Cicatrizes pelo corpo, um problema na perna direta e muita história para contar. A cineasta Lúcia Murat foi presa e torturada nos porões da ditadura militar no Brasil, experiência que exerceu forte influência em sua obra. “Uma história que compartilho com vocês não por desejo de vingança ou masoquismo, mas porque acredito que a única maneira de fortalecemos a democracia nesse país é conhecendo nosso passado”, disse ela, em 2013, durante seu depoimento à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro.
Este mês, Murat é a homenageada de um evento que se estende até a capital paraense: a “9ª Mostra Cinema e Direitos Humanos no Hemisfério Sul”, que acontece no Pará de 4 a 9 de novembro, no Cine Líbero Luxardo, e nacionalmente segue até 20 de dezembro. Inspirado nos 50 anos do golpe civil-militar, o evento traz também outros debates acerca dos direitos humanos, com filmes que abordam temas LGBT, questões culturais e territoriais da população indígena, entre outros.
A “Mostra Memória e Verdade” é uma das exibições voltadas ao golpe de 1964, abordando questões sobre a ditadura e os contornos políticos do período. Os documentários “Setenta” (2013), de Emilia Silveira Brasil, e “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho, estão entre as escolhas da curadoria assinada por Rafael de Luna Freire, também coordenador geral da mostra.
“Já temos no Brasil um conjunto muito significativo de longas, curtas e documentários sobre direitos humanos. Então, escolher apenas cinco filmes para quatro sessões foi difícil... Optei por filmes em que a discussão é levada mais a fundo, que traz questões novas ou novos ângulos, que tivesse diversidade de temas e período. Isso possibilitou ter na mesma sessão um ‘doc’ de 2013 e o clássico ‘Cabra Marcado’”, diz Freire.
A homenageada da 9ª edição do evento, também segue o debate em torno dos anos de chumbo com um pequeno panorama de sua produção cinematográfica incluída na “Homenagem Lúcia Murat”. A cineasta declara que é difícil para ela assistir a seus filmes antigos, mas que é muito gratificante ver que até hoje são vendidos: “O cinema é uma arma muito poderosa pra você discutir diversas coisas”.
Entre seus filmes que serão exibidos, está o longa-metragem “Que Bom Te Ver Viva”, um compêndio de histórias, relatos e lembranças dos tempos de prisão lançado em 1989. “Incrível que 25 anos depois ele continua capaz de expressar essas questões. E acho que continua porque o Brasil – diferentemente da Argentina e do Chile – demorou para discutir essa questão da tortura”, opina Murat.
A novidade que o evento traz este ano são filmes produzidos não só na América do Sul, como nos outros anos, mas também em países como Egito e Jordânia. “A iniciativa é muito bem-vinda para discutir o tema, mas também para levar ao público a visão destes filmes que não chegam ao circuito comercial, para tirar o foco da Europa e Estados Unidos e mostrar o que acontece no Hemisfério Sul”, diz Freire.
A “Mostra Competitiva” do evento inclui 24 longas, médias e curtas-metragens, em que as plateias elegem os melhores filmes através de votação popular. Entre eles está “Ameaçados”, de Júlia Mariano, mostra a situação de pequenos agricultores do Sul e Sudeste do Pará, que lutam por um pedaço de terra – e para permanecerem vivos nesta luta. E a “Sessão Inventar com a Diferença”, exibe filmes-carta produzidos por alunos de escolas públicas do país através de projeto homônimo. Entre os destaques dessa sessão especial, está o documentário “Pelas Janelas”, produzido por alunos da Universidade Federal Fluminense e que ganhará sua primeira projeção pública durante o evento.
A realização da Mostra é da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, em parceria com o Ministério da Cultura e a UFF, que colaborou para que todos os 41 filmes exibidos contem com sistema closed caption e serviço de audiodescrição, voltado para pessoas com deficiência visual.
9ª Mostra Cinema e Direitos Humanos no Hemisfério Sul
Quando: 4 a 9 de novembro
Onde: Cine Líbero Luxardo (Centur)
Endereço: Avenida Gentil Bittencourt com Travessa Rui Barbosa, 650 – Nazaré.
Quanto: Entrada Franca
Programação de abertura
Dia 4 de novembro, terça-feira
Mostra Memória e Verdade
14h - “Setenta” (Emília Silveira, Brasil, 2013)
16h - “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda” (Jorge Furtado e José Pedro Goulart, Brasil, 1986) e “Ação Entre Amigos” (Beto Brant, Brasil, 1998)
Mostra Lúcia Murat
18h – “Que Bom Te Ver Viva” (Brasil, 1989)
Veja a programação completa em: www.mostracinemaedireitoshumanos.sdh.gov.br/
(Diário do Pará)
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