Na exposição, as obras se apresentam não só da forma tradicional, mas mostrando o diálogo desses artistas com outras artes, como vídeo e literatura. “Queríamos uma exposição que não estivesse só na parede. É como se cada obra fosse um livro se abrindo. Assim, mostramos essa fotografia como processo, para fugir um pouco da visão de uma fotografia que se acomoda dentro de uma bela imagem”, explica Mariano Klautau Filho.
O trabalho do paraense Ionaldo Rodrigues representa bem isso, ao mostrar sua coleção dos restos de uma cidade: pedaços de coisas, fragmentos de paisagem urbana, lixo. Trata-se de um arquivo em processo que oscila entre a bela imagem de uma cidade feia e uma catalogação extensa de signos sem história.
“Ionaldo vem fazendo há muitos anos um trabalho de recolher imagens de restos da cidade. Mostra uma Belém cheia de coisas no meio da rua e até paisagens que estão se desconfigurando, tudo meio melancólico. Estamos apresentando essas fotografias dele na parede e, além disso, há um conjunto de 30 imagens pequenas para que o espectador tenha a sensação de que está no atelier, escolhendo as fotos, como se estivesse entrando no arquivo do artista”, descreve Mariano.
Octávio Cardoso também aparece na exposição com a série “Lugares Imaginários”. Nela, segundo o curador, o artista constrói paisagens de um silêncio quase absoluto, que só é possível porque se mostram como exercícios de escrita intimista cujas referências se encontram em outras instâncias da linguagem e das imagens mentais.
“Nos coloca dentro de um ambiente no limite (des)confortante entre a natureza e a cidade. Uma ‘Amazônia’ vista da cama, da praia ou do avião”, detalha Mariano.
“Essa série é um primeiro trabalho em cor que eu fiz e está toda baseada em alteração da cor natural através de manipulação na câmera. Meu objetivo foi criar esse lugares ou ambientes dissociados do real. Altero a cor para dar menos referências reais, uma maneira de criar outro lugar, um lugar idealizado, idílico”, completa Octavio Cardoso.
Luiz Braga participa da exposição com um vídeo que remonta em sons as imagens de um único filme fotográfico sobre a novena de uma vizinha e fotos que, segundo o curador, são de quem perde uma cidade inteira intuída nos objetos funcionais e decorativos que, sob a luz morna e quente, nos envolvem em um romantismo quase lúcido. Já a artista Walda Marques integra a parte literária da exposição, trazendo livros e estudos dos fotógrafos, com sua obra “Lembranças”, e também com a instalação
“A Encomenda”, em que ocupa o espaço do armário e da varanda do sobrado com um ambiente de estúdio antigo.
“Um poema de Cecília Meireles é o motivador da instalação, feita com fotos de florestas ao fundo. As pessoas que visitam a exposição podem se fotografar no local e eu vou receber essas imagens. Quem sabe daí não virão outras propostas?!”, instiga Walda.
Mariano Klautau está muito feliz com o convite para a “5º Festival de Fotografia de Tiradentes” e destaca seu trabalho à frente do Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia como parte importante deste intercâmbio.
“Por conta da minha relação com o Prêmio Diário e do meu trabalho de pesquisa, tenho feito contato com artistas do Brasil todo, o que ajudou a pensar a fotografia de uma forma mais expandida, inclusive mostrando o trabalho desses artistas articulados com outras linguagens como vídeo e literatura”, conclui o curador.
(Diário do Pará)
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