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Oficina leva cinema para Vila da Barca

Como estará a Amazônia no futuro, daqui a 100 anos, por exemplo? Ainda haverá resquícios da floresta? A cultura dos povos tradicionais sobreviverá à ação do tempo e aos interesses políticos e econômicos? Teremos uma sociedade com mais justiça social ou os

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Como estará a Amazônia no futuro, daqui a 100 anos, por exemplo? Ainda haverá resquícios da floresta? A cultura dos povos tradicionais sobreviverá à ação do tempo e aos interesses políticos e econômicos? Teremos uma sociedade com mais justiça social ou os avanços tecnológicos não nos impedirão de enfrentar o caos absoluto, retratado no cinema em clássicos como Blade Runner (1982), do diretor Ridley Scott? Estas reflexões sempre instigaram o professor e pesquisador Luiz Adriano Daminello, do curso de Cinema da UFPA. Até o início do próximo mês, ele conduz um projeto desafiador: fazer o primeiro filme de ficção científica da Vila da Barca, localizada no bairro do Telégrafo. Ministrada na Fundação Curro Velho, a oficina, que resultará no curta-metragem, tem como um de seus objetivos quebrar preconceitos e estereótipos associados às áreas periféricas dos grandes centros urbanos. A intenção é mostrar que, mesmo enfrentando dificuldades diárias, os moradores têm motivo para se orgulhar e capacidade de se tornarem verdadeiros protagonistas de suas histórias.
A oficina possibilita aos participantes o contato com todos os processos da produção cinematográfica. Do storyline inicial que deu origem ao roteiro até a finalização, os alunos irão operar câmera, criar efeitos especiais, misturar locações reais com maquetes e miniaturas, captar áudio, editar, além das demais etapas de pré e pós-produção. “Eles participam de todo o processo e aprenderão, inclusive, a criar veículos e espaçonaves, manipulando materiais, e depois a inserir esses elementos no cenário. O bacana é que, além de estarem atrás das câmeras, eles também estarão à frente delas”, fala Luiz Adriano, que também está trabalhando no argumento daquele que deve ser o primeiro longa-metragem de ficção científica paraense. A ideia é que o curta possa ser exibido tanto na Fundação Curro Velho quanto na Vila Barca, a intenção também é inscrevê-lo em festivais.

Luiz Adriano afirma que sempre se interessou em investigar a passagem do tempo longe de centros urbanos, em comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas. “Eu conheci a Vila da Barca enquanto participava da gravação de um clipe da Iva Rothe, que queria filmar lá. Achei a geografia, a paisagem, o modo de vida, tudo muito interessante. É um lugar que preserva características únicas, diferentes do que o nosso olhar está acostumado a ver”, diz. Para o professor da UFPA, colocar a Amazônia numa perspectiva futurista amplia discussões e enriquece debates. “Além do lado da diversão, da aventura, do entretenimento, a ficção científica aborda elementos bem importantes do ponto de vista social. Aqui, além da floresta, temos vários modos de vida, interesses conflituosos, e essas contradições são muito ricas”, observa.

Na opinião de Luiz Adriano, o futuro da Vila da Barca, assim como a de centenas de comunidades tradicionais do Estado, é incerto. “Os administradores, geralmente, não tem muito apreço pela riqueza histórica e cultural desses lugares. Quando se faz um projeto de urbanização, se padroniza as casas e esquece o que estava ali antes. Eu já vi fazerem casas de alvenaria em uma aldeia indígena e os índios, que nunca tinham morado naquilo, usavam elas só como depósito. Quer dizer, é claro que é preciso melhorar a qualidade de vida das pessoas, mas que se faça isso levando em consideração a arquitetura, as palafitas, o valor simbólico da comunidade”, pondera.
Sem perder a esperança

Para o instrutor David Matos, que já trabalhou roteirizando projetos renomados como o “Catalendas”, da TV Cultura, todos os elementos que compõe uma história de ficção científica estão no inconsciente coletivo. “Quando nós pensamos no princípio da história, os alunos imaginaram um personagem perdido em outro planeta, precisando voltar para casa, enfrentando uma série de dificuldades. Isso nada mais é que a jornada do herói visto em centenas de filmes, como Star Wars, por exemplo. Eu deixo os alunos trabalhando de forma bem livre e, só no final, eles vão perceber essas referências”, explica.

David, há anos, ministra oficinas no Curro Velho e diz que o estigma que a Vila da Barca recebe, muitas vezes vindo dos próprios moradores, reflete a situação de uma comunidade desiludida. “De uns anos para cá, a situação melhorou. Mas há algum tempo, nós tínhamos os lanches durante as oficinas, antes das apresentações, e, ao invés de vir apenas o aluno, vinha toda família, só para comer. Nós já precisamos chegar ao ponto de deixar de dar comida para os adultos porque não sobraria para as crianças. Faz tempo que esse povo sonha com melhorias e, de tanto esperar, muitos já perderam a esperança”, lamenta.

Alice Alves, 16 anos, mora próximo à Vila da Barca e é monitora do Curro Velho. Para ela, que também participa da oficina de cinema, o pior preconceito que a comunidade sofre vem dela mesma. “As próprias pessoas não gostam do lugar onde moram e chegam a ter vergonha de lá porque não conseguem enxergar nada de bom ali. É muito triste porque vários moradores não gostam nem de dizer que vivem na comunidade”, fala.

Kazu Ishizaki, 18 anos, também trabalha como monitor no Curro Velho e, apaixonado por audiovisual, não perdeu a oportunidade de participar da oficina. Morador da Vila da Barca, ele afirma que parte da responsabilidade pela baixa autoestima dos moradores é da mídia. “Geralmente, a Vila da Barca está associada apenas às matérias policiais e é vista como área vermelha, é quase como se fosse só um problema para ser resolvido, como se não morassem pessoas ali”, critica. Na opinião de Kazu, a produção do filme na comunidade resgatará, de certa forma, o respeito que os moradores deveriam ter pelo local. “É uma questão de olhar, eu acho. É preciso treinar o olhar para ver outras coisas, não só as ruins, mas as boas também”, argumenta.

Luiz Adriano Daminello espera que a realização do curta-metragem contribua para o fortalecimento da identidade dos moradores da Vila da Barca. “As pessoas devem ter orgulho do lugar onde moram”.

CONHEÇA

Oficina de produção cinematográfica
Quando: até o dia 10 de dezembro (começou no dia 30 de outubro).
O horário é de segunda a sexta-feira, das 15h às 17h.
Inscrições: podem ser feitas, gratuitamente, na sede da Fundação Curro Velho (Rua Professor Nelson Ribeiro, 287, bairro do Telégrafo).
Informações pelos números (91) 3184-9110 ou 98895-1334.

(Diário do Pará)

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