Coleções como a de Haroldo Maranhão, já devidamente analisadas, guardam exemplares que enchem de luz os olhos dos amantes de livros. Ou pelo menos deveriam, se não estivessem escondidas dos olhares do público. Bem diferente do momento em que os mais de cinco mil volumes de Haroldo foram doados à biblioteca, em 2002, com o autor ainda vivo, quando a promessa era de que o amplo acervo estivesse em uma sala que levasse o nome do autor, informação divulgada na imprensa da época. A sala não existe e o acervo está junto com outras obras na sala de obras raras da Biblioteca Arthur Viana. Na época, a coleção de Haroldo foi doada ao Estado para compor a biblioteca pública Arthur Viana, que se tornaria detentora do mais representativo acervo literário da Região Norte.
Junto com os livros, segundo os registros feitos pela imprensa na época, foram doadas também várias obras de arte, como quadros a óleo, desenhos e gravuras de artistas como Nássara, Santa Rosa, Oscar Ramos e Lasar Segall, sem esquecer o retrato de Paulo Maranhão, avô de Haroldo, um óleo sobre tela de Benedito Mello, e uma gravura de J. Carlos que ilustrou a primeira capa da revista Fonfon. Ainda havia fotografias e correspondências trocadas pelo autor com outros grandes nomes da literatura, como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Benedito Nunes, Marques Rebelo, Dalcídio Jurandir, Eneida e Ciro dos Anjos, um acervo que caberia à biblioteca pública divulgar e enaltecer.
O jornalista Elias Pinto, colunista do DIÁRIO, registrou em sua coluna na época informações sobre a coleção, que segundo ele, “não impressiona pela quantidade, mas pela raridade e singularidade dos livros. O fundamental do acervo se concentra em primeiras edições dos mais importantes autores do Modernismo brasileiro e de seus tributários. Temos Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto, entre outros. E muitos dos volumes incluem autógrafos do autor, dedicados, na maioria, a outros escritores, bem como tiragens especiais e limitadas. Mas a coleção abrange ainda edições príncipes de Castro Alves, Gonçalves Dias, José de Alencar, Joaquim Nabuco, Sílvio Romero, dos paraenses José Veríssimo e Inglês de Souza, além de quase todas as primeiras edições do maior escritor brasileiro de todos os tempos, Machado de Assis”, publicou o jornalista na época.
A pérola desse acervo que encanta os olhos é a obra “Rimas Varias”, publicada entre 1685 e 1689, em cinco tomos que resistiram à umidade e ao tempo e são uma verdadeira obra de arte. Além disso, outros clássicos, com exemplares raros de Camilo Castelo Branco a Eça de Queiroz, grande parte em primeiras edições.
Os livros de Ildefonso
O escritor paraense Ildefonso Guimarães cultivou com amor os livros que leu durante toda a vida e fez deles seu grande tesouro. Uma riqueza que a família do autor decidiu dividir com a sociedade, ao doar a coleção de Ildefonso para a Biblioteca Pública Estadual. “O importante deste acervo é que foi ele o responsável pelo meu pai ter se tornado o escritor que foi. Uma pessoa com o grau de escolaridade que ele teve, apenas o quinto ano primário, vindo de uma família paupérrima no interior de Óbidos, mas que conseguiu atingir esse grau, consequência única e exclusiva da paixão que ele teve pelos livros. O grande tesouro dele foi essa biblioteca e ele morreu com essa preocupação de onde iriam ficar os livros dele. Decidimos que o melhor presente para ele seria doar para que outras pessoas pudessem ter acesso a essas obras”, disse, emocionado, à época da doação, o filho mais velho do autor, Ildefonso Junior, enquanto entregava oficialmente a coleção à biblioteca.
Entre os cerca de 2,6 mil livros, estão 480 volumes autografados por seus autores com dedicatórias para ele, incluindo escritores como Dalcídio Jurandir, Bruno de Menezes e Mário Quintana. “Ele é o grande mestre da literatura paraense, brasileira e universal. Entre suas obras, contos, poesias, textos que são importantíssimos, vemos mais do que literatura, ele nos ensina didaticamente como escrever e tecer o texto. Ele foi e tem sido o mestre na difícil arte de escrever. Convivi com ele e o conheço bem, sei que como autodidata ele soube bem a forma de usar a linguagem e compor o texto sem exageros”, diz o escritor Salomão Laredo sobre Ildefonso.
Para Laredo, assim como para o escritor Walcyr Monteiro, a doação dessas obras é um catalisador para a valorização dos livros e dos autores locais. “A doação é muito importante para que possamos valorizar o que é nosso, o autor local, a literatura que nós fazemos. Temos vergonha de falar dos nossos autores e nossas obras, mas nós temos é que nos vangloriar e homenagear os nossos autores, porque não devem nada a outros autores da literatura universal e Ildefonso é um deles. Um dos grandes interditos ao acesso à nossa literatura são as nossas obras com tiragens limitadas, que acontecem não só em função de custos, mas também pela procura dos leitores. As obras estando aqui certamente estão mais acessíveis e socializam esse conhecimento e as obras dos autores locais”, diz Salomão Laredo. Espera-se que sim.
(Diário do Pará)
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