Falar de quilombos não é apenas fazer alusão a um período colonial distante no tempo. Os quilombos ainda existem e persistem perto de nós, e buscam força para manter sua resistência cultural pulsante, que em um determinado momento da história fundiu heranças negras e ribeirinhas amazônicas, criando uma face única que só encontramos por aqui.
A zona rural do Acará, no nordeste paraense, até hoje apresenta forte presença cultural daquele início de sua formação, quando era tomada por fazendas de cana-de-açúcar, depois arrendadas dos descendentes de senhores de engenho pelos antigos escravos. Adentrar neste universo foi o que fez o documentário “Nós Quilombolas da Amazônia”, vídeo que é resultado das oficinas de música e audiovisual realizadas nas comunidades quilombolas de Guajará-Miri e Itacoã, no Baixo Acará. A produção será lançada hoje, às 19h, dentro da mostra “Banquete Brasil África”, em cartaz no Centro Cultural do Carmo.
Ao som de cantigas tradicionais do Boi Resolvido, de Guajará-Miri, o documentário traz o olhar das próprias comunidades sobre suas manifestações culturais – “uma das necessidades apontadas pelos seus moradores”, segundo Waderson Lobato, coordenador de oficinas e diretor de produção do projeto.
“Em conversas na comunidade percebemos que havia essa vontade deles de ouvir os moradores de lá contando suas histórias, suas lembranças, memórias. É isso que acho importante no projeto, que essas histórias sejam ouvidas, porque também é a nossa história, a nossa cultura, mas que hoje não tem espaço e pouco é valorizada”, defende.
As oficinas de audiovisual, música e literatura, cultura digital e elaboração de projetos culturais foram ofertadas a mais de 70 alunos, com idades entre 10 e 60 anos, que não seguiram roteiros pré-estabelecidos e tiveram total liberdade de pesquisa e produção.
“Todos os dias tinha uma novidade, um personagem que achavam interessante, uma roça que tinham que filmar, uma farinha para queimar e coisas assim, cotidianas, quebrando um pouco a métrica da construção tradicional de um roteiro de documentário”, explica Gilberto Mendonça, responsável pela oficina de Mídias Móveis.
O projeto foi o único premiado na região amazônica pelo “III Ideias Criativas Alusivo ao Dia Nacional da Consciência Negra”, da Fundação Cultural Palmares, entidade vinculada ao Ministério da Cultura (MinC) e que tem o objetivo principal de fortalecer a cultura afrobrasileira.
“É uma política do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e do MinC a participação nos processos de valorização e difusão do patrimônio cultural brasileiro. A premissa básica é a participação direta dos detentores. As ações do projeto ‘Nós Quilombolas da Amazônia’ contribuem para o empoderamento e protagonismo na afirmação de identidades e no fortalecimento das políticas públicas voltadas para essa cultura tradicional de todo o país, principalmente na Amazônia, uma região geográfica distante dos polos de decisão nacionais”, ressalta Cyro Lins, antropólogo e técnico da área de patrimônio imaterial do Iphan.
(Diário do Pará)
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