Célia Bassalo será sempre lembrada pelos seus amigos, alunos, familiares e colegas de profissão pela sua dedicação aos estudos e o grande arsenal intelectual que construiu ao longo da vida. A professora aposentada da Universidade Federal do Pará e mestre em teoria literária morreu ontem, aos 75 anos, vítima de infarto.
Ela é autora de livros importantes, como o estudo sobre o poeta paraense Paulo Plínio de Abreu - “Três Sentidos Fundamentais na Obra de Paulo Plínio Abreu”, resultado de sua pesquisa de mestrado - e “Art Noveau em Belém”, publicado em 2008, uma edição bilíngue com os estudos da professora sobre a influência do estilo em diversas partes da capital paraense, uma espécie de guia turístico, com belas fotografias, contando a história do estilo de época na cidade e um mapa de como encontrar fachadas azulejadas, frontões, paredes internas, vidraças, objetos de arte, lustres, móveis e joias.
“Célia sempre foi muito elogiada pelo seu trabalho. Seu mestrado sobre o poeta paraense Paulo Plínio Abreu é muito importante. Além disso, mesmo depois de aposentada ela continuou em atividade, fazendo trabalhos na área de língua portuguesa e literatura, mantendo um cursinho de preparação para o vestibular. Ela gostava muito de artes e antiguidades e foi colecionadora de muitos objetos, em especial os do estilo art noveau e essa sua paixão resultou na publicação de um livro baseado em pesquisas que ela fez em diversas residências, coleções e locais, um verdadeiro levantamento da presença do estilo na cidade”, disse o cunhado da professora, que também foi professor do curso de letras da UFPA, Pedro Pinho.
O escritor e professor de literatura da Universidade da Amazônia, Paulo Nunes, lembra que Célia Bassalo era filha de Machado Coelho, intelectual importante para a sociedade de Belém na primeira metade do século 20, e que herdou o legado intelectual da família
“Ela era uma profissional muito disciplinada, clara, sem pedâncias ou estrelismos, acho que ela poderia ter sido arrogante, mas não foi, muito pelo contrário. Célia era especial, paciente com seus alunos, sobretudo os iniciantes, como eu era. Foi minha professora de Teoria Literária no antigo Centro de Letras da UFPA. Lembro dela coordenando as reuniões de colegiado, enquanto eu era representante dos alunos, mesmo em meio a reuniões tensas, em pleno redemocratização, ela conduzia o barco com calma e serenidade, pedindo-nos que nos mantivéssemos equilibrados. Sem dúvida, um exemplo de discernimento que tentei seguir depois”, conta o escritor.
A doutora em Teoria Literária, Amarílis Tupiassu, também relembra a professora com carinho e exalta o meio intelectual que ela viveu. “Ela tinha um excelente trabalho, com artigo publicado sobre Camões, além do estudo sobre Paulo Plínio Abreu. Como pessoa, era uma mulher, mãe e irmã maravilhosa, que bebeu em sua casa de uma fonte de muitos estudos. Uma intelectual de altíssima lavra, que recebeu Foucault na casa dos pais quando ele esteve em Belém. Além disso, é mulher de um dos maiores físicos do Pará, José Maria Bassalo, com quem dividia seus pensamentos inteligentes”, conta a pesquisadora.
Paulo Nunes ressalta a versatilidade intelectual da professora Célia, que além de ter expertise em arte, demonstrava enlevamento pelas obras dos poetas Paulo Plínio Abreu, Ruy Barata, Bruno de Menezes, e de Dalcídio Jurandir. “Ela nos falava, quando éramos seus alunos, da memória da casa de seu pai, Machado Coelho, e dos intelectuais de todo o canto que por ali passaram. Empolgada com o ‘tio’ Chico Mendes, o Francisco Paulo do Nascimento Mendes, mestre de muitas gerações de professores de letras. Realizou um estudo dela com seu irmão, Francisco Coelho, sobre Mário de Andrade e sua viagem a Belém e Amazônia que virou um clássico. Não posso deixar de dizer que Célia foi a primeira professora da UFPA que me leu como poeta e me aconselhou: comece com os clássicos franceses, beba na fonte de Malllarmé, Rimbaud, Baudelaire, depois você aprenderá o resto. Ela foi uma das colaboradoras da ‘Asas da Palavra’, revista de Letras da Universidade da Amazônia, sempre pronta a colaborar com todos nós. Pessoas como Célia Bassalo fazem falta a esta nossa sociedade medíocre, da espetacularização e da ignorância. Sempre fina e atenciosa, um grande ser humano, uma intelectual de outro tempo, refinada e sutil”, relembra, emocionado, o escritor.
A mesma imagem que cultiva na memória o fotógrafo Octávio Cardoso, que fez algumas das fotos que ilustram o livro de Célia sobre art noveau. “Ela era adorável e foi uma delícia trabalhar com ela. Era uma pessoa muito dedicada, que preservou muita coisa. A gente via que ela era apaixonada e, mesmo aposentada, muito dedicada ao estudo. Era daquelas pessoas movidas pela vontade de aprender e pesquisar”, pontua o fotógrafo.
O corpo de Célia foi velado durante toda a tarde e noite de ontem, na capela Recanto da Saudade da Diogo Moia, de onde o cortejo fúnebre sairá hoje de manhã para o enterro, às 9h, no cemitério Recanto da Saudade, no bairro de Águas Lindas, em Ananindeua.
(Diário do Pará)
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