O historiador Nélio Moreira também é músico, inclusive já atuou profissionalmente, e confessa que a música é sua paixão especial na vida.
Talvez seja por isso que tenha feito um estudo tão interessante para seu mestrado em antropologia social.
Resolveu estudar a influência das redes de relacionamento entre os artistas paraenses e a música que eles produziam, e descobriu o quanto a sociabilidade gerava um compromisso entre eles e com a forma com que produziam suas canções.
“A pesquisa faz referência aos anos 1980, que era de uma grande efervescência cultura. Mostrou que a relação entre os artistas fez com que eles tivessem um projeto em comum, não instituído, como se fosse um inconsciente social, que os levou a um objetivo em comum: fazer música da cidade. Trabalho com o conceito de rede social por acreditar que os artistas estavam ligados, conectados em convívio social e tinham objetivos comuns”, explica o pesquisador, que vai expor seu estudo no 9º Encontro Regional de História - Memória e Cidadania, que começa hoje, promovido pela Universidade Federal do Pará.
Nélio detalha que o objeto da pesquisa faz referência aos músicos que produziam canções populares, a conhecida Música Popular Paraense, que até então nem tinha essa denominação, mas pretendia ser uma desinência da Música Popular Brasileira, mas com uma forma própria.
“Fazer música da cidade era um projeto que tinha o intuito de levar essas canções para serem incorporadas à MPB e, por isso, se aproximavam dela em alguns aspectos estéticos, mas também era uma reação a essas músicas.
Sem dúvida, havia um interesse desses artistas de inserir a música local no contexto nacional, mas com características da cidade”, completou.
A pesquisa de Nélio levou em conta a documentação histórica da época, basicamente a forma como jornais abordavam o lançamento dessas músicas, e entrevistas com os artistas que estavam envolvidos na cena.
“Entrevistei Nego Nelson, Nilson Chaves, Pedrinho Cavallero, Walter Freitas, Mário Moraes, César Escócio e Alba Maria, para citar apenas alguns deles. E percebi no resultado do que produziam, características regionais.
Falava-se de lugares de Belém, circuitos que eram comumente frequentados por esses artistas e que faziam parte do cotidiano deles, era uma temática recorrente”, acrescentou o pesquisador.
O ponto chave da pesquisa que permitiu que Nélio entendesse melhor essa dinâmica foram os festivais de música que pipocavam na cidade. “A Feira Pixinguinha em Belém, sem dúvida, é um marco do início dos anos 1980, que faz parte dessa rede de produção cultural e que se encerra com Festival de Música Canta Belém, promovido pelo Serviço Social do Comércio em 1990.
Destes festivais. saíam discos que ajudavam na divulgação do trabalho os artistas, algo que seria uma oportunidade grande de disseminação da música pelo Brasil.
Os artistas produziram muito e tinham interesse em fazer músicas. Basta lembrar ‘Belém Pará Brasil’ composta por Edmar Rocha e interpretada pelo Mosaico de Ravena e que foi segundo lugar no festival.
Outro exemplo é ‘Olhando Belém’ composição de Celso Viáfora interpretada por Nilson Chaves”, esclarece o pesquisador.
Um exemplo do que Nélio explica é o conteúdo das músicas produzidas nesse período, algumas mais regionalistas, como é o caso de Nilson Chaves. e outras que também abordam essa temática mas de outra forma.
“No que Nilson produzia ficava explícito essa música regional, mas Walter Freitas, por exemplo, produzia em um tempo, ritmo e palavras diferentes, mas também abordando coisas de Belém.
A relação se comprova porque Nilson exerce uma influência em Walter por ter sido o produtor do seu disco em 1987”, acrescenta.
Conexões se restabelecem
A pesquisa foi tão boa que Nélio dará continuidade a ela. Vai estudar essas relações de 1990 em diante, apontando como a globalização influenciou e quais resultados foram gerados.
“Minha hipótese é que a partir da década de 1990 as redes se formavam de outra maneira e com o advento da internet foram se reconfigurando. Acredito que a globalização interferiu nesta cena musical, até porque artistas saíram de Belém e outros, que eram de fora, também vieram para cá, estabelecendo este intercâmbio”, cogita o pesquisador.
A forma como a canção popular passa a ser vista nessa fase também se altera, acredita Nélio, e a formação dos músicos se mistura também com o clássico.
“Na década de 1980, as composições não tinham uma formação clássica, na sua maioria. Já na década de 1990 se observam músicos que saem dos conservatórios e migram para a música popular, o que, com certeza, deu uma nova cara para a cena. As transformações não param de acontecer e há quem acredite que, a partir de 2010, outra parte da história se construa de acordo com as mudanças na cidade”, antecipa o pesquisador.
Por isso Nélio não poderia ter escolhido nome melhor para sua dissertação: “A Música e a Cidade”.
(Diário do Pará)
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