“O Pará, devido à vastidão de florestas, rios e longos deslocamentos, não permitiu que realizássemos uma gravação mais ampla em uma só expedição, o que estimula muito a minha intenção de voltar este ano para dar continuidade. Principalmente pela importância de registrar mais dessa riqueza encontrada aqui antes que os cenários e personagens não existam mais, o que em parte pode acontecer antes até do que se imagina”, afirma Betão, que antecipou ao DIÁRIO o interesse de produzir documentários com o material registrado no Pará, como ocorreu em outras regiões por onde passou.
“Acho que cabem ainda pelo menos dois discos de marujada, Sairé, samba de cacete. Ainda falta patrocinador, mas aos poucos almejo tornar o ‘Mestres Navegantes’ algo maior e, se possível, mapear a maioria dos estados. Daqui a dez anos veremos o resultado. Hoje ele já é um dos maiores acervos para download legal no país”, orgulha-se.
E nem só de discos vive o projeto. São produzidos também minidocumentários e programas de rádio, gerando um acervo digital acessível a todos. Apesar de não ser o objetivo principal, Betão acaba incentivando os mestres (que em geral não vivem da música, mas a usam como expressão cultural) a divulgarem seus trabalhos, já que eles recebem cópias dos CDs. Em São Paulo, por exemplo, os artistas populares mapeados ganharam sites e contaram com a ajuda dos netos para administrar os conteúdos postados, envolvendo, assim, o núcleo familiar.
“As músicas são ricas em diversos aspectos. Algumas carregam uma complexidade melódica que não é qualquer pessoa que consegue executar, talvez nem grandes músicos, mas exprimem verdade e é isso que bate no coração das pessoas. São feitas do jeito que são, não querem agradar alguém ou atingir um mercado. A gente entrega os discos para que eles possam divulgar, são cerca de 250 para cada mestre, e eles vão se articulando. A gente fala sobre direitos autorais e sobre como funciona gravar um disco, e fica feliz quando eles se esforçam em continuar isso. Além disso, entregamos o áudio captado já masterizado, fotos e vídeos, caso eles queiram editar e produzir um álbum. Alguns melhoram a relação com a secretaria de cultura da cidade, vendem o trabalho em hotéis e supermercados. Fico muito realizado com tudo isso. É algo que faço por amor”, completa.
(Diário do Pará)
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