As mãos inquietas, a mente criativa e o sonho de imprimir um pouco de si e de outras pessoas em produtos únicos fizeram artesãos de todo país unirem-se em torno de um movimento chamado “Compro de Quem Faz” (CDQF). Criado em 2013, agrega artistas como a ilustradora paraense Renata Segtowick, que explica a importância desta união: “Ele é um movimento para incentivar o sustentável e o local e apoiar quem ama o que faz”.
O surgimento do grupo, que realiza diversas campanhas pelas redes sociais e eventos nas cidades onde tem artesãos inscritos, parece ter ajudado bastante a conscientizar as pessoas do valor de um produto feito à mão, mudando a cara dos presentes de Natal. “Hoje muitas pessoas estão fugindo dos shoppings e encomendando objetos personalizados. Tenho uma clientela que já é fixa, e vem aumentando”, comemora.
Outra integrante do CDQF, Érica Sandrini, deixa sua declaração como alguém que vende, mas também presenteia com produtos artesanais. “Ao comprar algo artesanal, tenho a certeza de estar incentivando a continuidade de um projeto que de, alguma forma, ganhou meus olhos ou meu coração. Para mim, comprar de quem faz tem sempre mais a ver com o sentir do que com o explicar”, diz. E assim, de águas de cheiro a cadernetas e bijuterias customizadas, o afeto – de quem encomendou e de quem fez – transparece na exclusividade.
O acadêmico de enfermagem Felipe Valino conta outra forma de declarar afeto e uma amizade profunda com outra pessoa: os livros. Pode parecer coisa simples ao primeiro olhar e até um presente barato, mas acertar no gosto do leitor é uma arte, e é nesse ponto que, para Felipe, os livros se tornam um presente que também é prova de amizade. “É como um perfume, bem pessoal. Só dou livros a quem realmente conheço”, avisa.
Ele conta que até o namoro é alimentado por boas leituras. “Sempre gosto de dar livros para a minha namorada. Em abril, dei um ovo de páscoa junto com um livro e ela adorou mais o livro que o chocolate”, comemora o estudante, aos risos.
E pode ser um presente com tanto sentimento que não precisa ter vindo das livrarias abarrotadas dos shoppings, mas sim do sebo mais próximo. “Esse ano fizemos um amigo invisível com troca de livros, e todo mundo saiu feliz”, conta ele.
TENDÊNCIA AO ETERNO
No Atelier do Porto e na Kamara Kó Galeria, o final de semana que antecedeu o Natal foi de entrega das encomendas e de visitantes em busca de desenhos, pinturas e outras formas de presente que não seriam encontradas em nenhum outro lugar. A busca era por obras de arte, mas nada que um bolso mais econômico não pudesse dar conta. Fotografias feitas por nomes renomados, como Flavya Mutran e Alberto Bitar estavam com preços até 70% abaixo do que costumam valer no mercado.
O que acontece, diz o artista plástico Armando Sobral, é que as pessoas precisam acabar com o mito de que “obra de arte é algo inacessível” e começar a frequentar os espaços que se dedicam a elas em Belém, descobrindo que existem peças para todos os gostos e bolsos. Como exemplo, temos ainda, a Elf Galeria, que costuma comercializar arte em pequenos formatos, e a Galeria Gotazkaen, que traz jovens artistas cujos trabalhos ainda ganham espaço entre colecionadores.
Nilson Damasceno, professor da rede pública de ensino, é um dos frequentadores desses espaços. Seu perfil para um comprador e colecionador de arte é bem diferente do que as pessoas costumam esperar.
“Ele é a prova de que você não precisa ser alguém milionário para começar uma coleção ou ter obras como uma forma de presentear pessoas queridas”, diz Armando Sobral, que também é dono do Atelier do Porto.
O problema é que o amor pelas peças é tão instantâneo que Nilson admite: nem sempre dá vontade de entregar o presente. “Comprei pensando em presentear, mas ainda estou em dúvida se vou dar ou se vou trocar por outro presente, porque gostei muito dos trabalhos e fiquei com vontade de ficar para mim. Também tenho dúvidas se a pessoa presenteada vai cuidar com zelo e valorizar”, justifica. Ele conta que antes desse Natal já havia presenteado amigos com desenhos e pinturas feitos por ele mesmo.
“É muito especial você receber um presente assim. Eu mesmo já ganhei desenhos e gravuras. Fiquei muito feliz e os guardo com muito carinho. Imagina a enorme satisfação que é receber um trabalho artístico feito para você!”, diz ele, que tem entre seus presentes favoritos uma caricatura feita para ele em grafite, dada pelo amigo Éder Oliveira antes de se tornar um artista famoso, com obras na Bienal de São Paulo.
E mesmo os artistas têm seus sonhos de Natal com presentes assim, únicos. A fotógrafa paraense Ana Mokarzel diz que arte é sempre um bom presente. “Cada vez mais está se vendo nas paredes das casas obras de arte.
De minha parte, digo que as fotografias já tomaram espaço nas galerias de arte e nas casas, acabou se tornando um presente muito refinado”, avalia, garantindo que, mesmo assim, isso não as torna distantes do grande público. “Se você for ver, na Kamara Kó vários artistas fizeram fotos por celular no Instagram, belíssimas e a um preço superacessível”, indica.
Como artista, Ana diz que sempre presenteia os amigos que considera especiais com trabalhos seus. E em seus próprios sonhos, está ganhar um trabalho do fotógrafo Miguel Chikaoka.
“Sei que sou suspeita para falar, mas a obra de arte vale muito mais como presente, porque é eterna. Em geral, ela não é modismo, como roupa e sapato, que a gente usa ali e acabou. A arte é para sempre”, define.
(Diário do Pará)
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