plus
plus

Edição do dia

Leia a edição completa grátis
Edição do Dia
Previsão do Tempo 31°
cotação atual R$


home

_
_

Carnaval com negritude e muito axé

‘Filhos de Gandhy, Badauê, Ilê Alê, Malê de Balê, Oju Obá. Tem um mistério, que bate no coração, foça de uma canção, que tem o dom de encantar”. Os versos que fizeram sucesso com Clara Nunes lembram de imediato do bloco formado por homens no Carnaval de S

twitter Google News

‘Filhos de Gandhy, Badauê, Ilê Alê, Malê de Balê, Oju Obá. Tem um mistério, que bate no coração, foça de uma canção, que tem o dom de encantar”. Os versos que fizeram sucesso com Clara Nunes lembram de imediato do bloco formado por homens no Carnaval de Salvador, em homenagem aos orixás, considerado o maior afoxé do mundo.

Para quem não conhece os cultos de origem africana e seus ritmos, o afoxé parece apenas um bloco de carnaval um tanto diferente, mas ele é mais que isso. É o “candomblé de rua”. Além de sair às ruas no Carnaval, tudo neles é uma representação da cultura e da fé afro-brasileira e uma homenagem aos orixás, com suas roupas e cores e as cantigas em língua iorubá, utilizando instrumentos percussivos como o agogô, os atabaques e o xequerê. Com eles, criam ritmos envolventes, levando pessoas de todas as idades a se soltarem e a criarem seus próprios movimentos de dança.

“O Brasil é de construção indígena e africana, por isso é difícil uma pessoa não se identificar com os ritmos do afoxé e este estar identificado com o Carnaval”, afirma Emanuell Souza, diretor artístico do afoxé Omo Bàbá Orun, de Belém, e sacerdote de candomblé.

Ele explica que a raiz dos afoxés está no povo iorubá e que cada grupo tem seus integrantes vinculados a um determinado terreiro de candomblé. O ritmo da dança na rua é o mesmo dos terreiros, apesar de hoje incluir outros mais populares. “No caso do nosso grupo, por exemplo, nós tocamos músicas próprias e de grupos como a Timbalada e o Olodum, ritmos que são muito para cima e também falam sobre harmonia, respeito, paz. Acho que isso também acaba atraindo as pessoas. Todo mundo se sente bem nesse ambiente”, defende Emanuell.

Os afoxés podem ser conduzidos por um Babalorixá ou Ialorixá, e normalmente usam músicas que transmitem mensagens de paz, harmonia e integração entre os povos, que ganham poder quando repetidas. Afinal, esse é o sentido do afoxé, palavra herdado da língua iorubá que significa “o enunciado que faz acontecer”.

Por isso o sentido religioso, assim como a luta pela valorização da cultura de raiz africana, contra o preconceito religioso e o racismo, nunca estão desvinculados dos afoxés.

O culto aos orixás é a principal razão da existência dos cortejos. É o caso do cortejo promovido pelo Mansu Nangetu, um terreiro de candomblé nação Angola reconhecido entre a comunidade afro-religiosa de Belém, assim como uma referência regional e nacional da cultura religiosa afro-amazônica. Antes da saída pelas ruas do bairro onde está localizado, o Marco, seus componentes fazem oferenda para Marabô. “Nosso maracatu saiu dia três de janeiro pelas ruas pra saldar Exu”, conta a mãe de santo Mam’etu Nangetu.

No caso deste grupo, eles não chamam o bloco de afoxé, mas de maracatu. “Ele passa pelas redondezas, perto do terreiro. É um bloco também de origem africana e expressa nossa cultura Bantu. Para participar dele, chamamos amigos e a comunidade do terreiro. Nossa música puxa mais para o maracatu, que é africano e vem do povo Bantu, de Angola, com sons dos atabaques. Nas roupas, usamos muito o estampado e os guarda-chuvas, para mostrar também a parte cultural”, completa Mam’etu.

Foto: Jader Paes/Diário do Pará

A celebração, que inicia com o cortejo, termina com as cerimônias internas como a Chamada de Caboco e o levante da “Bandeira do Rei”. “Na verdade, nos dias de hoje, acabamos sendo uma união entre todas estas questões”, afirma Emanuell, do afoxé Omo Bàbá Orun. “Mantemos nossos laços religiosos enquanto somos também um movimento cultural de Carnaval. No resto do ano, estaremos aqui para realizar rodas de conversa, sambas, nas casas que cultuam a cultura afro-religiosa, debatendo vários temas, inclusive, temas relacionados à mulher, à criança e à natureza”, completa.

As músicas que são de autoria do grupo trazem letras que denunciam a intolerância religiosa, o racismo, enquanto também falam das belezas da cultura de raiz africana. “Saímos pelas ruas para mostrar toda a beleza negra, a estética do povo negro, homenagear os orixás que são de culto africano. Aqui no Pará tem outros grupos, mas são mais fechados, restritos a algumas casas de candomblé. O afoxé Omo Baba Orun não, esse é aberto a todos que desejam conhecer de peito aberto nossa cultura”, convida Emanuell.

Salvador, o palco dos afoxés

A cidade de maior tradição com a saída de afoxés pelas ruas durante o Carnaval continua sendo Salvador. Lá, eles ocorrem no domingo e terça-feira de Carnaval, sempre à tarde. Além do cortejo pela cidade, os afoxés ainda visitam terreiros de candomblé e casas de pessoas amigas. Tornaram-se uma forma de mostrar o que antes ficava escondido porque seus próprios praticantes tinham medo de sofrer pela intolerância. Foi assim que surgiu o afoxé, para mostrar a beleza que existe em suas manifestações, quebrando os preconceitos com seu ritmo contagiante e a beleza de suas cores.

O mais famoso deles é o Filhos de Gandhy, assim mesmo, escrito com “y”, criado no final da década de 1940 por trabalhadores do porto de Salvador e até hoje mantido como um bloco apenas de homens. Inspirado nas mensagens de não violência do líder Mahatma Gandhi, o bloco desfilou no domingo e na segunda, mas volta ao circuito do Carnaval de Salvador nesta terça-feira, com seus tradicionais trajes brancos e azuis. Este ano, o tema é “Águas Sagradas”, uma homenagem à Oxum, a mãe das águas doces.

Outro afoxé tradicionalíssimo é o Alafin Oyó, de Olinda. Criado em 1986, o grupo é uma das mais importantes referências da cultura negra em Pernambuco, tanto que foi transformado em Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura

VEM SEGUIR OS CANAIS DO DOL!

Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.

Quer receber mais notícias como essa?

Cadastre seu email e comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Conteúdo Relacionado

0 Comentário(s)

plus

    Mais em _

    Leia mais notícias de _. Clique aqui!