas” em sua página oficial. Danyelle Duarte, 16 anos, comenta que o projeto começou em Minas Gerais, através de uma amiga que, por problemas pessoais, precisou deixá-lo. “Isso foi em agosto do ano passado. Nós conhecemos o trabalho na internet e conversamos com ela para trazê-lo para Belém. Aí ampliamos, criando contas em todas as redes sociais. Hoje, cerca de 25 pessoas participam ativamente do ‘Poste Arte’”, explica.
De acordo com a estudante, o critério para definir o conteúdo das postagens de rua não é fechado. “A gente coloca músicas, poemas, frases que a gente gosta e com as quais as pessoas podem se identificar. A intenção é incentivar o hábito da leitura e fazer as pessoas refletirem rapidamente, lembrarem algo especial, fugindo um pouco da correria do dia-a-dia”, comenta.
Segundo Danyelle, a repercussão do projeto serve como estímulo para continuar ações. “Estamos recebendo muitos elogios. A gente percebe que as pessoas têm essa necessidade de se expressar, mesmo que seja com as palavras de outros. Poemas autorais de escritores do próprio grupo também são divulgados”, diz.
ARTE SOCIAL
Além do trabalho ativo colando mensagens nos postes, realizado cerca de três vezes por mês, o “Poste Arte” desenvolve atividades sociais para levar a literatura a quem mais precisa. Em um domingo de cada mês, uma manhã literária é realizada na Praça da República para reunir livros para doações. Duas vezes por mês, os jovens se reúnem no abrigo São Vicente de Paula, no bairro da Pedreira, para realizar saraus e dinâmicas com os idosos. Mensalmente, os estudantes também levam sopão, café da manhã e poesia a moradores de rua. No mês das crianças, os beneficiados serão os pequenos pacientes da área oncológica do Hospital Ophir Loyla, que receberão livros, brinquedos e atividades culturais.
A estudante Gabriela Silva, 20 anos, diz que as ações filantrópicas realizadas pelo “Poste Arte” são fundamentais para que o grupo cumpra sua função social. “Há estudos que comprovam que a literatura tem esse potencial de trazer felicidade, estimular a imaginação, mudar as pessoas. Mas não é só a literatura. Nós fazemos esses trabalhos com muito amor e carinho porque sabemos da importância e da necessidade de que mais ações deste tipo aconteçam”, comenta. No futuro, o “Poste Arte” pretende dispor de um espaço próprio e adequado para oferecer, gratuitamente, cursos de redação e leitura a alunos de escolas públicas.
Para Gabriela, a recompensa de poder participar ativamente de pequenas transformações em pessoas que, por algum motivo, lutam para ter esperança, é impagável. “É uma sensação tão incrível que não tenho nem palavras para descrever. Aprendo muito e a minha vida também muda, eu me moldo como um ser humano melhor. São pessoas que, por algum motivo, foram rejeitadas pela sociedade e poder ajudá-las é um benefício não só pra elas, mas principalmente pra nós”, completa.
Através da arte, do resgaste da autoestima e da solidariedade, o “Poste Arte” comprova o que o poeta Mário Quintana disse: “Só a poesia possui as coisas vivas”.
(Diário do Pará)
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