Das obras que estão em exposição em “Real Sociedade Amazônica”, quase metade já estava vendida antes da abertura ao público. E questiono se é difícil para Mindello separar-se de suas pinturas, o que ele confirma com veemência.
“É muito difícil deixar ir aquilo que a gente criou, que tem carinho… Tem três ou quatro ali que eu espero que não venda não”, ele ri.
Dentre as quatro obras que Odair Mindello mais gosta em sua exposição estão “Estudante”, cena conhecida do jovem que em sua canoa, de mochila nas costas, rema para chegar à escola. Nela, o rio é um belo pontilhado de azul em diversos tons e um verde-claro por onde segue a canoa e sua sombra.
Há também “Paisagem Ribeirinha”, que pintou quando tinha 13 anos e retrata de forma bem realista o cenário das casas de palafita e o rio de águas calmas que, como um espelho, reflete o mundo acima dela.
Além de ser apaixonado pela profusão de cores, Mindello também deixa escapar em suas telas um certo fascínio pelo número oito. “Até o Edson Franco (professor) se ligou na minha ‘vibe’ e no texto de apresentação que fez sobre a exposição escreveu oito parágrafos como uma referência. Acho o oito um número cabalístico que me dá muita sorte e sempre parece estar presente no número de telas, nas datas importantes…”, conta o artista, aos risos.
Em “Real Sociedade Amazônica”, seu número da sorte é bem visível no esboço de “Os Cachos Dela”, pintura em acrílico sobre papel, produzida em 2013. E Mindello diz que, mais do que “criar telas”, o que faz é “crear”: “Para mim a arte deve ser para ‘crear’, para gerar minhas pinturas de forma a representar a beleza, a ordem social, a cultura, tudo de forma verdadeira, que faça as pessoas crerem naquilo, caso contrário não tem como ser bom, muito menos belo”, explica.
Algumas obras levaram apenas três dias para serem feitas, outras, meses. Durante o processo de criação – a pesquisa, o esboço e o pintar -, Mindello diz que o mais difícil é chegar ao ponto em que ele consegue olhar para a obra e acreditar que está finalizada.
“Eu sou muito assim, de pintar, desfazer, repintar. Há uns oito anos, passei a pintar desta maneira que você vê, em várias camadas. Isso permite dar uma certa luminosidade à obra”, revela.
Mesmo os pequenos detalhes foram pensados antes da exposição, como o uso de películas negras na moldura. “Eu quis dar um ar mais sofisticado a elas. Sou do tipo que perturba mesmo (risos). Quando todo mundo já está terminando de organizar, eu apareço com alguma novidade”, diz ele. Sobre a sua dedicação à pop art, ele diz que isto não é empecilho para experimentações: “O artista que se prende a uma única técnica não evolui”.
Quem se depara com as pinturas em exposição não pode deixar de admirar a luminosidade paraense – de sol intenso mesmo – retratada com perfeição. Mas também um personagem que está diante das casas ribeirinhas, que chega aos olhos antes da cidade vista ao longe e ocupa a tela onde o pescador limpa o peixe: o rio.
“Ele vem da infância no interior, quando passava férias na casa do meu avô. Vem dos 12 anos que pratiquei o remo. Vem do contato diário que remete ao som do ‘po-po-pô’ passando, da batida das águas no trapiche, no barco”, por isso o rio está quase permanentemente presente, explica.
E por que suas pinturas estão sempre tão ligadas à Amazônia? Ora, diz Mindello, se Picasso tão bem pintou as touradas de Madri, ele tem também o prazer de representar o universo no qual cresceu e sempre amou. Além disso, completa, “Amazônia é uma das palavras mais pesquisadas no mundo”.
“As pessoas que me procuram, que encomendam uma tela minha, é porque querem ter algo que a retrate”, assume.
(Diário do Pará)
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