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Artistas não sabem como ficam os órgãos culturais

Poucas pessoas sabem, mas os extintos órgãos culturais vinculados ao Governo do Estado - Instituto de Artes do Pará (IAP), Fundação Curro Velho e Fundação Cultural Tancredo Neves - já ganharam nome novo, mas nada além disso. O governo tem divulgado alguma

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Poucas pessoas sabem, mas os extintos órgãos culturais vinculados ao Governo do Estado - Instituto de Artes do Pará (IAP), Fundação Curro Velho e Fundação Cultural Tancredo Neves - já ganharam nome novo, mas nada além disso. O governo tem divulgado algumas poucas atividades realizadas nestes locais, substituindo os nomes dos espaços. Mas trocar de nome é uma tarefa relativamente fácil diante do desafio que é explicar para a população, artistas, usuários e sociedade como ficarão núcleos de pesquisas, atividades e eventos fundamentais que essas entidades desenvolviam.

O IAP agora atende pelo nome de Atelier Nazaré. O Curro Velho virou Núcleo de Oficinas Curro Velho. Mas isso é tudo que se sabe sobre a nova política cultural do Estado e, enquanto isso, muita gente permanece confusa e sem saber para onde ir para desenvolver atividades culturais.

“Eu nem sabia das novas denominações do antigo IAP e Curro Velho. O que eu sei é que vivemos uma desinformação completa. Ninguém sabe ao certo o que vai acontecer com todo acervo cultural que os órgãos construíram. Tudo é uma indefinição muito grande. A gente sabe que a indicação da Dina Oliveira (presidente da Fundação Cultural do Pará, que assimilou as atividades dos órgãos extintos) foi uma forma de tentar diminuir o peso das críticas, porque a classe artística com certeza não apoia a forma como essa extinção aconteceu. Mas se ela mesmo declara em um vídeo que não foi consultada sobre as decisões, então só podemos crer que foi um processo de trator, que saiu atropelando tudo”, pontua o professor de economia brasileira da Universidade Federal do Pará-UFPA e ativista cultural, Valcir Santos, integrante do Fórum Municipal de Cultura.

Incertezas quanto aos projetos em parceria com o MinC

Muitas dúvidas ainda pairam no ar: o que será feito da incubadora Pará Criativo, que recebia recursos federais para realizar projetos e funcionava dentro do extinto IAP? E o Núcleo de Produção Digital do instituto, como ficará? Quando irão retornar as formações dos artistas e também as ações suspensas com o fim dos órgãos? As respostas, pouca gente sabe. Em contato pelo telefone do Pará Criativo, a reportagem ouviu de um servidor que não quis se identificar que a incubadora está extinta e que não há respostas do que será feito por lá. “Quem sabe depois do carnaval”, disse o servidor.

O governo se posiciona e diz que as atividades estão sendo feitas. A Fundação Cultural do Pará respondeu aos questionamentos do DIÁRIO por email. Sobre a formação dos artistas, afirma que o “Centro de Experimentação Artístico e Cultural do Estado do Pará”, que é da Fundação, está preparando uma série de programações de formação e capacitação de artistas em geral. Segundo a nota, há um projeto para março de um curso de Arte Literária com o escritor e poeta Antonio Moura, outra capacitação voltada para dança com o coreógrafo Jaime Amaral, e cursos diversos com temática audiovisual. A assessoria do órgão afirma que ainda este mês vai ser lançado o edital do Concurso de Bolsas de Criação, Experimentação, Pesquisa e Divulgação Artística 2015. Segundo a nota, serão ofertadas 30 bolsas artísticas este ano, nas áreas de artes plásticas, audiovisual, artes cênicas e musicais. São R$ 18 mil para cada bolsa de pesquisa.

Sobre o Núcleo de Produção Digital do Pará, a assessoria garante que ele está em funcionamento sob a supervisão de Felipe Pamplona, funcionário da Fundação Cultural do Pará. Já sobre o Pará Criativo, o discurso é diferente do que disse ao DIÁRIO o servidor. A assessoria afirma que a Fundação Cultural do Pará está em contato com o Ministério da Cultura, reforçando o interesse em manter o escritório do Pará Criativo na capital paraense com as demais atividades voltadas para capacitação dos produtores culturais. Quantos às ações no Curro Velho, a assessoria destaca que as oficinas de arte e ofício, bem como o Núcleo de Práticas de Ofício e Produção, retomam suas ações sistemáticas a partir de março.

Produtores cobram respostas sobre as mudanças

A informação chega após uma provocação, mas a classe artística e produtores de cultura parecem ainda insatisfeitos com a falta de transparência no novo alinhamento da política estadual de cultura. O descontentamento aparece nas redes sociais. Laurenir Peniche, produtora cultural e pesquisadora, fomentou uma discussão em seu perfil no Facebook. Em uma postagem, questionou: “Vou fazer a pergunta que não quer calar! Afinal o que ocorrerá com o Núcleo de Produção Digital, Incubadora Pará Criativo e todos as outras parcerias assumidas como Governo Federal –MinC, que agora estão com os materiais sendo sucateados, assim como sem pagar os artistas e prestadores que atuaram acreditando na seriedade do Governo do Pará?”.

Em entrevista ao DIÁRIO, ela reafirma as perguntas e diz que ainda se vê sem respostas.“O Governo do Estado tem contratos com Governo Federal de mais de cinco anos, com verbas para o Núcleo de Produção Digital do IAP e o Pará Criativo, mas não se preocupou em cumprir e nem deu um posicionamento para população sobre isso. O que a gente percebe é que a atividades foram extintas, mas não se vê peças de reposição do serviço. O pior mesmo é esse silêncio dos órgãos, inclusive do próprio Ministério Público, que não se manifesta”, lamenta Laurenir.

Valcir Santos engrossa o coro de que as informações precisam chegar. “Acho que deveriam ser feitas, no mínimo, reuniões com os usuários, técnicos e artistas, para que eles fossem informados do que está acontecendo e sobre o que vai acontecer. No final, a sociedade, os fazedores de cultura não têm ideia do que vem pela frente”, completa.

Sem apoio, arte pelas próprias mãos

Felizmente a mente dos artistas está a todo vapor e ninguém está de braços cruzados esperando que o governo dê uma resposta. Os projetos continuam acontecendo, espaços culturais sendo inaugurados e artistas engajados em manter suas produções e inserir a sociedade nestes projetos.

“A cultura não depende desses órgãos e muito menos do Estado para acontecer. As pessoas estão fazendo com as próprias mãos: promovendo eventos, abrindo espaços culturais. Só esta semana dois foram inaugurados, o Casulo Cultural e Oficina Santa Teresinha. Os espaços foram abertos em áreas carentes e que poderiam, se feitos com políticas públicas, envolver a comunidade local que necessita de atividades. Mas sabemos que os artistas têm intenção de fazer isso e vão fazer: produzir e envolver a comunidade”, aposta Valcir.

Laurenir está desanimada com os rumos que a cultura está levando e acha que perde-se muito quando se desativam atividades da Fundação Curro Velho, que eram tão importantes para seu entorno.

“O Curro Velho tinha um impacto importante na região que funcionava, porque atendia a essa população tão necessitada. Agora o que vejo por lá é um programa de chefs de cozinha, um trabalho para elites. Este espaço é dos artistas e da comunidade. A meu ver, a cultura do Pará acabou. Existe menos da metade dos [cargos] DAS que os espaços tinham para agora tentar fazer o trabalho que era feito pelos três espaços, que, descentralizados, tinham mais chance de desenvolver políticas e chegar ao interior com atividades culturais para todos. Mas o que parece é que o governo não se importa”, desabafa Laurenir.

(Diário do Pará)

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