“A música é universal. Exatamente por isso que o Mestre Vital usou esse suporte, para que sua voz consiga ir sempre mais longe”, diz o produtor cultural Hugo Tomkiwitz. Ele foi responsável por um longo projeto de resgate da obra do poeta, músico e pensador nascido no Baixo Tocantins, e mais conhecido pelo personagem Engole Cobra. Todo o percurso do projeto em Belém será relatado através de uma exposição fotográfica, bate-papo e exibição do documentário “Sonoridades e Memórias do Rio Tocantins”, hoje, nos Arcos da Lapa, na cidade do Rio de Janeiro.
A conclusão do projeto foi em julho de 2014 e se destaca por ter participação direta de Alchimedes Vital Batista, o Mestre Vital, após mais de 40 anos de atuação dele na cena cultural do Baixo Tocantins. Poeta, músico e pensador nascido ribeirinho, ele é protagonista absoluto no documentário, gravado na Vila de Juaba, em Cametá. “O vídeo é composto somente por depoimentos dele, falando sobre a criação de seu grupo musical, os objetivos e as abstrações poéticas para que a música leve a mensagem da preservação do meio ambiente e da complexidade das relações do homem com a Amazônia”, explica Tomkiwitz.
A edição do documentário é de Paulo Castro, aluno de publicidade da Estácio FAP e acaba retratando as visualidades da região de Cametá ao contar partes da história do mestre e de sua visão de mundo. O audiovisual foi montado com material recolhido no rio Tocantins em 2013 e 2014 por integrantes do coletivo Casa Fora do Eixo Amazônia e por alunos que integram o projeto de extensão universitário da professora Viviane Menna Barreto, “Cartografias Amazônicas”.
No espaço também será realizada uma mostra fotográfica organizada pelos estudantes de comunicação Allan Barros e Felipe Araújo, relatando o processo de resgate da obra de Mestre Vital, as gravações, o cotidiano e os momentos de ensaio e a gravação do CD “Engole Cobra”, fruto do mesmo projeto. O grupo que acompanha o músico recebe o mesmo nome do disco e toca com ele seus diversos ritmos amazônicos tais como o siriá, brega, e banguê.
O diferencial da obra de Mestre Vital está principalmente nas temáticas sociais, culturais e ecológicas de suas composições. A devastação da natureza que levará ao fim da humanidade, homens de 60 anos que querem agir como jovens, moças namoradeiras e a modernidade são algumas das histórias cantadas em suas letras. Quem não conhece Mestre Vital fica impressionado ao descobrir que temos uma mistura de Raul Seixas com Tom Zé amazônico.
Morando hoje no Rio de Janeiro, Hugo afirma que os cariocas, como qualquer outro povo, têm plena condição de sentir empatia pela obra do mestre. “Decidi unir a música paraense, que está em alta e tem grande aceitação do público carioca, às mensagens de preservação da natureza, visto que durante os últimos meses o Rio de Janeiro passa por desajustes ambientais. Acredito que estas pessoas entenderão a obra nascida no Baixo Tocantins. Música e natureza coexistem em qualquer parte do planeta”, diz ele.
Após a exibição do documentário, Hugo permanece para um bate-papo com o público. Na ocasião ele deve aproveitar para abordar ainda temáticas como a construção coletiva do projeto e da criação imagética do personagem Engole Cobra, criado pela fértil imaginação de Mestre Vital como uma ave pré-histórica nascida para devorar os corruptos que atrasam o futuro do país e aqueles que destroem a natureza.
“Tentamos, a partir desse mergulho no repertório, criar imagens que representassem esse ícone da cultura de Cametá, um ser mitológico inventado pela mente dele para denunciar a devastação da floresta dos rios e a corrupção desde os anos 1990. Assim, para dar mais realismo à criatura, misturamos diversas referências e técnicas na criação da ilustração que estará junto à exposição fotográfica”, explica Allan Barros. Pena os cariocas não terem a oportunidade que o público em Belém teve no lançamento do CD, em 2014, de ouvir Mestre Vital ao vivo. Para conhecê- ao vivo e em cores, só indo a Cametá.
NO RIO
Documentário, mostra fotográfica e bate-papo com o produtor Hugo Tomkiwitz sobre o projeto “Sonoridades e Memórias do Rio Tocantins”
Quando: Hoje, às 18h
Onde: Arcos da Lapa,
no Rio de Janeiro
Quanto: aberto ao público
(Diário do Pará)
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