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Espetáculo resgata tradição do Pássaro Junino

Fadas, príncipes e feiticeiras dividem espaço com ribeirinhos, matutos e índios. Os universos podem parecer distintos, mas se unem de forma harmônica criando fábulas que misturam literatura, dança, música e teatro. O colorido e a beleza do Pássaro Junino,

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Fadas, príncipes e feiticeiras dividem espaço com ribeirinhos, matutos e índios. Os universos podem parecer distintos, mas se unem de forma harmônica criando fábulas que misturam literatura, dança, música e teatro. O colorido e a beleza do Pássaro Junino, gênero popular genuinamente paraense, quase sempre isolado em apresentações na quadra junina, toma hoje o palco do Teatro Universitário Cláudio Barradas no espetáculo “O Filho do Sereno”, do dramaturgo e diretor Harles Oliveira. Harles também é coordenador da Associação Cultural e Esportiva dos Negros da Amazônia (ACena), responsável pela produção da montagem.

O texto da peça, premiada pelo Instituto de Artes do Pará (IAP) em 2010 na categoria Auto Popular, passou quatro anos engavetado por falta de financiamento adequado. O espetáculo só ganhou forma este ano, através do Programa “Amazônia Cultural”, do Ministério da Cultura, que premiou o projeto “Ararajuba – Voando nas Asas da Imaginação”, que além da montagem prevê a realização de oficinas.
Em cartaz desde o início de setembro no interior, a peça encerra sua primeira temporada neste domingo, na capital, com sessões sempre às 20 horas.

No final do século 19, início do século 20, com o declínio do ciclo da borracha, a capital paraense passava por dias conturbados. Depois da próspera ascensão econômica que possibilitou a urbanização da cidade e o surgimento de obras imponentes, como o Theatro da Paz, a Belle Époque chegava, devagar, ao fim. Na cena cultural, a população, acostumada a prestigiar os espetáculos de grandes companhias internacionais, estava carente de apresentações artísticas. Foi nesse contexto, misturando elementos europeus e regionais, fortemente influenciado pelos Cordões de Bichos, que surge o Pássaro Junino. Também conhecido como melodrama-fantasia ou ópera cabocla, o gênero, usualmente, tinha como gancho tramas envolvendo vingança, conflitos familiares e dramas amorosos. O humor, a dança e o canto também são elementos comuns aos espetáculos.

Em “O Filho do Sereno”, ambientado na Belém do final do século 19, uma história de amor, em meio à raiva e à vingança, se desenrola entre o sequestro do aristocrata Albuquerque de Alcântara. Dentro do espetáculo, que não abre mão da comédia, nos principais núcleos sociais dos Pássaros Juninos estão representados: indígenas, nobres e ribeirinhos. A maioria dos atores que compõem o elenco foi formada e profissionalizada na Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA).

De acordo com Hales Oliveira, o objetivo principal da peça é resgatar a cultura do Pássaro Junino e popularizar as montagens do gênero. “Os Pássaros, infelizmente, ficam limitados às apresentações em junho porque não há estímulo, nem incentivo, nem espaço para que haja um movimento cultural forte em torno deles. É uma manifestação nossa, exclusivamente paraense, riquíssima, que merece mais visibilidade e atenção do poder público”, fala.

“O Filho do Sereno” já passou pelas cidades de Curuçá, Terra Alta, São João da Ponta e pelo distrito de Mosqueiro, sempre realizando em paralelo oficinas e palestras com o público local.

Para Harles, que passou os últimos anos buscando formas de viabilizar o projeto, faltam mais investimentos por parte do Estado para melhorar a representatividade de dramaturgos paraenses nos palcos locais. “Além de nós não termos nossa cultura representada, ficamos à mercê do que é produzido no sul do país. Isso não é só em relação ao teatro, o artista paraense, em geral, não é valorizado como deveria. Com os novos editais do governo federal, através da ministra Marta Suplicy, está havendo uma descentralização maior de recursos. Isso é fundamental. O Brasil somos nós”, completa.

CONHEÇA
Espetáculo “O Filho do Sereno”.
Quando: De hoje a domingo
Horário: sempre às 20h.
Onde: Teatro Cláudio Barradas (Jerônimo Pimentel, esquina com Rua D. Romualdo de Seixas
Quanto: R$ 20, com meia para estudantes.

(Diário do Pará)

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