É o seu primeiro dia em uma aula de dança e, para iniciar, a professora pede para que movimente os braços como um pássaro a bater as asas. Uma imagem bonita vem à mente, não é difícil compreender o que fazer com os braços. A menos, que você nunca tenha visto um pássaro em sua vida.
Com o livro “O Seguinte Olhar: Estudo de Caso de um Processo Criativo em Dança com uma Bailarina Deficiente Visual”, a bailarina e coreógrafa Marina Mota mergulha nesse universo delicado e emocionante, onde ensinar dança deve ir além da visualidade.
O livro, que será lançado na noite de hoje, no Centro Cultural Sesc Boulevard, foi elaborado a partir das experiências de Marina ao lecionar durante 12 anos para crianças e adultos com deficiência visual. Concluído em 2013 pela Universidade Federal do Pará no Programa de Pós-graduação em Artes, o livro foi contemplado pelo Edital Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna/2013 e revela as metodologias de ensino e aprendizagem experimentadas pela autora.
“A primeira aula foi angustiante. Isto porque não tive referência nenhuma, nenhuma experiência na qual me espelhar. Soube de uma professora que fazia algo assim no Sudeste, mas não tive como entrar em contato. Quando eu mesma aprendi a dançar, foi tudo com base na visualidade, e ao ensinar também, mostrando o movimento e deixando o aluno reproduzir para depois ir fazendo as correções necessárias”, conta Marina.
A ideia de ensinar a deficientes, ela conta, veio de uma visita ao Instituto Álvares de Azevedo, especializada no atendimento a cegos. Ao observar os alunos em diversas atividades, a bailarina começou a pensar nas diversas possibilidades de trabalho que poderia ser executadas com eles e a se perguntar: por que não a dança? “Eu já trabalhava como professora na academia da Ana Unger e ela queria um projeto social, então propus esta ideia e comecei a dar aulas lá”, relembra.
No começo, eram oito crianças, e logo após uma nova turma incluía seis adultos. A constatação após as primeiras aulas era que Marina precisava reaprender a falar, pois ao dizer os movimentos que esperava ver reproduzidos, cada aluno entendia de uma forma. “Eu percebi que precisava apresentar detalhes melhores, mais do que isso, precisava lhes mostrar através do tato, com uso de itens reais”, conta ela.
De todas as histórias que marcaram esse recomeço no mundo do ensino da dança, algumas lhe foram verdadeiras lições. “Uma vez pedi a uma aluna que movimentasse os braços como um pássaro a bater as asas e ela disse: ‘tudo bem, mas eu nunca vi um pássaro’. Em outra ocasião, já com essas coisas em mente, levei dois objeto que me ajudassem a explicar a uma aluna o que era o côncavo e o convexo, algo que ela pudesse tocar, e até hoje lembro dela dizendo que sempre ouviu falar, mas não sabia o que eles eram”, relembra a professora.
Ao ter que ensinar adotando uma forma de se expressar que chega a ser uma audiodescrição, a bailarina experiente acabou também aprendendo mais, passou a refletir mais sobre cada movimento, ao precisar disso para fornecer aos outros alunos os elementos necessários para seu entendimento. O resultado foi uma grande satisfação, ao ver seus alunos ganhando autonomia sobre o corpo no palco.
Para se apresentar sozinhos, não só o corpo foi trabalhado, mas a percepção de espaço, permitindo que os bailarinos entrassem e saíssem sozinhos do palco. “É o que me deixa mais satisfeita. Eu não vejo (nem eles veem) diferença entre a forma como eles dançam para a de outros bailarinos. Quando assistem, as pessoas não acreditam que são deficientes visuais, pois a sociedade ainda tem esse estigma, o olhar da incapacidade, não percebem que todos os outros sentidos estão ali”, diz Marina.
No livro também entra uma leitura da professora sobre um processo de criação em dança, fruto da Bolsa de Criação/Experimentação Artística do extinto Instituto de Arte do Pará, de 2012, realizado pela bailarina deficiente visual Socorro Lima, sua ex-aluna. “Eu a acompanho há 11 anos e neste projeto também incluí uma pesquisa sobre como a plateia com deficiência visual também pode perceber a dança”, explica a professora.
A aluna se diz satisfeita em colaborar com o livro através de suas apresentações. “Em primeiro lugar, é gratificante ter alguém que acredite que posso estar em cena, fico até emocionada. Ao aprender com ela, a gente passa por um processo de autodescoberta, de autoestima. Hoje me sinto muito feliz em ser uma intérprete em dança e de saber também a recepção ao meu trabalho. Quando me apresentei a eles (deficientes visuais) durante a pesquisa, depois um vinha e dizia ‘tem um personagem assim, uma cena assim’, eu ficava muito feliz”, comenta Socorro.
No lançamento na noite de hoje, haverá uma apresentação do grupo Passos Para Luz, de um novo processo de criação, ainda em fase de experimentação, com a participação dos violinistas Sandro Maciel e Ana Clara Maciel, que também é deficiente visual. E ainda a apresentação de um duo com o bailarino Marcos Brasil e a bailarina Socorro Lima.
CONFIRA
Lançamento do livro “O Seguinte Olhar”, de Marina Mota
Quando: hoje, às 18h
Onde: Centro Cultural Sesc Boulevard (Boulevard Castilho França, 522/523 - em frente à Estação das Docas)
(Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar