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Bailarinos trazem pesquisa cênica a Belém

Os dois têm nomes conhecidos da dança em Belém, mas há muito estão longe dos palcos daqui. Ricardo Risuenho, superpremiado coreógrafo, há muito pegou a estrada para Manaus, para viver da Medicina e do sonho realizado de montar sua companhia de dança por l

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Os dois têm nomes conhecidos da dança em Belém, mas há muito estão longe dos palcos daqui. Ricardo Risuenho, superpremiado coreógrafo, há muito pegou a estrada para Manaus, para viver da Medicina e do sonho realizado de montar sua companhia de dança por lá.

Anna Raphaela saiu daqui para viver em Bragança (chegou a ser maruja da Marujada!), passou por Tucuruí e de lá rumou para Manaus, em busca de um recomeço ao lado do velho parceiro.

No novo projeto, eles são a Cia de Intérpretes Independentes, que chega a Belém para duas apresentações, hoje e amanhã. Em turnê que inclui Campinas (SP) e Belo Horizonte (MG), as sessões em Belém acontecem no Curro Velho e no Teatro Waldemar Henrique.

O espetáculo chega por aqui por meio do Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2013 e é resultado de mais de dez anos de investigações do encenador e médico Ricardo Risuenho, que também atua em cena.

Na trama, dois personagens (interpretados por ele e Anna Raphaela) são envoltos por uma rede de pesca, metáfora cênica para uma rede de lembranças na qual projetam memórias corporais ao mesmo tempo particulares e universais num ambiente de suspensão e sonho.

“Fazer algo a partir da memória já era uma ideia antiga, de tentar entender a importância que isso tem para o ser humano”, conta Ricardo Risuenho.

A companhia tem no currículo 13 montagens, mas em 2011, quando passava por um momento de estagnação, Risuenho procurou a amiga e parceira bailarina, com quem já havia trabalhado dez anos antes, com a proposta de fazer um espetáculo em alguns municípios do Pará, entre eles Tucuruí, onde ela residia na época.

A partir de uma página criada no Facebook, foram recolhidas diversas histórias que serviram de ponto de partida para a pesquisa, iniciada com significados do que é ser paraense e, de modo mais abrangente, dos fios da memória que compõem identidades e conectam as pessoas. Com o espetáculo ganhando força, a bailarina se mudou para Manaus, onde a produção se consolidou.

Com forte pesquisa na dança contemporânea, a companhia não trabalha com coreografia, pois o termo não abarca a extensão das experimentações que incluem muita pesquisa corporal e estética. “Trabalho com texto de movimento, que facilita o discurso da cena”, explica Risuenho.

Durante a concepção do trabalho, Ricardo Risuenho buscava algo que pudesse dar a estética desejada à produção. A obra do fotógrafo tcheco Jan Saudek, já conhecida pelo diretor, possibilitou uma importante inspiração criativa.

“O Saudek possui um discurso fantástico, que não é erótico, nem violento, nem poético, mas que traz tudo isso de forma poderosa”, aponta Risuenho sobre as imagens do fotógrafo que sobreviveu a campos de concentração nazistas (o nazismo e a guerra, aliás, são referências de outros espetáculos de Risuenho, como “Réquiem”).

Ele mesmo assina a cenografia junto a Nelson Magli, utilizando elementos como uma falsa janela e uma torre de luz que serve como câmera fotográfica.

Nesse ambiente, tudo serve de estímulo a recordações que são dos outros, mas que também são de todos. Afinal, a ideia é que o espetáculo, em algum momento, toque a cada um da sua maneira.

“É muito gratificante ver como as pessoas compreendem isso a partir da ancoragem de suas próprias vidas, transpondo isso para o entendimento de cada um. Ao fim das sessões, alguns chegam e conceituam aquilo a partir de leituras, outros simplesmente gesticulam sobre o impacto do que presenciaram e sentiram”, diz.

A montagem de “A Vida Começa pela Memória” - que já fez mais de 30 apresentações - representou uma mudança drástica na companhia e também marcou a retomada de Ricardo Risuenho à cena da dança contemporânea. Hoje a Cia de Intérpretes Independentes possui uma sede em Manaus, local que serve tanto de espaço de pesquisa quanto de encenação dos espetáculos.

INVESTIGAÇÃO

Assim como ocorrereu na turnê por Campinas (Unicamp) e Belo Horizonte (UFMG), a apresentação em Belém contará com programação de palestra, mesa-redonda e atividades direcionadas com intuito de debater a técnica e o processo de criação do espetáculo.

Encenador e médico, Ricardo Risuenho desenvolve há nove anos um estudo baseado na biomecânica dos membros superiores utilizando os conceitos da Cinesiologia.

“Trabalho há 15 anos como médico. Não consigo desvincular as duas coisas. Sou médico pelo artista que sou e vice-versa. Todo conhecimento anatômico e fisiológico eu levo para dentro da dança”, conta Risuenho, que também já foi professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

A pesquisa dos membros superiores tornou-se um padrão e referência da Cia de Intérpretes Independentes. “Nós sempre buscamos compreender e conceituar o que fazemos em quanto movimento”, diz, mostrando que, em suas criações, um movimento nunca será um simples movimento.

DANÇA

“A Vida Começa pela Memória”, da Cia de Intérpretes Independentes, de Manaus

Quando: Hoje, às 18h

Onde: Curro Velho (Rua Professor Nelson Ribeiro, 287, Telégrafo)

Quando: Amanhã, às 20h

Onde: Teatro Waldemar Henrique (Praça da República)

Quanto: Entrada gratuita

(Diário do Pará)

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