A escritora paraense Wanda Monteiro volta a Belém esta semana para lançar seu novo livro. Escrito a quatro mãos com Maria Helena Latini, o romance “Duas Mulheres Entardecendo” será lançado aqui na terça-feira, com as honras que uma grande obra merece.
Com apresentação do escritor, professor e crítico literário Paulo Nunes, e posfácio assinado pela escritora e poeta paraense Olga Savary, o livro narra a reinvenção da memória no exercício da escrita. A ideia, segundo a própria autora, veio de um encontro entre duas escritoras cujo pacto foi dialogar sobre o transtemporalidade no ato da escrita.
“Criamos duas personagens, duas mulheres entardecendo, que conduziriam o fio da narrativa. E, passo a passo, fomos fazendo a tessitura de histórias que revelam os contrastes dos universos dessas personagens. As histórias narradas em prosa poética provocam intensas reflexões sobre temas universais como a compreensão sobre o tempo e a memória no ato da escrita”, explica a autora, que é filha do escritor Benedicto Monteiro.
Quando questionada se a história do seu livro é resultado de alguma vivência pessoal, Wanda é clara ao explicar que sim. “Tudo o que escrevo tem relação comigo. Dizem que sou poeta, acho que talvez tenham razão, pois assim como os poetas, eu visto todas as peles e sinto todas as dores do mundo”, diz.
O lançamento acontece no teatro do Sesc Boulevard, onde o público confere uma leitura cênica dos textos que fazem parte do romance, feita pela própria escritora, e pela cantora Alba Maria. No cenário, projeções mapeadas de Diogo Vianna.
Antes mesmo de checar ao público em livro, o romance já está sendo roteirizado para um espetáculo de teatro. O lançamento nacional está marcado para março, no salão nobre do Teatro Municipal de Niterói. Depois será levado para a Festa Literária Internacional de Paraty e às bienais do livro do Rio de Janeiro e de Porto Alegre, além dos principais espaços culturais do Estado do Rio de Janeiro, como o Teatro Popular Oscar Niemeyer; Museu de Arte Contemporânea, o Museu Imperial do Catete e o Solar do Jambeiro.
“No caminhar dessa escrita, também fomos tomadas por essa atmosfera imagética dos textos e logo percebemos a força da fala dessas personagens. Na leitura que fazíamos dos textos, em cada encontro para acertar os passos da escrita, íamos percebendo a possibilidade cênica no corpo dos textos”, acrescenta Wanda.
As autoras têm vários livros publicados e muitos outros ainda inéditos. Mas, pelos elogios da crítica, a vinda de outros livros parece uma consequência lógica.
“Além de ter lançado no mercado editorial ‘O Beijo da Chuva’ e ‘Anverso’, ambos de poesia, escrevi vários livros que ainda não foram publicados, como coletâneas de contos, crônicas, prosa poética e um romance em movimento. Maria Helena Latini, que também escreve para teatro, publicou ‘Fio de Prumo’, ‘Ângela e Antonio’ e tem vários livros também inéditos”, comenta Wanda.
Sobre a parceria com Maria Helena, Wanda elogia a forma da autora misturar poesia aos seus textos e se sentiu feliz com a parceria literária. Wanda sente um misto de prazer e angústia com a publicação de seu livro, adicionado ao peso que o escritor carrega quando se propõe a dar testemunho do seu tempo.
“Maria Helena Latini tem a destreza no ato de esculpir seu denso e rico imaginário poético. Nesse ‘Duas Mulheres Entardecendo’, escrever e dialogar com essa irmã de sonhos, foi como subverter o tempo e o espaço, abrindo cicatrizes. E num crescente desafio de compor e recompor a pluralidade das percepções da memória, experimentar os sensores da linguagem, e com eles, tecer a lírica da dor e do amor. Resta-me dizer do espanto e da vertigem em fazer com ela a partilha desse chão, nessa libertadora lavra da palavra”, acrescenta a escritora.
Saudade e emoção
Ela trouxe o pai para dentro de sua obra através da emoção e da saudade que sente dele. “Quando eu penso ou falo em Benedicto, o escritor, raramente conjugo os verbos no pretérito. Eu sinto essa memória no tempo presente, porque para mim o escritor e o poeta têm sua ressurreição diária nas palavras. Quando falo no pai, aí o que eu sinto é muita saudade. Muitas dessas lembranças estão no livro, reinventadas ou não, vestidas de alegorias e oníricas atmosferas”, revela a autora.
Paulo Nunes comenta em sua crítica que não gostaria de enquadrar o trabalho de Wanda em um gênero, mas não o considera um romance e sim “uma espécie de prosa que está acoplada no buquê da poesia”. Wanda aceita o que o escritor diz.
“Eu penso e sinto como Paulo Nunes, e assim como ele, não gosto de me render às amarras de gêneros e classificações. Mas, tenho lido novas e revolucionárias obras na literatura brasileira e fora de nossas fronteiras e sinto que, hoje, a estrutura romanesca se apresenta de forma nova. Mas esta é uma questão acadêmica, e o que faço é simplesmente escrever”, diz.
O trabalho é ainda mais especial por ter uma epígrafe assinada por Benedicto Monteiro, que a influenciou e, segundo Wanda, ainda vive em sua memória através de suas obras que são imortais.
“Eu procurava um texto que acendesse no leitor a ideia de que a compreensão de tudo que vivemos, o próprio sentido da vida, quem dá o testemunho são as palavras, e pode até parecer coisa misteriosa, mas abri um baú para procurar o livro ‘Grau Zero’, de Roland Barthes, e estava lá, o livro de Benedicto marcado com uma foto nossa na exata página que guardava esse texto: “ ... a prova de toda existência o que dá mesmo são as palavras.’ Caiu como luva, desconfio que foi ele mesmo que me enviou a epígrafe. Na arte e na vida tudo é possível”, diz, emocionada, a autora.
Para Wanda, ter as opiniões de Paulo Nunes e Olga Savary sobre o livro também é especial. “A genialidade desses dois escritores e sua generosidade em escrever sobre nosso trabalho, ao contrário de me envaidecer, fez cair ainda mais sobre minha pena o peso da responsabilidade. O olhar dos dois sobre essa escritura me deu um outro norte para essa senda que cavo no exercício solitário da escrita. É evidente que tem muito de mim nos textos escritos por mim, assim acontece com os textos de Maria Helena Latini. A proposta foi tecer memórias numa atmosfera onírica onde podíamos subverter tempo e espaço e promover a reinvenção dessa memória”, comenta Wanda.
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar