Artistas do Brasil se uniram para manifestar apoio ao rapper André da Cruz Teixeira Leite, mais conhecido com Cert, integrante da banda de rap Cone Crew Diretoria, que foi preso no domingo passado após ter sido flagrado com quatro pés de maconha em sua casa. A banda, da qual é fundador, tinha um posicionamento claro e aberto sobre o assunto: era a favor da legalização do uso da maconha, de acordo com nota oficial publicada no perfil do grupo no Facebook.“Cone Crew Diretoria nunca escondeu seu posicionamento sobre a política de combate ao uso de drogas, sempre se colocando a favor da legalização do uso da maconha, assim como outras pessoas importantes da nossa sociedade também já o fizeram, dentre elas o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Nós repudiamos o tráfico de drogas, a ineficiente política de tratamento aos viciados e, principalmente, a prisão de usuários. Hoje, fomos vítima dessa lei antiga, estúpida e ineficaz, igual a quase todas as demais existentes no Brasil, onde ladrões, corruptos, traficantes e fora-da-lei de todas as espécies estão agora na praia e um dos nossos, detido acusado de cultivar maconha para uso pessoal.
O cantor não é traficante nem precisa disso para viver. É um trabalhador como vários outros pais de família que levam a vida de forma honesta e são apenas usuários. Cadeia nele vai resolver os problemas na nação? Nós vamos lutar até o fim para tirar o Cert dessa situação”, dizia a nota.
A discussão não é de hoje e as leis no Brasil abrem margem para interpretações diferentes sobre o que é tráfico e o que é consumo, mas uma coisa é certa: o assunto é tabu e há muitos usuários assumidos ou não espalhados por toda a sociedade. No universo artístico, vários apoiam a legalização.No Facebook, Marcelo D2, conhecido apoiador da causa, se manifestou sobre a prisão de Cert e contou um pouco da sua experiência, já que o discurso pró-Cannabis fez com que sua antiga banda Planet Hemp tivesse videoclipes censurados e ele ter ido parar atrás das grades. “Eu já fui preso por ‘apologia às drogas’. Luto desde sempre a favor da descriminalização e sei que existem milhões de famílias que sofrem com parentes viciados, mas o grande problema é como lidamos com tudo isso no nosso país. A questão não é se devemos ou não legalizar. Isso, por inúmeros fatores, já se mostra como o caminho. A questão é como lidar com a legalização, como tratamos nossos dependentes e usuários e que políticas aplicamos ao cultivo e ao consumo. Que inteligência policial é essa?! Que hipocrisia é essa, que em nome ‘da luta contra as drogas’ considera de forma ignorante e arbitrária um músico como traficante? Chega de falso moralismo! Quem trafica com quatro pés de planta em casa? Assim como eu, a mídia e o público sabem: o Cert é um artista, e não um traficante! Queremos a liberdade do Cert hoje”, disse D2, suscitando uma campanha nas redes sociais com a hastag #LiberdadeCert.Não foi só ele que se solidarizou com o rapper preso. A campanha tem até um vídeo no Youtube com depoimentos de vários artistas, como o parceiro de Cert, Maomé, da Cone Crew, Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, Tico Santa Cruz, Grupo Stat Rap, Otto, Jairo Baguá, Supla, Negueba, Melanina Carioca, Mr. Thug, Bonde da Stronda, Mr. Catra, Felp, Cacique Clandestino e outros pedindo que o artista seja solto e que a lei seja revista. “Quando o cara optou por plantar na casa dele, foi exatamente para não alimentar o tráfico de drogas”, argumenta Tico Santa Cruz no vídeo.
O assunto foi parar na Câmara dos Deputados em Brasília. O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) se posicionou logo na segunda-feira e defendeu que a política de drogas brasileiras precisa passar por mudanças.“É escandaloso que um cidadão que não trafica e faz uso apenas recreativo da maconha esteja, neste momento, atrás das grades como alguém perigoso à sociedade. Como ele, há outros tantos jazendo nas masmorras que são as nossas prisões - a maioria negra, pobre e sem acesso à justiça”, criticou o deputado.
Paraenses se manifestam a favor de CertO músico paraense Marcel Barreto não teve contato pessoal com o rapper Cert, mas, quando morou no Rio de Janeiro entre 2011 e 2012, acompanhou e viveu a cena artística local e o conhecia de alguns eventos.“Eles lançaram o primeiro álbum em março de 2011 e no meio foi muito comentado, pois contava com a participação de artistas famosos da causa da legalização da maconha, como Marcelo D2 e Shawlin”, relembra Barreto.O músico considera importante que os artistas discutam a causa para trazer o tema à tona e até, em alguns casos, assumir sua relação pessoal direta com ela. “Todos os artistas que abrem essa discussão ainda polêmica não o fazem por puro prazer e recreação. O fato de um artista que vive de música fazer a junção de sobrevivência e criação usando como base algo que pratica, e do qual conhece os prós e contras, é algo que se deve levar em consideração”, pontua. Todos que, em algum momento, tiveram contato com a causa são unânimes no argumento de que, em toda a história da humanidade, sempre houve relação com as substâncias psicoativas. Há relatos muito longínquos de consumo de bebidas fermentadas, consumo de cogumelos “mágicos” e outras substâncias em diversos períodos da história.“O álcool, por ser mais frequente nos locais frios, foi visto com mais naturalidade pelo povo dominante do mundo, os caucasianos.
A planta de clima árido e desértico vem de locais de culturas que foram dominadas, como Índia, Afeganistão, Paquistão, Marrocos e, em um segundo momento, disseminada entre os povos negros e hispânicos. Esse é o real motivo da criminalização da Cannabis. Mais uma forma de dominação de um povo sobre o outro”, lamenta. Marcha da Maconha em Belém vem com tudoEm Belém, na última quinta-feira, 26, o movimento da cidade que luta pela legalização do consumo da Cannabis e que organiza a Marcha da Maconha em Belém se reuniu na Universidade Federal do Pará (UFPA) para debater a temática, organizar as pautas do ano e, claro, compartilhar da solidariedade ao rapper.“O movimento no Brasil inteiro não concorda com a forma injusta que o rapper foi preso e isso só reforça o quanto temos que discutir a política de drogas nesse país. Em 2013, tivemos uma pequena marcha, mas as pessoas que participaram foram reprimidas pela polícia e até presas, então isso dificulta ainda mais a articulação e reunião com pessoas que se interessam pelo assunto. Mas a gente resiste e faz as reuniões para conversar e ver vídeos sobre o tema. Uma vez até conseguimos trazer um policial militar para uma dessas conversas”, explica Elis Tarsila, uma das organizadoras da Marcha da Maconha em Belém.Segundo estudo publicado em 2012 pela Universidade Federal de São Paulo, mais de 1,5 milhão de brasileiros faz uso de maconha diariamente, porém muita gente tem medo de se assumir com medo da criminalização e do preconceito.“Alguns adolescentes começam a beber com menos de 15 anos, muitos acompanhados pelos pais, e todos acham completamente normal. O que falta é informação, dados reais do que acontece e medidas estatais que mudem este paradigma”, pontua Marcel Barreto, revelando que não vê problema em usar maconha em locais de consumo permitido, como em Amsterdã, na Holanda, mas tem suas reservas de fazer isso no Brasil, já que é necessário seguir as leis morais da sociedade. “O Cert é um artista, uma pessoa produtiva, é justo que ele seja enquadrado como traficante? Não, é uma conduta preconceituosa e estigmatizante que diminui o ser humano”, avalia Barreto. “Ele é rapper, é músico e foi preso por ter quatro mudas em casa.
O preconceito é tão grande que ultrapassa a barreira da periferia, historicamente já criminalizada por um monte de coisas. A maconha sempre existiu e vai continuar existindo. O que temos que ter é esse espaço para descobrir como fazer para que ela seja legalizada no Brasil”, provoca Elis Tarsila.“Procurar o traficante é a porta de entrada para drogas químicas, porque ele mesmo mistura a maconha com outras substâncias e visa te vender outras coisas. Se a maconha fosse legalizada, teríamos o controle de qualidade sobre isso ou poderíamos plantar em casa”, argumenta Flávia Câmara, outra organizadora do movimento em Belém. Nem os grandes escapam do cercoEm outubro do ano passado, Mr. Catra foi parado em uma blitz policial no bairro do Tatuapé, em São Paulo, e acabou detido pelos guardas.
Segundo a imprensa, os policiais teriam encontrado uma pequena quantidade de maconha no veículo em que o funkeiro estava. Por causa disso, o cantor foi parar na delegacia, onde recebeu um registro de infração de menor potencial ofensivo, ou seja, crime de menor relevância. Depois de alguns procedimentos, ele foi liberado, mas outros artistas também já tiveram problemas com a polícia pelo uso da Cannabis. Nem grandes nomes da música no mundo escaparam. Em 18 de outubro de 1968, a polícia antidroga invadiu o apartamento do casal John Lennon e Yoko Ono em Londres e prendeu os dois por porte de drogas. Foram encontrados 200 gramas de haxixe, uma máquina de enrolar cigarros com traços de maconha e meio grama de morfina. Louis Armstrong, um dos maiores expoentes do jazz, também usava maconha regularmente, fato comprovado em sua biografia, e, em 1931, ele foi preso por posse de maconha. David Bowie também está na lista dos que sofreram penalidades por posse de maconha. O músico foi preso em 1976 e teria que cumprir pena máxima, que seria de 15 anos, mas as acusações foram posteriormente retiradas e Bowie, liberado.Adam Clayton, baixista da banda irlandesa U2, foi alvo de manchetes em agosto de 1989 em Dublin, na Irlanda, quando foi preso por carregar uma pequena quantidade de maconha.
(Diário do Pará)
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