Todo ano é sempre igual. Você organiza as comemorações e renova as promessas e esperanças, geralmente se inspira em amigos que tiveram um bom ano, em projetos que deram certo, em ideias interessantes. Para Dona Onete, vai ser diferente. O ano de 2015 já se planejou para ela de forma majestosa. E como um grande presente, tudo se concretizou com uma avalanche de boas notícias, reconhecimento da sua música no seu estado, no Brasil e no mundo, apoio para gravar mais um CD, shows pelo país e pelo exterior, com uma turnê já agendada no ano que se inicia e muitos outros projetos. Nada mais justo do que a diva do “carimbó chamegado” receba a valorização do trabalho que constrói há tantos anos.
Mas o presente mais especial para ela é o carinho do público. “Estou muito feliz com o Pará, por ter aceitado muito bem a sua cultura. O Pará não gostava do que era seu. Quando vejo os universitários dançando brega, carimbó, lotando nossos shows, me dá muita alegria. Fico muito feliz de estar colaborando e não sou só eu, vem muita gente por aí. Além disso, o Pinduca começou, a Nazaré Pereira lutou, e cada um de nós deu sua contribuição para estarmos nesse momento”, diz, humildemente, a cantora de 75 anos e muita simpatia e amor pela música paraense.
Em 2014, a estrela de Dona Onete brilhou bastante. Ela fez mais de 30 shows pelo Brasil, em cidades como São Luís, Fortaleza, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e, claro, muitas cidades no Pará. Além disso, participou de documentários importantes no Brasil e exterior, com destaque para um realizado pelo canal britânico BBC, em um episódio da série “LatAm Beats”, que elegeu artistas de destaque da América Latina durante o ano.
Para fechar com chave de ouro, este mês ela recebeu a feliz notícia de que seu novo CD, “Boleros e Banguês”, será viabilizado através do programa Natura Musical, com direito a shows em Belo Horizonte e São Paulo. Um trabalho que traz o ritmo e a poesia dos escravos que trabalharam nas lavouras do Pará, mesclados a boleros e temas românticos que Onete domina tão bem.
A Caixa Econômica Federal também financiará dois shows da cantora, já com este novo trabalho, em Brasília. “A ‘Jamburana’, minha música, me levou para muito longe, algo que eu nunca imaginei. Os DJs pedem para tocá-la nas festas, e eu deixo, porque acho que a música deve circular, e isso tudo só me dá orgulho”, diz a cantora.
Cantora conquistou os gringos e os acadêmicos
E se o ano que se encerra hoje foi tão bom para Dona Onete, com o reconhecimento do trabalho de vários anos de carreira batendo à porta e entrando de uma vez, o ano que se inicia promete mais. Para começar, a cantora está fechando a agenda para cantar em carnavais importantes pelo Brasil, inclusive em Recife. Depois vem a turnê pelo exterior. Segundo Geraldinho Magalhães, um dos produtores musicais que trabalham com Dona Onete, uma turnê pela Europa está sendo agendada com apresentações em Portugal, na Fundação Casa da Música da cidade do Porto, e alguns outros festivais importantes do país, durante o mês de julho. No mesmo mês, ela se apresenta no Womad, festival dirigido pelo músico e ativista Peter Gabriel, e em outro evento bastante conceituado, o Sfinks Festival, na Bélgica. A artista também está em fase de negociações, com alguns eventos na França e Inglaterra. Pensa que acabou? Ela ainda planeja um tour nos Estados Unidos no mês de setembro, começando por Chicago,no World Music Festival.
Todo esse interesse gringo pela musica de Dona Onete foi coroado por diversas matérias em jornais do exterior, como o britânico “The Guardian”, que em um feito raro concedeu cinco estrelas ao álbum “Feitiço Caboclo”, e outras críticas importantes, como na publicação especializada em música “Songline Magazine”. “O carimbó chamegado me deu todas essas oportunidades. Meu CD ‘Feitiço Caboclo’ tirou cinco estrelas, que felicidade! Nem sei muito bem o que isso significa. Acho que vou saber quando chegar lá e fizer meu show”, diz a cantora.
A cantora também é sucesso dentro dos muros da academia. Recentemente a música dela virou tema de estudo do professor Patrich Moraes, mestre em Artes pela Universidade Federal do Pará e nascido em Igarapé-Miri, assim como Onete. Daí o interesse em desvendar o carimbó da cantora.
Ele, que foi aluno de Onete quando ela ainda dava aulas de História e Estudos Paraenses na Escola Aristóteles Emiliano de Castro, começou a pesquisa em Igarapé-Miri, com pessoas que conviveram com ela na escola, como osj ovens que participavam dos movimentos organizados por Onete, como o boi bumbá e o Grupo Folclórico Canarana. “Ela se tornou uma grande folclorista e detentora de um vasto conhecimento da história e da cultura de Igarapé-Miri”, afirma o pesquisador.
Sonoridade distinta e imaginário caboclo
O professor Patrich Moraes também estudou o contexto da cidade em que Dona Onete a começou a produzir, Igarapé-Miri, com suas pastorinhas, o Cordão do Camarão, as bandas de música, o banguê, as rezas, festividades, etc, e percebeu que tudo isso contribuiu para formar algo peculiar no seu carimbó. “As composições de Dona Onete, principalmente os carimbós, são relatos do imaginário do caboclo de regiões do Pará. Tudo que ela viveu e ouviu é retratada em sua música. Seus shows são didáticos, uma verdadeira aula sobre a história cultural do povo paraense. Isso faz com que os mais experientes se identifiquem com ela e os mais novos queiram saber, por exemplo, o que é o chá do Tamaquaré”, argumenta o pesquisador.
Para o professor, Dona Onete também incorpora uma sonoridade diferente, que inconscientemente teria assimilado a estrutura de guitarra base e guitarra solo das bandas da década de 1970. “As músicas que analisei contavam com um elemento que se repetia, algo feito com o banjo, que depois pode ser feito com outros instrumentos, um desenho que chamo de ‘pontiado’, sempre presente no carimbó chamegado de Dona Onete e que não identifico nos demais”, explica o pesquisador.
(Diário do Pará)
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