Quando começou a era dos festivais de música popular brasileira aqui no Pará, Alfredo Oliveira era muito amigo de Ruy Barata. Frequentava a casa do poeta, que era um núcleo onde se aglomeravam compositores. Então Alfredo se entusiasmou e quis fazer suas próprias composições. Importante dizer que muitas delas foram depois gravadas, 60 ao todo, por intérpretes do Pará e do resto do Brasil.
Ao ganhar um dos festivais, em 1979, recebeu, sem saber, seu passaporte para o universo onde se tornou mais conhecido: o Carnaval.“Ganhei o concurso com um samba. Na hora de gravar, pedi a um amigo meu, que era o presidente da Quem São Eles uma ajuda, que me cedesse batuqueiros da escola e o puxador Fernando Gogó de Ouro para a gravação”, lembra Alfredo.
A contrapartida era que o compositor se inscrevesse no festival de samba-enredo Eneida de Moraes, realizado anualmente pela escola de samba.“Eu falei ‘aceito, nunca fiz samba-enredo, mas vou fazer’. E para minha surpresa eu ganhei de Chico da Silva, autor de ‘Vermelho’, cantada pela Fafá de Belém. Aí me entusiasmei e continuei fazendo”, conta ele. Depois, Alfredo passou um tempo na Mocidade Olariense, antes de seguir para a Acadêmicos da Pedreira, onde ficou por muitos anos ajudando a escola a ganhar vários títulos. “Até que eu virei tema da escola em 2004 e a partir daí decidi me aposentar. Agora chega, deixa eu cuidar dos meus livros”.
Alfredo Oliveira é medico, escritor, compositor e mesmo que negue, dizendo que se aposentou, sua relação com o Carnaval continua estreita. Ele também é pai do músico Marco André, um dos criadores do Cabloco Muderno, que anima o carnaval de blocos de Belém, e do atual compositor do Rancho, Paulo Oliveira. É reconhecido até na academia por seu livro “Carnaval Paraense” (2006), praticamente a única referência sobre o assunto, desde sua origem. “Antes dele [o livro] não havia outros, então custou muita entrevista, além de eu mesmo ter sido testemunha de muita coisa”, conta.
Uma das características mais importantes do Carnaval é apontada pelo escritor: ele reflete a dinâmica social. “Antes da nudez que existe hoje, existia a fantasia. Quem brincava carnaval, em lugar nenhum chegava se não fosse fantasiado. Hoje os homens põem bermuda, as mulheres um biquíni e vão para a rua se divertir. Isso não existia antigamente, a fantasia era quase obrigatória. E também, os blocos eram muito numerosos, era comum as pessoas irem sozinhas pra rua brincar porque não havia problema de assalto, essa coisa toda”.E como o assunto lhe é muito familiar, Alfredo não resiste e conta um pouco de sua história. “O carnaval foi introduzido pelo colonizador português e se chamava ‘entrudo’”, conta.
O entrudo era uma espécie de trote, as pessoas se guerreavam lançando líquidos umas nas outras, podia ser desde água perfumada até urina. “Isso levou séculos! Só em meados do século 19 apareceu o carnaval de rua, de blocos e as festas de salão. Já a terceira fase veio no principio da década de 1930 com o advento do samba no carnaval”, conta o escritor.E mesmo seu livro sendo uma obra que rende pesquisas e muitas entrevistas, Alfredo diz que, por enquanto, não pensa em reeditá-lo. “Tenho outros projetos que são prioridade”. O último livro reeditado de Alfredo foi “O Touro Passa?”, em 2011, por iniciativa do DIÁRIO DO PARÁ. “Foi um dos meus primeiros livros, tem prefácio de Benedito Nunes. Ali eu tive a oportunidade de fazer correções, atualizações. Se fosse fazer isso com esse [Carnaval Paraense], teria que ser assim, algo que eu não teria tempo agora”, diz Alfredo.
Novos projetos
A falsa aposentadoria de Alfredo inclui três novos projetos em andamento. O primeiro veio com a premiação que recebeu na primeira edição da Feira Literária do Pará (Flipa), realizada em 2014. Nela, o autor foi escolhido para ter seu segundo livro, “Belém, Belém” (1983), reeditado este ano.
O segundo projeto é o lançamento do livro “Conflitos e Sonhos de um Aprendiz”, com o qual deseja comemorar seus 80 anos de vida.“Antes de ser médico estudei na escola da Aeronáutica e este novo livro fala dos anos que eu passei ali. Também conto como acabei desistindo de ser aviador porque descobri que tinha um medo intransponível de altura. Escrevi essas memórias para focalizar no que é a rotina de um estudante e nesse momento de escolha do que fazer da vida, quando sua primeira opção não deu certo. Nele, não sou o protagonista.
O protagonismo está no que acontecia a minha volta”, adianta.Um dos aspectos mais interessantes da nova obra é que o jovem Alfredo iniciou os estudos na escola militar em março de 1950, em Barbacena (MG), e passava os fins de semana no Rio de Janeiro. Assim, o livro apresenta o Rio dos anos 1950, a verdadeira Cidade Maravilhosa. “Não tinha a quantidade de favelas que tem hoje, essa favelização começou depois”, destaca o escritor. Quando volta da cidade mineira, dois anos depois, Alfredo acaba retratando em seu livro também a Belém dos anos 1950.E este gênero de memórias e biografias é o mais comum na carreira de Alfredo, que tem várias obras conhecidas como “Paranatinga” (1984), biografia de Ruy Barata, “Cabanos & Camaradas” (2010), que foi lançado há dois anos trazendo a biografia de revolucionários paraenses tanto da Cabanagem quanto do partido comunista, e a biografia “Almir Gabriel: Trajetória e Pensamento” (2002). “Eu não trabalho com ficção, apenas com situações datadas e verídicas.
Não sei inventar nada, não consigo me enganar”, brinca. Do Carnaval para a “cinemice”Após ter um livro que é referência sobre música popular brasileira feita no Pará, o “Ritmos e Cantares” (1999), além do livro “Carnaval Paraense” (2006) e os de conteúdo político, como “Cabanos & Camaradas”, agora Alfredo Oliveira quer falar sobre cinema. Ele conta que resolveu contar a partir de sua primeira ida ao cinema, aquilo que estava acontecendo na época, e um pouco sobre o filme em si. “E são dezenas de filmes! Isso é uma curtição para mim, assim como a música e o carnaval”, comenta.O título será “Cinemice: Lembranças de Outrora”. “O paraense tinha essa expressão, quando a pessoa gostava muito de ir o cinema dizia que era ‘cinemice’. Mas era o cinema de rua, não era igual esse cinema de shopping, era o programa de maior diversão na época, além do futebol.
Não tinha televisão, essas coisas. No dia que eu nasci, meu pai foi ao cinema de noite. Ficava na Avenida Magalhães Barata, era o Cinema Independência, que era o nome da rua naquela época”, conta Alfredo, que pretende assim resgatar também a história dos cinemas que frequentou.
(Diário do Pará)
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