<p style=\"text-align: justify;\"><span>Estar ao ar livre faz parte do gosto popular paraense, por isso as praças sempre atraíram de jovens a boêmios renomados como espaços a serem ocupados com boa música e outras formas de arte. E em Belém, duas se destacam, uma mais antiga e outra que também já vai contando alguns aninhos e fazendo parte das fotografias e memórias de muita gente: a Praça do Carmo e a Praça Ferro de Engomar. Nelas, encontramos gente que fincou os pés na grama e dela não deseja sair.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>Um samba dos anos 1960 está a tocar em volume agradável, o necessário para apreciar a música enquanto se bate um papo. O nome está na placa de entrada, chama-se “Nosso Recanto”, mas é ignorado. Bom mesmo é chamar “Bar do Salomão”, que é o nome do dono, mas acabou sendo adotado por seus frequentadores como forma de se referir também ao bar de mesinhas e cadeiras de madeira histórica na Praça do Carmo.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>Em 1977, seu Salomão começou o bar no espaço aonde hoje funciona o Fórum Landi. “São 37 anos”, diz ele. Na época, os ritmos mais tocados eram o bolero e o samba. O público era composto por boêmios e pescadores. Quando o bar caminhou para a casa vizinha de número 24, na Rua Siqueira Mendes, entre a Vila Dom Bosco e a Travessa Joaquim Távora, já era o ano de 1985.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>“Ainda tinham alguns pescadores que frequentavam quando eu me mudei. Mas em 1993, quando a pesca foi levada para Icoaraci, já veio outro tipo de freguês”, conta Salomão Casseb, o proprietário. Sua recepção então sofreu algumas mudanças, pois é ele quem seleciona músicas de sua própria coleção de vinis para embalar a conversa dos clientes, regadas também a bolinho de bacalhau, ao famoso camarão empanado e caipirinha.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>O repertório do bar passou a incluir mais MPB junto ao bolero. “Tem alguns clientes que sempre vêm e pedem música antiga. O pessoal da boemia como vem aqui... O dia de maior movimento é a sexta-feira e o domingo à tarde”, avisa. Dos artistas que costumam estar no bar e fazer pedidos, seu Salomão cita Oswaldo Bezerra, “o rei do brega”. “Ele sempre anima a casa”, comenta.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>Tudo é bem aprovado por quem frequenta, desde quem vem de longe a quem mora ali pertinho. “Gosto muito, principalmente por ficar no coração da Cidade Velha, centro histórico de Belém, a uns três quarteirões de casa”, brinca o administrador Thiago Ramos. </span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>“Um lugar bom para estar com os amigos, beber uma cerveja e ouvir algum clássico da música. Seu Salomão sempre surge com alguma pérola da MPB. Além disso, tem algo de sentimental em estar num lugar tão cheio de história”, descreve.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>Há sete anos, o pessoal do Fórum Landi também deixou para seu Salomão alguns quadros para compor o cenário do bar que se integra à história da Praça do Carmo. “Até hoje eles são admirados por turistas, são fotografados por quem vem aqui pela primeira vez”, conta Salomão. Cada quadro retrata uma lenda do bairro e, principalmente, da praça. O dono do bar conta do seu favorito, o que tem um sacristão colocando vários meninos para fora da igreja.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>“Quando a gente era moleque – eu moro aqui desde 1956 –, ia até a igreja de Santo Alexandre direto. A gente queria entrar para ver se era verdade o boato de que uma garota levantou uma vassoura para bater na mãe e virou pedra. Diziam que ela estava lá no alto, então a gente ia tentar subir lá, mas o sacristão não deixava. Aí fizeram esse quadro em homenagem a isso”, ele ri ao lembrar. Enquanto isso, de dentro do bar, vem o som de um bolero. </span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>CENTRO CULTURAL VIZINHO</span><br /><br /><span>Há algum tempo, artistas resolveram ocupar a cidade. “E ocupar a cidade não é uma tarefa simples quando a gente tem um poder público municipal e estadual que atrapalha a gente. Então nós, um pessoal de teatro, de artes plásticas, do vídeo mapping, do cinema e da música, temos começado um movimento de resistência”, diz Adriano Barroso.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>O movimento chamou-se “[Entre] Um Lapso Gostoso” e surgiu para dar apoio, visibilidade e ocupação ao Centro Cultural do Carmo, já carinhosamente chamado de CCC, que surgiu em ambiente privilegiado: a Praça do Carmo. O lugar, que possui relação histórica com Belém, parece ter uma aura que inspira artistas e público em geral na busca por uma Belém charmosa e cultural.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>“Estar incrustado no Carmo, na Cidade Velha, para a gente tem uma significância muito maior de uma cidade que nós queremos construir como cidadãos e como artistas. O que a gente pode dar para essa geração é isso, um movimento que é de graça. As pessoas podem vir aqui e partilhar com os artistas, entre elas e com a cidade”, declara Adriano, que lançou no CCC seu filme “Ópera Cabocla”.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>O movimento culminou na última quinta-feira, 18, com um bazar de obras de arte. Mas a iniciativa não deve parar por aí. A praça deve ganhar ainda algumas atividades de integração. Todo dia, quem chega ao local por volta das 19h, encontra crianças da comunidade do beco do Carmo brincando por lá. E, para elas, o Centro pensa em um festival. </span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>“Eu cheguei a ver Leila Pinheiro num piano de cauda na época do coreto que deu lugar ao anfiteatro no centro desta praça. O CCC é um grande presente para a praça retomar essa vida”, declara Luiza Bastos, gerente do espaço.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>O casal Marina Reis, 25, e Caio Carneiro, 27, adoraram conhecer o novo espaço. “A gente estava passando por aqui e entrou para ver o que era. Estudei no Colégio do Carmo por muitos anos e sempre me entristeceu ver esse prédio abandonado. Nem acreditei quando vi ele assim, recuperado”, comenta Caio, na esperança que mais casarões da praça sejam ocupados com arte. </span></p>
<p style=\"text-align: justify;\">NO COMPOSIÇÃO, O ASSUNTO É CULTURA</p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>No início, tudo era uma ideia vaga: encontrar um lugar e abrir um negócio. “O lugar foi determinante para se montar logo o bar. A praça e a casa, que é interessante, bonitinha, foram atrativos e inspiradores, e deram essa força pra gente montar o negócio”, conta Lilian Pinheiro, que, em parceria com o namorado, montou o “Composição - Arte e Bar”, localizado na Praça Ferro de Engomar, na Campina.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>O casarão antigo e estreito, de dois pavimentos, é charmoso e, em si mesmo, uma obra de arte. As pessoas querem entrar para olhar cada detalhe – uma cadeira vermelha retrô, uma vitrola, corujas artisticamente pintadas e penduradas na escada secular... –, e isso acaba chamando a atenção para a exposição fotográfica que está um pouco mais adentro. “É sempre assim”, diz Lilian.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>E não é de hoje que a praça abriga espaços boêmios e atrativos para os jovens artistas da cidade. Ali fica o Palacete Vitor Maria da Silva, residência do final do século 19 que leva o nome de um dos engenheiros mais importantes daquele período. Além disso, no início dos anos 1980, a praça foi palco de reuniões entre grupos de teatro, jornalistas e fotógrafos, no famoso “Bar 3x4”, berço da fundação da Associação Fotoativa.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>“As próprias pessoas que frequentavam o bar foram interagindo com a gente e sugerindo quem poderia expor, indicando o trabalho de amigos e conhecidos. A primeira exposição foi uma mistura de grafitagem e pintura. É muito mais interessante quando é uma galera mais nova também, querendo espaço para iniciar seu trabalho”, conta Lilian.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>Os donos do lugar admitem ter um pouco da referência do “3x4”, que deixou muita gente saudosa. Eles já pensam em fazer uma exposição sobre o antigo bar com fotografias daquela época cedidas do arquivo pessoal de quem frequentava o local no passado. E ainda tem quem esteja “descobrindo” o local.</span><br /><span>“Eu sempre trago meus amigos e gente que vem visitar a cidade. Acho que o que mais atrai nesse lugar é o fato de ser totalmente isolado, foge totalmente do caos que é Belém. O ambiente aberto, íntimo – a praça é pequena e quase escondida – torna tudo melhor”, declara Daniele Soares, 24, universitária e frequentadora assídua do Composição.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>O repertório musical também dá uma aula de música popular brasileira e paraense. Quando entra algo internacional, é quase exclusivamente um jazz. “A gente dá prioridade para música paraense. Tem gente que traz o CD e a gente sempre procura incluir, colocar algumas músicas para tocar”, diz Lilia. Foi o caso da cantora Aíla, que levou o trabalho novo para tocar na casa, iniciativa que a universitária Beatriz Paixão aprovou.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>“Venho aqui desde que abriu, no início do ano, e sempre gostei do conjunto da obra: o ambiente da praça, a boa música, comida e as exposições – adorei a atual que reúne o Apoena Augusto, Zé Paulo e Cassiano”, diz ela, referindo-se à mostra fotográfica “Belém da Gambiarra”, que encerra neste domingo. Enquanto concede esta entrevista, Beatriz está em companhia de duas amigas em uma mesa para dez pessoas. “É sempre assim, não demora a mesa tá cheia de gente, todo mundo sempre acaba vindo pra cá”, comenta.</span></p>
<p style=\"text-align: justify;\"><span>(Diário do Pará)</span></p>
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