O Titanic foi engolido pelas águas do Atlântico em abril de 1912, e o culpado pela tragédia foi... Guglielmo Marconi. O inventor do rádio.
OK, é exagero atribuir a morte de mais de 1,5 mil passageiros ao engenheiro italiano. Mas o desastre poderia ter sido evitado se os aparelhos instalados pela empresa de Marconi no transatlântico tivessem sido usados direito.
Ocorre que os operadores de rádio do Titanic, funcionários do inventor, eram muito bem pagos para transmitir mensagens aos passageiros da primeira classe. Enquanto faziam isso, chegaram a receber diversos alertas de iceberg, mas não se deram ao trabalho de avisar a tripulação, o que levaria o navio a se esborrachar contra uma dessas montanhas de gelo.
A história, relatada pelo escritor britânico Eric Chaline no livro “50 Máquinas que Mudaram o Rumo da História”, exemplifica à perfeição um dos temas da obra: grandes inventos não são apenas o fruto do trabalho de gênios descabelados trabalhando em porões. Em geral, eles nascem e se consolidam graças a forças econômicas e sociais de grande escala - embora também ajudem a moldá-las.
Tanto é assim que, embora seja conveniente simplificar a história e apelidar Marconi de “inventor do rádio”, o livro também deixa claro que até as engenhocas mais icônicas nasceram de um processo cumulativo, envolvendo muita tentativa e erro e pequenos avanços incrementais. A paternidade única, portanto, é uma ilusão.
Além disso, nem sempre a máquina mais eficiente é a que “pega”. É nesse ponto que entram fatores econômicos, ou mesmo a habilidade de cada inventor como marqueteiro e empresário.
Um exemplo envolve a música. Os discos se tornaram o meio predileto para a reprodução de canções durante a maior parte do século 20 por causa da facilidade de armazenamento e distribuição.
Essa preocupação com a viabilidade comercial e o impacto social de cada máquina também explica outra opção interessante de Chaline: ele raramente destaca o primeiro exemplar de cada tipo de tecnologia, mas sim o primeiro a ser produzido em massa.
Assim, em vez de falar dos primeiros celulares, que pesavam 1Kg e ficavam sem bateria após meia hora de uso, a estrela é o StarTAC, lançado em 1996 “pequeno, leve, o smartphone de sua época”.
O formato de almanaque, com verbetes, fotos e infográficos, dificulta um pouco o olhar de conjunto sobre a evolução das máquinas e a percepção das tendências. Basta uma leitura um pouco mais atenta, porém, para captá-las.
(Folhapress)
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