“Se eu tivesse uma voz é para você que eu ia soltar”, diz Jaloo na música “Insight”, parte do seu primeiro EP homônimo lançado recentemente e em grande estilo, com direção artística de Carlos Eduardo Miranda, e selo StereoMono. E que bom que Jaloo soltou a voz, já que as suas versões para sucessos de outros artistas vinham sendo muito bem recebidas pelo público e conquistando palco dos grandes festivais de música independente no Brasil. Mas faltava ao artista se revelar de fato.
Jaloo começou, como ele mesmo diz, no próprio quarto, fazendo versões e remixes. De lá estourou para o mundo underground, sendo reconhecido primeiramente na internet, ainda em 2010, por remixar as grandes divas do pop, como Beyoncé. Assim, fez sucesso fora do país, em países como Suécia, Europa e Estados Unidos, para depois ser descoberto no Brasil. No repertório, versões para Donna Summer, Grace Jones, Robyn, Amy Winehouse e tantas outras divas que para ele é difícil escolher a preferida. Atualmente, gosta mais da versão que fez para “Baby”, de Gal Costa, e de “Hyperballad”, de Björk.
A criatividade que Jaloo vinha desenvolvendo nos remixes ganhou um lugar especial em seu trabalho autoral, feito despretensiosamente, como ele gosta. “Os rascunhos todos já existiam e nos concentramos em finalizar tudo só agora. Tem música com mais de um ano e música com poucos meses de vida. Tem vocal gravado num estúdio f... e tem vocal que gravei no meu quarto, embaixo de um edredom. Eu amo esses contrastes”, pontua o cantor paraense, nascido em Castanhal, e que fez do tecnobrega uma de suas referências, principalmente no quesito “faça você mesmo”, sem muitas ferramentas a não ser a criatividade.
“Agora tenho mais grana para comprar equipamentos e, na questão de software, os plugins sempre mudam, mas meu programa base ainda é o Fruity Loops”, esclarece o artista ao falar de sua forma de produção com softwares simples, porém capazes de dar asas à grande criatividade dele.
Criatividade essa que deu origem a músicas interessantes, como “Insight”, que deu nome ao EP e que Jaloo fez sem nenhuma dificuldade, resultando em algo envolvente, dançante e que faz cantarolar o dia todo. “Compus primeiro ‘Downtown’, que na primeira versão era bem tosca e já tem uns três anos. Ainda tenho essa versão tosca guardada em algum lugar no meu HD. A mais recente é a que leva o nome do EP e demorei 30 minutos para compor”, relembra.
Jaloo também canta em inglês e português e faz disso uma grande brincadeira. “Não domino nadinha do inglês. Estou aprendendo ainda, mas, por mais louco que pareça, é bem mais simples para mim escrever em inglês, tanto por causa do rimar, quanto por não tornar tudo tão redundante, que é um dos maiores problemas das composições que tocam por aí atualmente”, esclarece.
Para o trabalho de Jaloo ser tão inovador, ele revela que a fórmula é bem simples: basta que se proponha a inserir suas vivências como temas de canções e misturar um pouco do tecnobrega com o pop atual, um toque das novas divas do R&B e muita eletrônica de vanguarda. No trabalho, ele traz um cover de “Oblivion”, da canadense Grimes, que já elogiou o trabalho de Jaloo em seu blog.
“Simplesmente a coisa toda vai se construindo e chegando onde ela está agora. Acho que todos os caminhos que percorri, pessoas que conheci, histórias que ouvi, e um monte de outros verbos no pretérito perfeito influenciam naturalmente minhas composições”, diz, enigmático, o artista.
O "PAI" MIRANDA
Miranda conheceu Jaloo em Belém, cobre de elogios o paraense e reconhece, aposta e incentiva sua música. “Ele é o artista mais inovador do Brasil hoje. Jaloo é ousado e tem uma pegada profundamente brasileira, desde sua ascendência indígena até o fato de fazer tudo sozinho, da composição aos arranjos, da gravação à mixagem”, observa Miranda, que não hesitou em chamá-lo para compor o seu selo alternativo na plataforma Skol Music.
Já o paraense vê o diretor como um pai que o incentiva e, sem dúvida, chancela o trabalho especial que vem desenvolvendo. “Ele é tipo um pai, fala o que pensa sobre as coisas, tenta me fazer seguir o melhor caminho, mas também me adora do jeito que sou, e vai apoiar qualquer decisão que eu tomar. Nos gostamos muito”, pontua Jaloo.
PARA O ARTISTA, IMAGEM É TUDO
Se o EP de Jaloo foi bom, é possível esperar algo ainda melhor para o seu primeiro disco que já está sendo preparado e deve ser lançado no ano que vem. “Podem esperar artilharia pesada. Estou tratando o EP como um pedaço do disco, que será extremamente pessoal. Experiências de vida, preguiça, ansiedade, tédio, esgotamento do tempo, diversão e frustração. Tem espaço para tudo no que ando tramando atualmente. Sobre o visual, estou desconstruindo essa mítica do ‘bom selvagem’. Atualmente estou observando esses seres da floresta, que pintam a cara e saem fazendo ‘bububú’ nas baladas. Eles estão mais plastificados, montados e amontoados que a Barbie Califórnia. Então, vendo essas coisas, eu pensei: porque não plastificar literalmente esse ‘bom selvagem’, ops, ‘mau selvagem’? E vai ser por aí...”, acentua Jaloo.
As referências estéticas do artista são um espetáculo à parte nas fotos, feitas pelo fotógrafo Júnior Franch, e nas batidas das músicas ele insere um ar místico, misturando referências como ninguém. “Gosto de brincar com símbolos, trocadilhos, fazer graça mesmo, mas sou cético para caramba. Então, é mais para enriquecer o trabalho com argumentos novos do que qualquer outra coisa, mas nada de bagunça, tudo é pensado e bem definido”, defende Jaloo.
Ao lado do produtor de moda Vitor Nunes, que criou adereços e vestes de Jaloo, Júnior criou um colorido especial para o novo trabalho do paraense. “Tínhamos como referência imagens de santos a belzebu... A intenção era retratar de uma forma sustentável e reciclável, colorida e divertida o céu/purgatório. Para isso utilizamos luzes e fundo coloridos”, complementa o fotógrafo, também paraense.
(Diário do Pará)
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