A“Mostra de Arte Primeiros Passos – CCBEU” abre hoje e o pódio ficou bem variado, como era esperado pela organização diante da quantidade e qualidade dos trabalhos inscritos. Embora as três obras vencedoras sejam de linguagens diferentes, os ganhadores possuem características importantes em comum: todos são jovens iniciantes na cena cultural de Belém e têm a vontade de transformar em arte aquilo que os cerca. E conhecê-los é preciso.
O primeiro lugar do salão foi para a série de fotografias “Desejo de Estrangeiro”, de Cinthya Marques. “Ele é um desdobramento de um trabalho que eu já venho realizando sobre o lugar onde moro, a questão do deslocamento estrangeiro, a visão do homem que não nasceu no lugar onde vive, mas já se ambienta”, explica a fotógrafa. As três imagens vencedoras partem de um mesmo ponto de vista: o apartamento, na avenida Presidente Vargas, onde Cinthya mora. Apesar de estar no centro, ela diz que dali não vê pessoas, só os prédios, o concreto. O que busca em suas imagens então é discutir essa não-convivência. “Refletir sobre o outro, se está em mim, talvez em outro lugar...”, filosofa. As fotos são digitais e têm predominância no preto com nuances em cor. Assim a artista guia a visão do espectador, dá foco à discussão central: transitoriedade, identidade e relações com a cidade. Pesquisando o tema desde 2012, ela explica que estas são um recorte da série, cujo nome nasce desse convívio em ambiente estranho, modificado. Nasce também da “vida estrangeira” da fotógrafa.
“Vim de Macapá, no Amapá, em 2006, para estudar fotografia e fiquei até hoje. Faço mestrado em Artes e atuo profissionalmente desde 2008”, conta. Um pouco diferente do ganhador do segundo lugar no salão, o jovem Igor Felipe de Oliveira, que apenas ano passado começou a trabalhar a técnica do “stencil graffiti”.
“Ela foi uma mini-intervenção urbana que executei e depois fotografei, por isso inscrevi no salão como instalação. Também pintei no papel fabriano, que é o que será exposto”, explica Igor que, sem qualquer formação artística, iniciou nas artes visuais através do desenho, “que então acabou por ramificar até o grafite”.
Guiado pelo instinto, ele busca reproduzir a poética que vê em situações e paisagens através de imagens. O mesmo ocorre com Leonardo Venturieri, ganhador do terceiro lugar olhando para o alto. “Foi a partir de um hobbie de astrônomo amador – gosto de observar e filmar estrelas – que consegui um bom material de observações e resolvi montar esse vídeo”, conta. A obra é chamada “Poema Astral” e reúne imagens de astros, incluindo Júpiter e estrelas como Aldebaran. Em um processo principalmente de edição, o artista aproveitou o movimento que cada um deles faz no universo e criou um sincronismo com música eletroacústica, além de acrescentar algumas “luzes terrenas” das cidades que se iluminam à noite.
“Eu já tinha um trabalho anterior, o ‘Danças Lunares’. A linguagem não é a mesma, mas considero que foi o primeiro passo para desenvolver o ‘Poema Astral’. No primeiro, peguei a lua e sincronizei com cores a cada nota da música”, explica Venturieri. O casamento entre música e a paixão pelo espaço vem da própria formação do artista, bacharel em Composição Musical pela Uepa, com especialização pela UFPA.
O vídeo com o qual foi premiado tem duração de cinco minutos e meio, editados em dois meses. “Acho que foi um ano bom para mim, pois também fui premiado no salão Xumucuís de Arte Digital. Acredito que devo seguir este caminho, de imagem e música”, finaliza.
Novos Rumos
Nesta edição do “Primeiros Passos” também expõem Elisa Kunz e Alexandre Moura, que receberam menção honrosa, Adan Bruno, Ana Paula da Silva, Breno Morais, Cláudio Guimarães, George Marques, Hugo Trindade, Izabela Leal, Jefferson Ferreira, John Couston Junior, Karina Martins, Keoma Matheus, Maria Simonetti, Matheus de Souza, Pedro Sampaio, Rutiel Felipe, Sarah Miranda, Sérgio Cardoso, Silvio Queiroz, Tarcísio Santos, Tatiane Ximenes e Verônica Lima.
“Os premiados surpreenderam de modo geral o júri e já estamos pensando em uma reformulação da mostra, porque a gente percebe que geralmente são estudantes de arte que chegam um pouco perdidos, não sabem exatamente o que mostrar nem como mostrar”, explica Simei Barcellar, gerente artístico-cultural do CCBEU.
A nova proposta é dar uma configuração mais educativa ao salão. O júri passaria, então, a interagir com os artistas, a organização passaria a oferecer oficinas para dar direcionamento à pesquisa, elaboração de apresentação e inscrições em salões de arte.
(Diário do Pará)
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