Foi “uma escura, robusta e encorpada Chimay Blue”, cerveja belga que tomou durante uma viagem à Europa, que fez Maurício Beltramelli largar a profissão de advogado, aos 26 anos, para viver a cultura cervejeira. A dedicação e o talento para a profissão, que parece ser a melhor do mundo – o mestre cervejeiro não esconde isso –, foram recompensados e acertados, pois a produção brasileira de cervejas artesanais vive uma excelente fase, com novos profissionais e investidores, além de ganhar prêmios internacionais de qualidade.
Consumo de cerveja é cercado de mitos
Aos 40 anos, Maurício é sócio do portal Brejas, o maior site do Brasil sobre cervejas, e também do bar homônimo localizado em Campinas, São Paulo. Escreveu “Cervejas, Brejas & Birras”, onde desmistifica a cerveja artesanal, contando a história dela no Brasil, e este ano lançou um guia fundamental: “As 100 Melhores Cervejas Brasileiras”. Um dos objetivos é educar o paladar do brasileiro para a diversidade crescente do mercado.
“Hoje, 95% dos brasileiros não sabem que tem outros tipos de cerveja além das chamadas ‘pilsener’. Se você olhar a árvore genealógica dos estilos de cerveja, vai ver que são 120 tipos, e tem gente que se contenta em tomar apenas essas. Por isso acho natural que alguém, consumidor de bebida alcoólica, diga que não gosta de cerveja. É aceitável quando só se provou uma. Agora, se você tem 120 tipos e não gosta de nenhuma, você é muito chato!”, diz Maurício, aos risos.
Apesar da brincadeira, o empresário diz que esse cenário está mudando e rápido. “As pessoas estão começando a experimentar novos sabores, buscando conhecer esse universo e aceitando pagar um pouco mais por essa experiência. Este é um momento único para o mercado de cerveja, que não podemos desperdiçar”, avalia.
Em seu próprio bar, o espaço das cervejas artesanais foi conquistado e se solidificou com o entusiasmo dos frequentadores que, aos poucos, entenderam a proposta. “Ali não queremos vender cerveja, queremos vender experiência cervejeira”, diz ele. A carta do bar traz informação sobre cada cerveja e o ambiente inclui detalhes como montinhos de malte e de lúpulo – ingredientes que compõem a base da bebida – para que o cliente possa conhecer e até degustar.
No começo, Maurício também não queria vender as cervejas “comuns”, as pilsener, e os primeiros clientes do bar em Campinas entravam e logo iam embora. Depois de algum tempo, o sommelier entendeu que não podia discriminar nenhum tipo de cerveja. Mas o público já estava feito. Hoje, ele vende no máximo uma caixa por semana das ditas cervejas “comuns”. As pessoas já vão ao bar querendo algo novo – sabor, aroma, uma nova experiência.
(Diário do Pará)
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