Poucos dias depois de concluída a apuração do Carnaval das escolas de samba e blocos carnavalescos de Belém, o assunto foi retomado nas redes sociais em tom de crítica. Fala-se até de Ação Civil Pública contra a organizadora da disputa, a Fundação Cultural do Município de Belém - Fumbel, que, na opinião de muitos, teria falhado na seleção de jurados, colocando pessoas sem qualificação nos quesitos sobre os quais foram encarregadas de julgar, resultando em notas divergentes do que pensam aqueles que realmente entendem de desfiles carnavalescos.
A Escola de Samba da Matinha recebeu nota 7,5 (em uma escala de 5 a 10) pelo seu samba-enredo “Mibaraió – A Encantadora Ilha do Marajó”, de autoria de Alcyr Guimarães e Ademir da Marcação, o que lhe rendeu cair do terceiro para o quinto lugar. Já a Embaixada de Samba do Império Pedreirense recebeu nota 7 pelo samba “A Coroa do Império no Batuque da Pedreira”, o que foi crucial para a saída da escola do grupo especial. Segundo divulgado no momento da apuração, o julgador a dar estas notas era o psicólogo Paulo Jorge Paiva Pereira.Para Alcyr Guimarães, o questionamento “não é história de perdedor ou choro”, já que este tipo de situação seria visto repetidamente na apuração em outros anos. “Já houve pianista julgando comissão de frente; este ano, quem julgou samba-enredo foi um psicólogo. Sem problemas, desde que ele tivesse algum conhecimento em relação à música também. Afinal, eu mesmo sou médico”, completa Alcyr.
A escola do compositor pretende entrar com ação pública contra a Fumbel. “Não vai mudar nota nenhuma, o regulamento diz que isso não pode acontecer e sabemos disso. Mas é uma falta de respeito comigo e com os outros compositores essa irresponsabilidade da organização. O que a gente quer é que a Fumbel veja com mais seriedade nosso Carnaval”, desabafa o compositor do samba da Matinha, com mais de 40 anos de samba no currículo.Antônio “Xaxá” Ferreira, compositor da Associação Carnavalesca Xodó da Nêga, concorda que as notas do quesito reivindicadas pela Matinha não foram adequadas à performance da escola na avenida. “Meu samba foi bem avaliado, não tenho do que reclamar quanto a isso, mas a nota que foi dada à Matinha realmente foi uma coisa que eu não esperava. Foi um dos melhores sambas na avenida, emocionou os outros compositores e por isso compartilho dessa indignação”, afirma Xaxá, que não é contra profissionais de outras áreas estarem no júri. “Mas é claro que seria melhor, no caso de uma escolha relacionada ao samba ou à bateria, que ele fosse um professor de música, por exemplo”, completa o músico, informando que, há alguns anos, a lista de jurados era inicialmente submetida às agremiações, para que se manifestassem se houvesse motivo para veto de algum nome.
Ademir do Cavaco, que este ano veio com dois sambas na avenida, afirma que este não é um problema apenas de Belém. Segundo ele, que passou dois anos na Viradouro, no Rio de Janeiro também acontece de outros profissionais serem convidados para a banca avaliadora. “Porém, lá eles fazem um curso durante dois meses antes do Carnaval, apenas se preparando para isso, o que eu duvido muito que aconteça em Belém”, comenta.Outra situação que chamou a atenção foi que um item obrigatório na ala das baianas, o uso de turbantes, não teria sido respeitado por toda a ala da Associação Cultural e Carnavalesca Império de Samba Quem São Eles, que não conseguiu confeccioná-los a tempo. Ainda assim, a escola recebeu nota 10. “Hoje você vê os jurados votando pelo nome da escola e não por regras previstas. Acredito que o primeiro lugar foi mais que merecido. O Rancho ou qualquer outra escola não são os culpados, e sim a Fumbel”, diz Alcyr, que postou um vídeo no dia seguinte à apuração, pedindo que o mesmo fato não se repetisse no próximo ano.
A reportagem do VOCÊ procurou a Fumbel em busca de esclarecimentos sobre as questões levantadas pelos artistas, mas até o fechamento da edição não obteve resposta. Também solicitou ao órgão o contato do jurado citado na reportagem ou acesso ao currículo dele que comprovasse alguma relação com o quesito por ele julgado, mas também não houve retorno.
(Diário do Pará)
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