Um beijo que durou apenas 15 segundos (incluindo o abraço final) bastou para levantar novamente à discussão do que deve ser exibido na TV.
No primeiro capítulo da novela "Babilônia", da TV Globo, as personagens das atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg surpreenderam o público com um beijo. Sem aviso e sem a expectativa como outras cenas entre personagens gays nas novelas.
Bastou isso para que muita gente pedisse boicote à trama de Gilberto Braga. Na quinta-feira (19), a Frente Parlamentar Evangélica divulgou uma nota de repúdio, assinada pelo deputado João Campos (PSDB-GO), acusando a novela de trazer "de forma impositiva, para quase toda a sociedade brasileira, o modismo denominado por eles de 'outra forma de amar', contrariando nossos costumes, usos e tradições".
O deputado Marco Feliciano (PSC-SP) também pediu boicote a uma marca de produtos de beleza que patrocina a novela.
Não se sabe se é por causa do boicote do público, mas a novela, que estreou com 33 pontos, viu a audiência cair para 25 ao final da primeira semana de exibição, segundo dados do Ibope.
Até o SBT vem explorando a rejeição à trama lésbica na Globo e lançou o slogan "novela pra família é aqui". A audiência, segundo o Ibope, cresceu ao longo da semana.
SBT entrou na polêmica com uma campanha avisando que novela para a família era no canal de Silvio Santos (Foto: reprodução)
A empresária Marialba Leão foi uma das que parou de assistir à novela. “Respeito as pessoas homossexuais, não tenho nada contra, mas é uma coisa que vai contra os nossos princípios”, explica.
Segundo ela, a intimidade dos casais, gays e héteros, não precisa ser exibido na televisão. “Tenho quatro netos, um deles de nove anos, como vou explicar para eles essas cenas? Isso pode cultivar esses sentimentos nas crianças”, acredita.
Questionada se a televisão não teria o papel de levantar o debate de questões como a homossexualidade em casa, ela diz que não. “Não é papel nem da escola. Assim estaríamos oficializando o assunto”.
ACENDER O DEBATE
Em tempos em que se discute o Estatuto da Família, no Senado, o blogueiro e crítico de TV Fa Marianno afirma ser de extrema valia apresentar ao público essas novas famílias, como o casal gay maduro de “Babilônia” e a família de irmãos gerados por inseminação, em “Sete Vidas”.
“É muito importante mostrar que um casal homossexual tem a mesma capacidade e qualidade de criar ou adotar uma criança, assim como a ela, lhe é dado amor e carinho, que são primordiais para uma base familiar sólida. Estela e Teresa são parceiras, tem uma relação de 35 anos e criaram um jovem e belo rapaz (personagem de Chay Suede), saudável, que, ao contrário do pensamento ignorante (desconhecimento), "não se transformou em homossexual"”, ressalta.
Na opinião dele, o fato de “Babilônia” apresentar um casal maduro causou impacto e incômodo em parte do público. “É de suma importância que os meios de comunicação, seja através da teledramaturgia ou do jornalismo, coloquem e mostrem casos como esses. Assim, a sociedade absorve mais informação, passa a ficar mais esclarecida e venha a aceitar os novos modelos de família”.
O PAPEL DA TELEVISÃO
Para a pedagoga Eliana Gomes, a televisão não possui o papel de educar. “Mas é relevante em mostrar realidades e assuntos que podem e devem ser discutidos durante o jantar em família”, diz. “A família e a escola podem formar um cidadão mais crítico e consciente após o debate de um assunto que é apresentado na televisão”.
Já o Ministério da Justiça diz que o beijo entre pessoas do mesmo sexo não constitui qualquer inadequação para a classificação indicativa. “O chamado "beijo gay" ainda é um tabu para muitos brasileiros e um tema delicado para emissoras e produtoras. Portanto, assim como um "beijo hetero" não é classificado, um beijo entre dois homens ou duas mulheres também não é”.
(Antonio Santos/DOL)
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