Poderia achar que era um sábado comum no Ver-o-Peso, de muita chuva, e com gente fazendo compras. Mas entre o céu nublado do pós-chuva e o pôr-do-sol tímido, nasceu o show em homenagem aos criativos pregões – que cantam as várias formas quase cantadas que os vendedores de rua para anunciar os seus produtos. Allan Carvalho e Cincinato Marques Júnior, do Quaderna, estavam radiantes e levaram alegria ao público, dividido entre quem tradicionalmente acompanha o trabalho autoral dos artistas paraenses, e vendedores e consumidores que frequentam a feira.
José Maria é vendedor de rua há 45 anos e, pela primeira vez, participou da gravação de um CD entoando seu sonoro “amendoim-oim-oim-oim-oim”. Conhecido na capital paraense por vender amendoins vestido como o personagem Chaves, ele anuncia sua chegada nas baladas e bares de Belém entoando seu sonoro pregão, que agora se tornou parte de uma música do trabalho do Quaderna.
“Achei maravilhoso um trabalho que homenageia os bordões dos vendedores porque valoriza não só a nossa classe, que tanto se esforça para trabalhar, como a nossa criatividade. Estou muito feliz!”, disse animado o vendedor cantou mais no palco do que vendeu amendoins, e teve grande aceitação do público.
O show de lançamento do CD “Pregões – a Melodia das Ruas” apresentou da melhor forma ao público o resultado de quatro anos da pesquisa homônima, desenvolvido por meio da Bolsa de Criação, Experimentação, Pesquisa e Divulgação Artística do extinto Instituto de Artes do Pará (IAP). Uma culminância perfeita e que transformou em música os criativos “jingles” de tapioqueiros, peixeiros, amendoinzeiros, pamonheiros e tantos outros vendedores de diversos bairros de Belém e outras cidades do Pará, resgatando - e valorizando - parte de uma cultura.
“É um trabalho suado, são quatro anos de pesquisa, que resultaram em pelo menos 20 músicas de onde escolhemos as 12 melhores para colocar neste CD. Hoje, viver esse show aqui no Ver-o-Peso é mais uma etapa de uma luta que reconhece esse local como patrimônio de uma cultura viva de Belém. A gente tem que entender a música enquanto resultante das relações humanas e de suas expressões musicais, que nós vamos buscar na rua, mas queremos devolver a quem as faz”, ponderou Cincinato, que se sentia realizado com o evento.
Entre peixe, tapioca, sapotilha, caranguejo e o jingado do carimbó, da lambada, da quadrilha e da salsa, a dupla demonstrava a felicidade de ver o som que vem das ruas se transformando em alegria para o público.
“Esse show marca um ciclo que se conclui de um sonho que iniciou em 2011. É com muito carinho que devolvemos com a música o apreço e o conhecimento que nos deram, principalmente, os pregoeiros que trazem música de forma gratuita, como veludo aos nossos ouvidos”, disse Allan Carvalho, entusiasmado, após o show.
(Diário do Pará)
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