“Eu gostaria de denunciar coisas muito bizarras…”, inicia a conversa Elisa Schmidt. Com argila, tinta e pó a bailarina desenrola no palco uma performance que cria e recria faces para o rosto e criaturas para o corpo. “Entre o humano, o animal e o maquínico, o solo configura uma dança em permanente processo, atrelada à mutação de formas”, explica ela. Depois de estrear em Florianópolis em 2013, “Entre Terra” chega a Belém para uma temporada hoje e amanhã, no Porão da Unipop.
Elisa iniciou a pesquisa em 2009, enfocando as interfaces entre a dança e a desfiguração partindo dos estudos das obras de Olivier De Sagazan, artistas e performer radicado na França. A bailarina, que na época se dedicava ao mestrado em artes cênicas, esteve por lá há três anos, onde conheceu a técnica e a incluiu no seu processo investigativo. “É uma busca pela própria identidade com o uso da argila, que é usada em um processo inacabado, como estratégia de decomposição e refiguração. A performance tem vida própria em cena, mostra de certa forma a própria angústia de não conseguir ser e bate numa realidade burocrática congelada”, conta.
No espetáculo a intérprete vasculha rastros de obscuridade da violência social e as reinscreve em cena, propondo um intervalo à ordem sancionada. A ação consiste na revelação do trauma, das deformidades, expondo uma face sombria humana, recorrente em uma história de dominações totalitárias. O trabalho foi contemplado pelo edital Funarte Petrobras de dança Klauss Vianna 2012 e Prêmio Funarte de dança Klauss Vianna 2013, e em cada cidade visitada pela turnê a bailarina ministra a oficina “Experiências em Desfiguração”. “A proposta é explorar os territórios cruzados da dança, com a performance, as artes visuais e o teatro, através da investigação do contato da argila com o corpo e rosto. Os parâmetros de pesquisa envolvem identidade e ritual introduzidos por estratégias de composição de faces para o rosto e esculturas com o corpo. Cria-se uma atmosfera limiar entre a performatividade e o ritual, na qual a desfiguração desestabiliza a figura padrão do cidadão para fazê-lo experienciar outras percepções e sentidos, como o tato”, explica.
SERVIÇO
“Entre Terra”, solo da bailarina Elisa Schmidt (Diário do Pará) |
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