Um capítulo inteiro do livro é dedicado às poesias engajadas de Ruy Barata, produzidas entre 1959 e 1964. “Nelas, ele denuncia a opressão na África e na América Latina, especialmente no Brasil. Também acrescentamos manuscritos como um bilhete que ele enviou a Mário Faustino”, destaca Tito Barata.
Em suas páginas finais, o livro carrega uma biografia reduzida realizada por Alfredo Oliveira – autor de “Paranatinga”, misto de biografia e antologia poética de Ruy Barata. E ainda um belo ensaio, intitulado “O Anjo e a Linha”, escrito por Benedito Nunes.
“É preciso esclarecer que não considero ‘Anjo dos Abismos’ apenas como revelação de um talento, que prometia aquilo que depois realizaria magistralmente. Já nessa coletânea ele deixa escapar, de quando em vez, alguns fragmentos de futuras motivações de sua poética (...)”, escreveu Benedito neste ensaio produzido para a revista “Norte”, em 1952. O texto traça um perfil do poeta a partir de seu primeiro livro e do segundo, “A Linha Imaginária”.
Tito Barata conta que foi um processo muito complicado republicar os poemas do escritor que um dia considerou que “a poesia é sempre um passar a limpo”. Além de suas palavras estarem ligadas aos temas que lhe eram contemporâneos, o próprio Ruy “depois mudou e revisitou muitos de seus poemas, substituindo palavras e mudando versos”, explica Tito.
Por isso também o livro, que deveria ter saído em 2013, durante a 17ª Feira Pan-Amazônica do Livro que homenageou o poeta, acabou sendo adiado.
“Diante da oportunidade de reeditar ‘A Linha Imaginária’, eu resolvi aprofundar quem era cada um dos citados nos poemas, a quem era dirigido o poema, fiz uma pesquisa em família e quis captar essas nuances contidas nas palavras e que se ligavam a determinado momento da vida dele”, explica Tito.
Ao conseguir reunir tantos detalhes e materiais de valor incalculável, ele diz que sua intenção foi dar ao leitor, através da obra, “uma visão essencial sobre a dimensão humana e poética de Ruy Barata”.
Lançamento
A capa e projeto gráfico do livro têm a assinatura do designer José Antônio Oliveira, com apoio da equipe do Departamento de Editoração e Memória da Secretaria de Estado de Cultura (Secult), que promove o lançamento. O evento inicia com o show “Jazz Abraça Ruy”, do grupo de jazz do contrabaixista Adelbert Carneiro, a partir das 18h30, no Coreto Central do Parque da Residência.
Ruy Paranatinga Barata nasceu em Santarém, em 1920, e além de poeta foi advogado, cartorário, jornalista e professor, exercendo ainda intensa atividade política. Após “A Linha Imaginária” e “Anjo dos Abismos”, também publicou “Antilogia”. Fez parte do grupo de intelectuais que frequentava o chamado Central Café nos anos 1940, dentre eles, Haroldo Maranhão e Waldemar Henrique.
Ficou ainda mais conhecido por sua parceria com o filho e músico Paulo André Barata, que deu origem a grandes composições como “Foi Assim” e “Esse Rio é Minha Rua”, sucessos até hoje. No local onde será lançada a obra “A Linha Imaginária e Outras Linhas”, Ruy estará bem representado pelo filho Tito e familiares, mas também por ele mesmo, já que o espaço escolhido - o Parque da Residência – abriga em seus jardins uma bela estátua do poeta.
LA PLUS QUE LENTE
O silêncio ligava
as cadeiras de um lado
com as cadeiras do outro.
As velas sufocavam em agonia
e a noite era maior no candelabro imóvel.
Entre o ser e o não ser
erguia-se a memória
e os sonhos passeavam
entre o jarro e o consolo.
E sobre a mesa familiar,
onde a face da ausente não se apaga,
os pés da morta
vivos como peixes.
Ruy Barata
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar