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Um francês com alma bem brasileira

O parisiense Nicola Són conheceu a música brasileira quando ouviu “Lígia”, de Tom Jobim, interpretada por João Gilberto e Stan Getz. Mas foi quando ouviu as músicas de Jorge Ben Jor que se apaixonou definitivamente pela sonoridade brasileira e resolveu f

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O parisiense Nicola Són conheceu a música brasileira quando ouviu “Lígia”, de Tom Jobim, interpretada por João Gilberto e Stan Getz.

Mas foi quando ouviu as músicas de Jorge Ben Jor que se apaixonou definitivamente pela sonoridade brasileira e resolveu fazer dela parte de sua vida.

“Eu sempre digo que Tom Jobim foi a primeira música brasileira que ouvi, mas, lembrando bem, deve ter sido a lambada nos anos 1980, 1990, que não só eu, mas o mundo inteiro ouviu. Realmente a Bossa Nova me tocou muito, mas foi só a primeira que descobri. O que me interessou mesmo foram outros ritmos, que têm influência da música black, como o samba soul de Jorge Ben e Tony Tornado nos anos 1970. A partir daí, fui buscando outras coisas de groove e funk”, revela o músico, que amou tanto o Brasil que resolveu vir conhecê-lo e fazer da nossa música o seu trabalho.

Nicola passou por Manaus, Belém, Fortaleza e Recife. Foi nessa viagem que ele descobriu a riqueza do país, hospitalidade e cordialidade do povo brasileiro, mas também se deparou com as dificuldades da vida no Brasil longe dos clichês dos cartões postais.

O lugar escolhido para viver foi a Lapa, no Rio de Janeiro, símbolo da boemia carioca e berço do samba. No bairro, Nicola encontra muitos músicos, compõe e adapta em francês clássicos da MPB. Assim nasceu seu primeiro álbum, “Parioca”, lançado em julho de 2011 no Brasil.

“Em 2003, quando passei seis meses no Brasil, fiquei no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas passei cinco semanas em viagem pelo Norte e Nordeste.

Cheguei a Manaus e peguei um barco para chegar a Belém, onde fiquei cinco dias hospedado na casa de uma família na periferia, no bairro da Cabanagem. Adorei a cidade, o mercado de frutas. Conheci o carimbó, escutei Pinduca e gostei porque prefiro as coisas mais antigas da música, o que é da raiz tradicional brasileira”, diz o cantor, que sempre procura misturar ritmos brasileiros às suas criações.

Se no primeiro trabalho Nicola explorou a música do Rio de Janeiro, no segundo ele apostou nos ritmos do Nordeste. “Nord Destin” foi lançado em janeiro de 2013 na França com a presença do lendário João Donato ao piano e o grupo de samba Casuarina para participações especiais.

O álbum lembra os sons de suas viagens e as experiências de composições do “Parioca”, mas se destaca pelo uso da grande variedade de ritmos nordestinos como a ciranda, maracatu, frevo, xote e afro-samba, quase sempre associados à língua francesa, com a presença de instrumentos como a rabeca, o acordeom e o berimbau.

O terceiro álbum já está sendo produzido e também privilegia a cultura brasileira, dessa vez utilizando como referências da música feita na cidade de São Paulo, lugar onde ele atualmente reside.

“O ‘Nord Destin’ é a segunda etapa de um trabalho mais geral sobre a música brasileira. Quero criar meus trabalhos em ciclos de trilogias. Primeiro trabalhei o samba misturado com a música da França, depois os ritmos nordestinos com a França e agora vou reverenciar a cultura de São Paulo, suas misturas que são a síntese de som moderno e urbano, que se incorpora e se integra ao mundo de hoje”, explica Nicola, que pretende lançar o álbum até o fim do ano que vem, com a perspectiva de expandir seus horizontes além do eixo Sul e Sudeste.

“Os brasileiros gostam do estrangeiro e gostam ainda mais de estrangeiro que se interessa pela cultura brasileira. Por isso sou muito bem recebido. Ser francês me dá mais uma vantagem porque nossa cultura é muito respeitada aqui e está sempre associada a uma coisa chique, de uma língua que as pessoas admiram. Espero ampliar meus horizontes musicais e adoraria me apresentar em Belém. Estou em contato com um grande produtor em São Paulo e espero que agora eu possa mostrar meu trabalho no Nordeste também, afinal foram os muitos carnavais que passei em Olinda que me deram referência para o meu trabalho”, completa Nicola.

Sobre a aceitação do seu trabalho no seu próprio país, o cantor é enfático em dizer que isso soa como uma grande novidade, mas ele aceita o desafio de propor algo novo.

“Na França, o público é um pouco mais difícil, porque os franceses ainda estão mais ligados na música inglesa e americana. É um país em que os cantores se inspiram em rock ou pop. Quem se interessa pela música brasileira, em geral, vai preferir ouvir a música cantada e feita pelos próprios brasileiros, e quem quer ouvir a música tradicional francesa não recebe bem essas misturas, então é um público muito específico, mas acho importante dar o passo e mudar um pouco essa predominância da cultura inglesa pop americana e propor outra forma de fazer a canção francesa”, acrescenta.

(Diário do Pará)

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