No início eram apenas guardanapos. Guardanapos, uma caneta preta, um balcão de bar, alguns filtros no Instagram e muita poesia. Pronto, ele não precisava mais: nascia, assim, Antônio, um personagem apaixonado, sonhador, que mostra que a vida pode ser poética e cheia de beleza, mesmo quando há dúvidas, angústias e dores.
Antônio é o auterego do escritor Pedro Gabriel, que, com sua série “Eu Me Chamo Antônio”, virou fenômeno nas redes sociais com poesias feitas para não só serem lidas, mas também vistas, sentidas. Das páginas virtuais onde acumula fãs (são 500 mil seguidores no Instagram e 800 mil no Facebook), os guardanapos ganharam edição em livro cujo segundo volume terá uma sessão de autógrafos com o autor hoje, na Livraria Saraiva, às 17h. Oportunidade para conhecer de perto este jovem de 29 anos que já catalogou cerca de 1826 guardanapos, mostrando que a arte da palavra está na sensibilidade de tocar as pessoas pelo simples.
No segundo livro, além das poesias, Pedro Gabriel se revela um excelente ilustrador, ampliando a linguagem gráfica utilizada por Antônio em busca de sua amada. Seu próximo projeto é fazer uma exposição para que as pessoas vejam os originais de sua obra.A seguir, um bate-papo exclusivo com o autor, dias antes de ele chegar por aqui.
O Antônio virou um fenômeno nas redes sociais. Você esperava isso?
Foi um susto, no bom sentido. Nunca pensei que um guardanapo fosse ter essa repercussão. Comecei de forma espontânea, criei uma conta na rede social com medo de que os guardanapos rasgassem ou amarelassem. Então eu fazia a poesia à mão no guardanapo, fotografava e postava. Sem divulgação, muita gente começou a seguir, compartilhar. Hoje fico feliz quando descubro que professores estão usando os meus livros para introduzir poesia junto aos mais novos. Muita gente tem medo de ler poesia, e minha forma de fazê-la é bem carismática, faço um jogo com as palavras sempre para que tenha mais de um sentido, é uma brincadeira descontraída que todo mundo consegue entender. Isso faz com que alcance gente de todas as idades. Muita gente não conhecia Paulo Leminski, Manoel de Barros, autores consagrados na história da poesia no Brasil, e que depois de introduzidos pela minha obra foram ler. Sinto que tenho esse papel de abrir caminhos.
Você falou de Leminski e a sensação é de que ele é uma grande referência para você, pela maneira de fazer uma poesia mais direta...
Sem dúvida é um poeta que me influencia muito. Gosto dessa marca do Leminski de fazer versos curtos e impactantes. A re-edição recente das poesias dele virou meu livro de cabeceira e cada vez que abro tenho novas inspirações.
Sua poesia é feita para ser lida e vista, é muito visual. Você já pensa na poesia graficamente?
Sempre desenhei ou escrevi como se fosse um desenho. Isso veio primeiro apenas na forma de fazer as letras, com um traço meio de rascunho, rápido. Agora sinto que há um casamento entre as poesias e as ilustrações. Sou desenhador de palavras e, com o tempo, o espaço em branco que elas deixavam passou a me incomodar. Pensava: “Está faltando algo”. Deixo muito a inspiração se manifestar. Às vezes quero fazer só a palavra, às vezes quero encaixar um desenho, isso vai de acordo com o momento.
Essa relação entre texto e imagem vem de sua formação como publicitário?
Sim, como publicitário mergulho no mundo de referências visuais e textuais. Escolhi a faculdade certa e olha que nem pensava em fazer o que estou fazendo hoje. Mas sinto que toda experiência que tive está hoje no Antônio, é como se sempre você fosse colocando uma camisa nova na bagagem de referências. Tudo que consegui na minha vida foi importante para este personagem.
Ele foi, então, além do que você imaginava?
Consegui publicar um livro de poesia no Brasil sendo um poeta totalmente desconhecido. Eu que fui procurado por uma grande editora, não foi o contrário, então caí de paraquedas no mercado editorial e não conhecida nada desse meio. Comecei com os guardanapos em outubro de 2012 e já tinha meu primeiro livro em 2013. Em 2014 ele foi o segundo livro mais vendido dos autores nacionais. É um sinal de que minha poesia não está limitada ao mundo virtual. Fico feliz.
Seu caso renderia, então, um estudo de comunicação, afinal você quebra paradigmas ao se tornar famoso no mundo virtual com poesia. Também porque todo mundo diz que a internet afasta os jovens da leitura e você diz que, ao contrário, está introduzindo jovens à poesia...
As pessoas falam coisas genéricas. Que jovem não lê, que poesia não vende... E há o preconceito com coisas que nascem na internet. Meu poema nem nasceu na internet. Nasceu no balcão de bar, de lá foi para a internet e agora está no mundo dos livros, e meus leitores me acompanharam. Sempre digo que não importa a plataforma, o conteúdo, o que importa é aquela mensagem.
Afinal, quem é Antônio?
Antônio é um personagem que criei. O nome, na verdade, é meu, eu me chamo Pedro Antônio, mas ninguém me chamava de Antônio, nem meus pais. Antônio sou eu, com um pouquinho mais de coragem para falar de sentimentos. Tudo é um espelho de algum momento que vivi direta ou indiretamente. E enquanto eu continuar, ele vai continuar. Enquanto eu estiver feliz, vou continuar fazendo meus guardanapos.
Lançamento do livro "Segundo - Eu me chamo Antônio", de Pedro Gabriel
Quando: Hoje, às 17h
Informações: www.saraivaconteudo.com.br
(Diário do Pará)
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