O muro que existe entre a universidade e a comunidade precisa cair. Com essa intenção, surgiu, na Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará, o Projeto de Extensão “Novos Encenadores”, que constrói espetáculos com atores em formação, não atores e a comunidade em geral, principalmente moradora da periferia de Belém e jovens em situação de vulnerabilidade social da comunidade do Riacho Doce, que foi a mais recente em ganhar voz através do projeto.
Com o Grupo de Teatro Universitário (GTU), a comunidade teve seu cotidiano retratado na peça “Zeca de uma Cesta só!”, dirigido e escrito por Leandro Ferreira, morador do Riacho Doce, e encenado no Teatro Cláudio Barradas. O jovem diretor conta que sua intenção sempre foi tirar do anonimato os personagens daquela comunidade, onde vive há 23 anos.
“Por meio do teatro é possível quebrar um pouco da seriedade do que é real, do que é difícil de lidar na comunidade. É possível tocar em temas como o tráfico de drogas e a violência. Além de debater e denunciar a violência, o teatro, acredito, também ajuda na formação das pessoas dessas áreas. Ele quebra o estigma de que elas devem se conformar com ‘o que o destino preparou’ para suas vidas. A arte tem esse poder, de expandir bruscamente nossa visão e possibilidades”, diz Leandro.
A peça narra um dia de distribuição de cestas básicas na comunidade do Riacho Doce, local onde a protagonista, Zeca, mora. Ao decorrer de apenas um dia, são revelados os caminhos que a levaram até aquela vida e o meio social com o qual convive. Brenda Lima, 19 anos, foi quem viveu “Zeca” nos palcos. Ela veio de uma área carente em Icoaraci e diz que a realidade das periferias são parecidas.
“Colocamos em cena tudo o que encontramos no Riacho Doce - a vida agitada, barulhenta, a alegria e os medos - e acho que o espetáculo foi fiel à realidade. Pessoas da periferia se reconheceram mesmo sem ser exatamente daquela área. Levei uma amiga que mora no Jurunas e ela afirmou que viu naqueles personagens pessoas do dia-a-dia dela”, comenta Brenda, que teve no espetáculo seu primeiro contato com o teatro.
E Brenda já tinha muitas razões para identificar-se com sua personagem, ambas são filhas de mãe evangélica e conservadora. Isso aconteceu com outros participantes, como Edson Duarte, 21 anos, que assim como Zeca, chegou ao Riacho Doce quando veio para a capital estudar. Oriundo da cidade de Curuçá, ele morou no local por quase um ano. Aluno de Licenciatura em Teatro da UFPA, quase desistiu por não se identificar com o curso.
O que fez Edson continuar no curso? Convidado a participar de “Zeca de uma Cesta Só”, ele entendeu a força desta linguagem para mudar ator, espectador e realidade. “Tenho certeza que o espetáculo mudou minha visão sobre aquela realidade, como deve ter mudado a dos espectadores. Quem nunca morou ali, acho, teve a oportunidade de iniciar uma importante reflexão. Quem já viveu, se reconhece e passa a querer agir para mudar sua própria história”, resume.
No último dia do espetáculo, que concluiu este mês sua segunda temporada, pessoas que realizam peças teatrais em igrejas de diversas periferias de Belém estiveram presentes para assistir, o que impulsionou um novo projeto. “Agora estou pensado em uma maneira da universidade levar oficinas para os autos de natal que estão sendo produzidos por essas pessoas, para dar noções de cenografia, iluminação, figurino. Acredito que o teatro universitário tem essa dívida com a comunidade, que esse muro que os separa precisa cair”, declara Leandro.
A DANÇA COMO VIA PARA A EDUCAÇÃO
A Casa Ribalta nasceu em 2004 por iniciativa da sonhadora Marlene Andrade Ferreira que desde sua juventude desejava ser bailarina, mas vivia em uma realidade que não lhe permitia custear o estudo e uma carreira. Os anos se passaram e o sonho foi se unindo aos de outros jovens que aos poucos chegavam à escola – com jeitinho de casa – para aprender seus primeiros passos no mundo da dança. Entre eles, Jennifer Nascimento, que é quem conta do surgimento desse espaço e de sua própria trajetória.
A bailarina começou na Casa Ribalta aos 14 anos de idade, “já tinha as duas salas de aula, vestiário e lanchonete, já estava se transformando em escola de fato”, conta ela sobre sua chegada. O espaço, que antes era a casa da própria idealizadora do projeto, localiza-se em Ananindeua, em ponto central para diversos bairros considerados periféricos, como Icuí, Paar, Curuçambá, Guajará e Águas Brancas. E é nestes bairros que moram boa parte dos alunos – 250 ao todo.
“É um trabalho muito interessante porque nós estamos interligados com áreas onde crianças, jovens e adultos não têm condições financeiras para bancar uma escola de balé. O preço ainda é muito elevado. Por isso mantemos um custo baixo e muitos alunos recebem bolsa integral. Trabalhamos com o valor necessário apenas para pagar o básico: água, luz, limpeza, manutenção e telefone”, conta Jennifer.
Apesar do trabalho com baixos custos, a Casa Ribalta – que hoje divide-se em Escola de Dança e Companhia de Dança Ribalta – tem alçado voos cada vez mais altos, fazendo com que os jovens tenham ainda mais esperança em construir um futuro nas artes. Este ano, o espaço completa 20 anos de existência com participações em eventos importantes, como o Encontro Internacional de Dança do Pará, o Festival Nacional de Dança de Fortaleza e o Seminário Internacional de Dança de Brasília.
Além disso, a Casa procura manter o contato direto com a comunidade através de eventos próprios, como o “Tarde de Talentos”, onde o aluno mostra o que gosta de fazer, desde pintura e escultura até vídeos e poesia; o “Sapatilhas na Roça”, que geralmente acontece no mês de junho e corresponde às coreografias com temáticas folclóricas e amazônicas; além dos espetáculos anuais que marcam o encerramento das atividade letivas, sempre com temática e roteiros que transparecem a realidade local.
“Nossa grande missão é a dança como uma via privilegiada para a educação de todos. Estamos num barro periférico e queremos promover nele uma formação artística em vários estilos de dança, balé, jazz, sapateado, e promover durante todo o ano estes eventos para que toda a comunidade se encontre aqui e participe”, explica Mayrla Andrade Ferreira, diretora artística da escola e companhia de dança.
Mayrla também é filha da idealizadora do projeto, Marlene Andrade. Já Jenniffer Nascimento é hoje uma das bailarinas da companhia de dança e professora na Casa Ribalta. É por suas próprias histórias de crescimento e amadurecimento dentro do espaço que elas acreditam na continuidade e importância desse projeto para as comunidades que se encontram naquele endereço. “Estou com 22 anos e o Ribalta é muito do que eu sou, ele fez essa construção. E se depender de nós, continuará a fazer”, conclui Jennifer.
Casa Ribalta: Cidade Nova 6, we 77, casa 652 - Ananindeua.
(Diário do Pará)
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