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Crescem na cidade as Batalhas de MCs

Pouca gente imaginaria que Belém teria uma cena de hip hop tão aquecida quanto a que envolve a cidade neste momento. O estilo sempre teve adeptos por aqui, mas agora há batalhas de MCs espalhadas por diversos bairros da cidade em vários dias da semana. E

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Pouca gente imaginaria que Belém teria uma cena de hip hop tão aquecida quanto a que envolve a cidade neste momento. O estilo sempre teve adeptos por aqui, mas agora há batalhas de MCs espalhadas por diversos bairros da cidade em vários dias da semana.

E pensar que tudo começou com despretensiosas rodas de rima em uma pista de skate na avenida Duque de Caxias, que nem existe mais. Os encontros acontecem em São Brás todos os sábados; na praça Dorothy Stang, na avenida Júlio César, às sextas; na Marambaia dia de quinta-feira, sem falar do curso de rimas para MCs que rola em São Brás, e já existem batalhas até no interior do Estado, tudo para que os nossos guerreiros das ideias possam aprimorar seus talentos como rimadores, conhecendo mais o movimento e fortalecendo a cena cultural da cidade.

“Se fôssemos fazer um levantamento histórico, diria que tudo começou nas rodas que fazíamos na antiga pista de skate da Duque. Foi lá também que surgiu a banda Tiroteio de Rima, que, além de músicas autorais, promovia essas rodas e mandava rimas ‘free style’ nos shows. De certa forma, as batalhas nasceram ali. Depois uma entidade de hip hop, a NRT – Nação da Resistência Periférica – começou a promover batalhas no baile ‘RevoluSom’. Foi lá que eu e outros MCs começamos. Os mutirões de grafite, como os do Tapanã, passaram a ocupar a cidade e aí surgiu a galera dos Cronistas da Rua e nos eventos que eles promovem também acontecem algumas rodas. Foi a Rima de Rua, que acontecia na Praça da República, aos domingos, que deu origem à Batalha de São Brás, que começou em 2013 e se repete desde então todos os sábados à noite”, relembra o MC Bruno BO.

Ele relembra também que, em 2011, o grupo Família de Rua, de Belo Horizonte, um dos mais importantes do país e que organiza o duelo nacionais de MCs, fez um projeto de circulação que passou por Belém.

“A partir dessa vinda deles, a questão das batalhas ficou mais organizada por aqui. Fizemos uma eliminatória regional e enviamos um representante para o duelo nacional, e ele ficou entre os quatro melhores do país. Eu toquei no evento e lá selamos uma parceria onde a Batalha da Floresta seria uma representante da Família de Rua em Belém, no intuito de selecionar quem participaria das batalhas nacionais”, completa.

Foi assim, batalha a batalha, que os MCs daqui começaram a ganhar respeito fora.

Difundir o rap na cidade e o modo como se fazem rimas improvisadas, além de repassar mensagens críticas que levem o ser humano a refletir com mais profundidade sobre os assuntos abordados pela sociedade atual, é como Everton Oliveira, 23 anos, organizador da Batalha de São Brás, define o objetivo do evento. “Na primeira batalha, em junho de 2013, reunimos cerca de oito pessoas; hoje são cerca de 200 por sábado”, comemora.

E não vale pensar que este é um movimento típico da cultura urbana de grandes metrópoles. A cultura que se solidifica na capital vem se espraiando para o interior do Estado com a mesma força. Para Douglas Batista, ou MC Raed, 21 anos, o sentimento que o move para promover a “Marababatalha” quinzenalmente aos sábados, na orla da cidade de Marabá, é paixão.

“As batalhas acontecem aqui desde o ano passado. Antes não tínhamos cenário de hip hop em Marabá, mas, com a chegada de parceiros, a gente foi aos poucos organizando a cena. Quando a Batalha da Floresta veio até aqui, a galera pôde conhecer melhor a cena e se interessou mais”, explica Douglas, antecipando que a cidade pretende enviar um representante para a batalha nacional deste ano. “Temos MCs competentes que vão dar trabalho por lá”, avisa.

A mais novinha das batalhas de Belém é promovida por MCs bem jovens também. Antônio Moisés, 18, Arlan Trindade, 18, e Felipe Solano, 15, são os organizadores da Batalha da Euclides, que acontece todas as quintas-feiras no bairro da Marambaia. Com menos de um mês, o evento já reúne um bom número de jovens interessados.

“A nossa batalha trouxe a cultura hip hop para o nosso bairro. Ficamos felizes, porque sabemos que ainda existe gente que vê o rap e a cultura hip hop como algo ruim e, aos poucos, as próprias pessoas do bairro estão vendo que não é nada disso. Apenas fazemos música e difundimos boas ideias”, diz Moisés.

A Batalha da Floresta é a única que não tem dia nem local fixo e circula pela cidade reunindo os MCs para que possam ter experiência de uma competição com mais estrutura. “Fazemos edições especiais ou eliminatórias. É uma oportunidade dos garotos que frequentam as batalhas durante a semana fazerem rimas com um som legal, palco, enfim, experiência de competição. É uma preparação para a carreira artística, tem que aprender a lidar com o público e a lidar com rejeição e aceitação”, descreve BO.

“Esteticamente, o rap e funk estão em alta e os ritmos tomaram conta dessa geração mais nova. A galera se encantou por essa vida alternativa de andar de skate e se encontrou no hip hop. Claro que a possibilidade de batalhar em âmbito nacional atrai mais as pessoas, cria uma meta, mas não deixa de ser oportunidade de lazer para as comunidades, coisa que o poder público pouco proporciona. Sem contar que é também uma forma de ocupação dos espaços públicos”, pontua o MC.

Batalha na dança

O caldo da cena de hip hop paraense engrossa nesse domingo, quando começa a seletiva de dança promovida pelo Movimento Hip Hop Organizado do Pará (MHOP), que vai reunir jovens de Belém e de outros municípios.

Quem ganhar a disputa vai participar de uma pré-seleção em Macapá, que indicará representantes para a disputa regional do Red Bull Bc One na Bahia. “Os dançarinos se preparam para este momento.

Eles conhecem muito bem a dança e sua metodologia, são pessoas que estudam e vivem disso. Não é dançar por dançar, é uma filosofia de vida. Alguns dos nossos dançarinos já passaram pela Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará, o que ajuda a difundir a cultura e a mostrar que a dança de rua é tão importante quanto o balé e outras danças”, diz Marcos Hayden, produtor da seletiva que acontece hoje em Belém.

A pré-seleção aconteceu ontem, no Mercado de São Brás, reunindo 16 municípios inscritos. “O concurso é mais do que apenas dança, promovemos educação patrimonial ocupando espaços públicos e fazendo com que a população pobre faça o que mais gosta, que é arte”, completa Marcos.

Elas também têm vez

E tem mulher neste grupo. A batalha Dorothy Stang há um ano é organizada por MC Talita Brooklin, ao lado de MC Jambex, e ela não está só no movimento. Quem vasculha o Facebook em busca de informações sobre as batalhas de MCs que estão acontecendo na cidade vai sempre ver nas imagens a MC Talita.

Em um meio onde predominam meninos, ela se destaca e mostra que manda bem nas rimas. No ano passado, ela chegou às finais de uma seletiva para eleger o representante paraense na batalha nacional, e este ano quer fazer bonito novamente.

“A batalha é muito uma coisa de como está teu psicológico, teu astral, tua energia naquele dia. É desenvolver uma ideia que passe informação. Eu treino mandando ‘free style’ todo dia nas ruas”, diz a MC, que também se prepara lendo livros, assistindo a filmes e centrando seus esforços em produzir rimas de protesto.

“É preciso ler bastante, senão a rima fica pobre e o conteúdo, pequeno. Sempre quero fazer rimas contra o sistema e mandar um protesto ressaltando as desigualdades que estão na nossa sociedade. A superação não é no adversário, não adianta tentar desbancar a ideia dele. O que você tem que fazer é evoluir na mente e mandar ideias melhores”, completa a MC, que se inspira em MC Negra Rê, do Rio de Janeiro, uma das pioneiras.

LEIA MAIS:

Que comecem as rimas

(Diário do Pará)

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