Egberto Gismonti retorna a Belém, depois de um hiato de 32 anos sem fazer uma apresentação na cidade. Mas isso não significa que ele não esteve por aqui durante este tempo. Esteve para compromissos inspiradores, por uma paixão pela cidade, pela cultura e pelas amizades preciosas dessa vida.
“Belém e o Marajó fazem parte de um Brasil interessante para mim. Já estive algumas vezes tocando, mas o que me leva mais vezes para estes lugares é uma grande amiga que conheço há 10 anos, uma pajé cabocla, Zeneida Lima, que tem um trabalho lindo que abriga crianças e oferece aulas de dança, canto e cerâmica marajoara. Acredito que ela seja uma das últimas das pessoas de bem. Nossa amizade é tão relevante que já me levou nessas bandas do Brasil muitas vezes”, revela o multi-instrumentista que, como ele mesmo afirma, faz composições ao atacado, e que é reconhecido em todo mundo por suas pesquisas sonoras, experimentações, sem falar nos muitos convites e possibilidades de gravar trilhas sonoras para cinema, teatro e discos.
“Eu faço música no atacado, já tenho 69 discos com trabalhos de minha autoria. Para você ter uma ideia, já fiz música para acompanhar trabalhos de muitos poetas brasileiros, como Drummond, Ferreira Goulart, até mesmo Jorge Amado, tudo isso porque tenho uma amizade grande com a literatura e com os poetas”, complementa Egberto, que recentemente também teve suas composições executadas em flauta e violino embalando a leitura de versos de Fernando Pessoa no filme “O Vento lá Fora”.
O artista revela que sua aproximação com a literatura e a poesia pode ser ainda mais íntima do que se imagina e rende histórias.
“Manoel de Barros, que nos deixou recentemente, me recordo, me fez um presente de amigo. Há dois anos ele me mandou um recado dizendo que eu estava devendo um texto a ele, texto que fiz e depois se tornou prefácio de um livro dele. Imagine! Isso é coisa de amigos, que são irresponsáveis por natureza”, exclama Egberto, que já tinha tido o texto de apresentação do seu disco “Música de Sobrevivência” escrito por Manoel.
SIMPATIA
Egberto faz a conversa fluir. Por isso, o encontro do público com ele, hoje, às 16h, na Escola de Música da Universidade Federal do Pará, dentro da programação do JacoFest, o Festival de Jazz da Amazônia Contemporânea, promete tanto quanto o concerto que o multi-instrumentista faz amanhã, às 20h, na Igreja de Santo Alexandre, também na programação do festival.
No primeiro momento, voltado especialmente para os músicos em formação, Egberto compartilha suas experiências de vida e, claro, muito dos seus conhecimentos. “Acho que ninguém aprende nada em uma hora mas é possível despertar coisas. Acredito que a música, apesar de ser algo que não se vê, não se toca, não se mede e não se pesa, é uma das sensações mais poderosas, porque pode ser comparada com aquilo que é mais significativo, que não vemos, mas acreditamos, como o amor”, finaliza.
Para ele, que participou de inúmeros festivais na carreira desde a década de 1980, ir a um evento como esse atualmente tem que ter uma motivação a mais. E foi exatamente esse plus que o fez aceitar o convite para ser uma das principais atrações do Jacofest. “O fato de ir tocar em uma igreja em Belém é o que está me motivando. O que me interessa mais é o local, tocar com uma acústica perfeita cabe como uma luva no que faço”, revela.
BEM NATURAL
Voltar a uma Amazônia que ele conhece bem também instiga o músico. Afinal, Egberto já morou, por um breve período, nos anos 1980, com índios yawaiapiti, do Alto Xingu, e mantém uma relação de carinho com essa cultura.
“A convivência com os índios me fez aprender mais que a música. Vivi grandes experiências e, principalmente, aprendi a respeitar o espaço físico, mental e espiritual de cada um. Voltei de lá com uma coragem tão grande que possibilitou fazer a música que eu faço”, reforça o artista.
E é a busca por essa música como expressão de amor que continua movendo a mente e a técnica de Egberto Gismonti. Ele anuncia, inclusive, novos projetos para o próximo ano, um deles em parceria com a atriz Cássia Kis Magro, e outro em comemoração aos centenário de Dom Helder Câmara.
“Recentemente pediram que eu compusesse uma peça para comemorar os cem anos de Dom Helder Câmara e, além disso, estou trabalhando com a Cássia um projeto bem legal, provavelmente um espetáculo com textos de padre Antônio Vieira. Isso sem falar que sempre sou chamado para compor para balés ou orquestras do mundo todo”, detalha.
imperdível
Bate-papo com Egberto Gismonti
Quando: hoje, às 16h
Onde: auditório da Emufpa (Trav. Padre Prudêncio, esquina com Ó de Almeida - em frente ao buraco da Palmeira)
Concerto de Egberto Gismonti
Quando: amanhã, às 20h
Onde: Igreja de Santo Alexandre (Cidade Velha)
Quanto: de graça
(Diário do Pará)
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