Obra prima do escritor Bruno de Menezes, a coletânea de poemas “Batuque” vai ganhar reedição em breve, sob responsabilidade do editor Max Reis, e com ilustrações de Biratan Porto. Mas a grande novidade desta edição é o acréscimo de quatro poemas inéditos: “Invocação”, “Bambelô”, “Poema à África” e “Canto do Morto Lumumba”.
“O mais fantástico disto é a própria reedição, porque a maioria dos nossos poetas e escritores carece de ter suas obras relançadas. E isso acarreta em falta de leitores, é o emudecimento desses escritores. Acontece com Eneida, Haroldo Maranhão, Antônio Tavernard, acontece com quase todos os nossos grandes”, analisa a professora Amarílis Tupiassu, doutora em Teoria Literária, que assina o prefácio da nova edição.
A exceção a essa regra perversa com a literatura paraense seria Ruy Barata e agora Bruno, graças ao esforço da família do escritor. A filha mais nova dele, a pianista Lenora Brito, 79, explica que a família decidiu realizar a oitava reedição de “Batuque” justamente pelo esgotamento da obra. “Nós sabemos que muitos estudantes procuram por este livro, professores de literatura, leitores em geral, e não encontram mais nas livrarias. Mesmo sem patrocínio direto, achamos importante reeditar”, comenta.
Os poemas inéditos, ela conta, foram escolhidos pela irmã mais velha, Maria de Belém. “Tanto ela quanto a Ruth – e antes delas, minha mãe, sabiam tudo sobre Bruno e foram passando para mim. Isso é muito importante, minhas irmãs terem guardado isso e que eu continue a repassar”, completa.
Apesar de serem poemas que estavam guardados pela família, ela garante: “São poemas que tem tudo a ver, que não deixam de ter a ambiência da negritude presente na edição original”, explica Lenora.
O primeiro esboço de “Batuque” apareceu em 1931, dentro da coletânea “Poesia”. Já sua versão definitiva surgiu apenas em 1939, com ilustrações de Raymundo Martins Vianna. Seu conteúdo traz a força da cultura negra, seus costumes e peculiaridades. De linguagem solta, popular, muitas pessoas acreditam que o autor iniciou no mundo literário com este livro. “O ‘Batuque’ tem uma musicalidade própria. Há um encadeamento frasal próprio da obra e que lhe dá musicalidade”, explica Amarílis.
Isso porque o escritor começou sua obra com poesias bem cuidadas, foi um grande sonetista premiado e um escritor primoroso. “Ele engana quem só conhece o ‘Batuque’ que tem ritmo bem solto. Ele era um poeta que se preocupava muito com a sonoridade das palavras, com o casamento entre elas. Essa soltura, essa marca popular e espontânea do ‘Batuque’, na verdade, passa por um grande trabalho. O que é aparentemente simples deu muito trabalho de fazer”, comenta a professora.
Quando alguns dos versos do livro são falados em voz alta, sem precisar cantar, já é notada certa sonoridade: “Maribondo no meu corpo! Maribondo Sinhá! É por cima é por baxo! E por todo lugá!”.
“É um livro que ao ser reeditado cumpre a missão de mostrar uma fase em que a cultura popular era muito viva – diferente do que essa mistura trazida pela globalização. Não que esse encontro entre culturas seja negativo, mas também é preciso manter a memória desse passado”, avalia Amarílis.
A filha de Bruno conta que no tempo em que o pai entrou em contato com as músicas cantadas pelos caboclos da orla do Ver-o-Peso, não havia gravador, “ou ele não tinha dinheiro para comprar”. Então chegava em casa com melodia e letra frescas na memória, e cantava para ela como canção de ninar. “Digo que esta herança musical que tenho vem dele. Depois, quando eu ainda estava no conservatório [Carlos Gomes], ele dizia: ‘escreva, escreva’. O primeiro ‘Batuque’ foi com minha grafia de menina, era eu quem escrevia o que ele cantarolava. Fiquei muito feliz de poder repassar isso às pessoas”, relembra Lenora.
A outra curiosidade desta oitava edição é que, diferente de todas as anteriores, as ilustrações foram feitas por Biratan Porto. “Está bem interessante porque como o Biratan também é chargista, soube colocar em alguns desenhos um tom humorístico. Em um dos poemas, a negra está passando na rua, então ele pôs um português bigodudo olhando para ela”, diz Lenora. No poema ‘Chorinho’, que Waldemar Henrique musicou, a luz está maravilhosa no céu, em várias ilustrações ela está presente.
Na verdade, Bruno era mesmo chamado “poeta da lua”, lembra sua filha. “Soube há uns 20 anos, de um estudante que fez um levantamento de quantas vezes ele (escritor) fala da lua só no ‘Batuque’”. Bento Bruno de Menezes também ficou conhecido como escritor do bairro do Jurunas. Nascido de família humilde, era um poeta popular, mas também um estudioso, dedicado à literatura. O escritor faleceu no dia 02 de julho de 1963, deixando para traz a beleza de sua literatura cadenciada. Por enquanto, o lançamento desta nova edição não tem data marcada, mas ela já está pronta, o que indica que será em breve.
(Diário do Pará)
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