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Trio quer levar intervenções a interior do Pará

Enquanto a folia de Carnaval levava pessoas a sair da capital para curtir blocos, praias e igarapés, um trio de grafiteiros colocou a mochila nas costas para dar início a um novo projeto – ainda sem nome – que busca valorizar, através das artes visuais al

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Enquanto a folia de Carnaval levava pessoas a sair da capital para curtir blocos, praias e igarapés, um trio de grafiteiros colocou a mochila nas costas para dar início a um novo projeto – ainda sem nome – que busca valorizar, através das artes visuais aliadas às demais linguagens artísticas, a cultura que anda sitiada, recolhida dos olhos do mundo, em cidades do interior do Pará. O primeiro lugar a receber a intervenção foi São Caetano de Odivelas, e não por acaso.

Enquanto na capital paraense há nomes despontando em cenário nacional, como é o caso de Sebá Tapajós, a quilômetros de distância tem gente de talento desistindo de sua arte porque no lugar onde nasceu não consegue encontrar a valorização almejada. Foi o caso do grafiteiro Anderson, que saiu de São Caetano de Odivelas para a morar em Belém porque não conseguia sobreviver na cidade onde nasceu apenas de arte.

Já vivendo em Belém, ele se uniu ao seu conterrâneo, o grafiteiro Adriano DK e ao artista visual Mauro Barbosa. “Há muito tempo realizo oficinas com quem vem do interior e vi um potencial muito grande nestas pessoas, talentos que precisam apenas de lapidação, são diferentes traços e expressões que deveriam ganhar espaço. Assim surgiu a ideia de fazer essa montagem e começamos por São Caetano porque é a cidade do Adriano e do Anderson, que já veio de lá por falta de incentivo”, conta Mauro.

Artista visual acostumado a trabalhar com escultura, gravura e pintura, ele começou a se aventurar no grafite há cerca de cinco anos. Antes, atuava apenas ao lado de arquitetos e outros projetos por encomenda. “Foi a ideia de um arquiteto que eu levasse isso para as ruas. Foi quando parti para essa linguagem dos murais, que acabou sendo nossa opção para este projeto: buscar um muro, que seja de bastante acesso da comunidade local, e deixar ali um trabalho que reflita a cultura daquele próprio lugar”, explica Mauro.

Anderson já trabalhava com técnica de adesivagem, acrílica sobre tela, e havia conhecido o grafite recentemente, mas logo topou que esta fosse a técnica empregada. O trio preparou os croquis para intervenção e em pouco mais um mês, fizeram um estudo da arquitetura local e encontraram um prédio antigo onde grafitar o mural. Nele, fizeram um trabalho remetesse aos manguezais, muito presentes no município, e às máscaras ligadas às festas dos bois caindo nesses mangues.

“Acaba sendo também uma crítica. Não que as aparelhagens não tenham seu valor, mas elas estão muito impregnadas nas crianças e acabam se fortalecendo, em detrimento da cultura dos bois de máscaras”, explica DK. A resposta da população ao trabalho foi além do esperado pelos artistas. “Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que afirmou querer colaborar e surgiu com novas ideias, com a quantidade de artistas que conhecemos ali”.

Uma poeta local, com mais de 100 poemas escritos, contou ao trio que havia parado de escrever porque não via aquilo levá-la a lugar nenhum. Algumas de suas poesias foram então incluídas ao lado do mural grafitado e assinadas por ela. Além disso, segundo os artistas, duas escolas de música da cidade querem participar de uma próxima intervenção. “É um município rico em cultura que poderia estar vivendo apenas de turismo, há um potencial enorme lá para a música e todas as formas de arte”, comenta Mauro.

A ideia é daqui por diante sempre convidar mais artistas dos locais onde decidirem realizar a intervenção – fotógrafos, arte-educadores, ilustradores. “Queremos montar um grande projeto, quase um mutirão. Paralelamente, nas reuniões, deixamos claro que cada um pode dar sua continuidade além daquilo, de forma individual”, explica Mauro, experiente em projetos desta natureza, como o trabalho de murais que desenvolve pelas ruas de Belém, no qual traz imagens antigas da cidade com base em fotografias do Arquivo Público.

Entre os planos do trio também está a construção de um livro virtual reunindo todas estas intervenções e trabalhos que forem sendo encontrados ao longo do caminho, como o da poeta de São Caetano de Odivelas, e depois, mediante patrocínio, tentar um livro fisico. “Ainda há muitas ideias para por em prática. Queremos voltar em Odivelas em junho, contando a história dos bois e das festas juninas. Queremos levar para cidades ribeirinhas, de Igarapé-Miri, município onde eu nasci. E estamos formatando esse material para tentar também realizar um documentário”, diz Mauro.

Por enquanto, o trio está em debate pelo mínimo que ainda falta: um nome para o projeto.

(Diário do Pará)

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