São 92 anos de tradição. E para a Vila de Mocajatuba, o Clube Musical Lira Nova tornou-se um verdadeiro patrimônio da comunidade – atuante no presente e fundamental para o futuro de seus moradores.
Por isso, preocupa que muitos de seus músicos tenham perdido instrumentos durante naufrágio no último dia 10, quando voltavam de uma apresentação no Marajó. A comunidade, que fica no município de Colares, região nordeste do Estado, está promovendo uma campanha com o objetivo de receber doações de instrumentos musicais ou dinheiro para ajudar na aquisição dos mesmos.
Eles esperam sensibilizar as pessoas para a situação e contam como foi a perda, não só de saxofones e bumbos, mas de um amigo...
A embarcação deixou a localidade de Santa Quitéria na manhã do dia 9 e, após navegar por cerca de 12 horas, virou em frente à Praia do Pesqueiro, em Soure. Os sobreviventes foram resgatados por ribeirinhos. Giovan Conceição Trindade, de 17 anos, que tocava tarol no grupo, era filho do dono da embarcação e dormia do lado de dentro do convés. Ele foi o único que não conseguiu se salvar.
“Estávamos acostumados a viajar todos os anos e realizar esta apresentação em comemoração à chegada das festas de fim de ano. O Giovani era tarolista e não conseguimos ajudá-lo a sair do barco”, lamenta Deyvison Gurjão, presidente da banda.
“Os poucos instrumentos recuperados após o naufrágio ficaram muito deteriorados. Os de sopro enferrujaram, os bumbos – que acabaram servindo de salva-vidas – depois afundaram”, conta Deyvison.
Naquele dia, apenas uma parte da banda estava presente. Justamente pelas dificuldades de transporte, apenas 14 seguiam para a apresentação. A formação completa da banda principal, diz Deyvison, conta com 35 músicos e além dela existem outros conjuntos menores, como o Grupo de Flautas.
No total, a escola de música atende a 100 alunos com idades entre 7 e 25 anos.
“São ministradas aulas iniciais de flauta e musicalização. Depois, há seleção para diversos instrumentos de acordo com a aptidão de cada jovem”, explica o presidente, que também é maestro e professor.
História
Fundada em 15 de novembro de 1922, a escola havia acabado de completar 92 anos quando sofreu o acidente. Ao longo de quase um século, ela sobrevive dos eventos que participa, como as festividades pelos municípios do interior do Estado, e a realização de quermesses. Sua história teve início com os filhos de pescadores e de donos de embarcações como alunos.
O idealizador e primeiro presidente do Clube Musical Lira Nova, João Gonçalves, bisavô de Deyvison, foi quem comprou os primeiros instrumentos e ensinou vários jovens a tocar. Em 2013, eles renovaram convênio com a Fundação Carlos Gomes, que fornece os monitores para as aulas de musicalização e de instrumentos de sopro, que são também ex-alunos e atuais músicos da banda principal, passando a receber uma bolsa pela monitoria.
Além de objetos pessoais e fardamentos dos músicos, alguns dos instrumentos perdidos no acidente eram novos, frutos de outra parceria, com a Fundação Nacional de Artes (Funarte). Eram, na maioria, instrumentos de sopro, como trombone, trompete, sax e clarinete, doados no mês de março. Até o momento o Clube Musical Lira Nova não conseguiu substituir nenhum dos instrumentos perdidos.
(Diário do Pará)
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