Depois de sua mostra de inéditas no Sesc Pinheiros, a “Retumbante Natureza Humanizada”, que terminou no início de agosto, ser eleita pela Associação Paulista de Críticos de Arte como vencedora de seu prêmio anual na categoria “Fotografia”, as imagens coloridas do paraense Luiz Braga agora viram livro. Com texto do curador Eder Chiodetto, a publicação será lançada hoje em Belém, às 19h, na varanda da Casa das Onze Janelas. O encontro terá direito a bate-papo e sessão de autógrafos.
Aos que acompanham a trajetória do fotógrafo, o livro é um presente que registra aquilo que os olhos já admiram e guardam na memória há anos. E o projeto para o livro, conta Eder Chiodetto, começou bem assim, quando ele encontrou com Luiz em São Paulo e lhe disse que precisava pensar seriamente num livro que representasse a sua obra. Antes, a dupla já havia feito um livro em versão pocket pela editora CosacNaify como parte da coleção “FotoPortátil”, em 2005. “Mas ainda não era o suficiente”, comenta Eder.
Quando a galeria de Luiz Braga conseguiu um patrocínio que viabilizasse o livro, ele logo chamou o amigo para por em prática o sonho acalentado por anos. E mesmo já conhecendo muito bem o trabalho do paraense – Eder também já havia levado o trabalho de Luiz Braga junto ao de outros seis brasileiros para uma exposição em Tóquio, no Japão, ano passado -, o curador conta que para fazer o livro “zerou tudo” e mergulhou por uma semana no acervo do fotógrafo em Belém. “Acho que justamente por isso a gente conseguiu trazer várias imagens inéditas para o livro”, diz o curador.
EDIÇÃO QUASE CINEMATOGRÁFICA
O trabalho maior foi pensar conceitualmente e organizar as fotos de forma que elas tivessem um ritmo. “A gente brinca, fala que virou meio que um cinema. O meu grande prazer é editar e pensar a sequência das imagens, e com o Luiz esse foi um trabalho muito prazeroso, porque ele tem essa potência de que cada imagem parece se resolver nela mesma, parece que ela não precisa de outras que a justifiquem, como acontece com outros fotógrafos ensaístas”, analisa Eder.
Por isso a opção gráfica foi colocar apenas uma foto por vez, para que as sutilezas da poética de Luiz Braga não se perdessem. “Ele resistiu um pouquinho no começo, mas depois percebeu que essa possibilidade de ver cada imagem individualmente fazia com que o trabalho crescesse”, diz Eder, aos risos. E Luiz Braga celebra o fato de ter escutado o amigo. “A edição ficou tão legal que parece que um assunto foi dando a mão ao outro, cada foto vai passando cor para a próxima. Esse é o grande mérito desse projeto e essa edição quase cinematográfica foi um presente. Eu queria o livro do jeitinho que ficou”, declara o fotógrafo.
A publicação se debruça principalmente sobre o trabalho em cor de Luiz Braga, com pinceladas em obras preto e branco). “Em nenhum momento me preocupei com a data das imagens. Num dado momento a gente falou, ‘ah, tem imagens recentes que completam muito bem tal foto da década de 1990’. Então elas vão se sucedendo pela potência de cada imagem”, explica o curador.
“É tudo uma roda, a mesma coisa que se expande à medida que vivo e volto ao mesmo assunto”, diz Luiz Braga, citando que, na exposição em São Paulo, estavam lado a lado a foto de uma asa de carne, feita em 2014, e a foto de um açougueiro, de 1983. “Mas você tinha a plena sensação de que aquela carne tinha sido tirada do conjunto de carnes que aparece atrás dele”, descreve.
“Eu falei: ‘Luiz, não faz muito sentido a gente contar a história de um fotógrafo, se esta história não for permeada por imagens’”, conta Eder Chiodetto sobre a concepção das partes finais do livro, onde é possível ver uma das primeiras imagens feitas pelo Luiz Braga de 13 anos de idade, e outras dele organizando, sentado no chão, sua primeira exposição, ou até ao lado de amigos como Miguel Chikaoka, onde um dia existiu o bar 3x4, no bairro da Campina.
E dessa forma, a obra tornou-se também um testemunho muito forte e consolidado sobre a trajetória do próprio Luiz Braga. “Como eu tive o privilégio de descobrir um dom muito cedo, e tive liberdade de escolher fazer dele minha vida, então a fotografia realmente se confunde comigo. Percebo que fui enxergando a mim e ao mundo pela fotografia desde menino. Quando me dei conta disso, caramba!”, brinca. Ele também fala da emoção de ver as pessoas reagirem e se relacionarem com suas imagens. “É legal quando as pessoas que fotografei se encontram com suas fotos. Fotografar é quase como uma morte luminosa. A pessoa sai da dimensão terrestre e vai para a da fotografia, onde se torna eterna”.
Voltando ao início do livro, questiono a dedicatória feita por Luiz à pequena Letícia, a filha caçula que nascia no momento em que o livro rodava na gráfica. “Minha filha vai fazer quatro meses e conversa com essa mulher” – Luiz refere-se à fotografia “Banhista”, de 1996, uma de suas obras mais reproduzidas. “Eu não sou de falar de família, quando se trata de trabalho. Mas fiquei tão emocionado de ver ela olhando, como esperando que a mulher saísse para ir até ela. Ela se ligou muito nas minhas fotos e isso me toca muito. O livro é um legado para meus outros filhos, minha companheira, mas, principalmente, para ela”.
(Diário do Pará)
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