“Foram muitos os grandes momentos que vivi no Theatro da Paz, desde que cheguei a Belém, com 16 anos de idade, e o conheci. Ele é um templo da arte e o que mais me impressiona ao entrar ali é essa nobreza, essa coisa imponente que ele tem e que não faz feio em qualquer lugar do mundo. Em Londres ou América do Norte, em qualquer lugar, ele sempre seria visto como nobre”, diz o violonista e compositor santareno Sebastião Tapajós.
Essa mesma beleza, a imponência e a importância para a história de tantas pessoas são notadas e reconhecidas muito além de terras paraenses. O Theatro da Paz acaba de ser incluído pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) na Lista Indicativa Brasileira do Patrimônio Mundial, em 2015. A partir desta seleção, ele pode futuramente ser apresentado ao Comitê do Patrimônio Mundial para ser avaliado e receber o título de Patrimônio Mundial.
A entrada do Theatro da Paz na lista foi possível a partir de uma solicitação do Governo Brasileiro, por intermédio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A Lista Indicativa funciona como um instrumento de planejamento de preparação de candidaturas – como uma espécie de inventário – e é composta pela indicação de bens culturais, naturais e mistos, apresentados pelos países que ratificaram a Convenção do Patrimônio Mundial da Unesco.
O principal objetivo destas indicações e concessões de títulos, segundo informações divulgadas pelo Iphan em seu site, é “ensejar a participação de gestores de sítios, autoridades locais e regionais, comunidades locais, ONGs e outros interessados, na preservação do patrimônio cultural e natural do país”.
Além do Da Paz, entraram na Lista de 2015 os Geoglifos do Acre (AC), o Teatro Amazonas (AM), as Itacoatiaras do Rio Ingá (PB), a Barragem do Cedro nos Monólitos de Quixadá (CE), o Sítio Roberto Burle Marx (RJ) e o Conjunto de Fortificações do Brasil, presentes em dez estados.
Símbolo do apogeu econômico alcançado durante o Ciclo da Borracha e representado por um modelo de civilidade inspirado nas grandes cidades europeias, o Theatro da Paz resguarda suas pinturas e afrescos, além de suas cadeiras de palhinha.
Já recebeu artistas e profissionais do mundo todo e é considerado por muitos deles como um marco em suas carreiras. Caso do pianista Arthur Moreira Lima, que registrou seu depoimento sobre o Da Paz:
“É um teatro lindíssimo. Lá fiz o primeiro concerto profissional de minha vida, com as pessoas pagando entrada para me ouvir. Foi quando ganhei o meu primeiro cachê aos oito anos de idade. Por isso eu tenho uma ligação sentimental com ele”.
Artistas como os pianistas Arnaldo Cohen e Nelson Freire, e os maestros Júlio Medaglia e Roberto Tibiriçá também rasgam elogios ao espaço.
“O Theatro da Paz é uma das casas de espetáculo mais lindas que eu conheço, é um teatro fantástico, com uma acústica maravilhosa. Sem falar na importância de sua história, que inclui o próprio Carlos Gomes”, destacou Tibiriçá.
E não são só os músicos de tradição clássica que refletem esse amor à mais tradicional casa de espetáculos do Pará.
“Na minha trajetória, o Theatro da Paz é importante e sagrado. A primeira vez que cantei em um teatro foi no Da Paz, com a Amazônia Jazz Band, um dos meus grandes sonhos. Lancei ali o meu disco ‘Una’. Em minha memória, além de ele ser um ponto cultural importante de Belém, é um lugar pelo qual tenho muito respeito”, declara a cantora Juliana Sinimbú, que também destaca a arquitetura histórica do teatro.
“Quando você está cantando e olha aquele teto lindo já te deixa emocionada. É sempre bom estar lá, seja cantando, assistindo a peças, óperas ou shows, ali existe uma energia muito boa”, completa.
O Theatro da Paz foi fundado em 15 de fevereiro de 1878, para atender a uma classe ávida por grandes espetáculos, enriquecida pelo crescimento econômico da região gerado pela borracha.
O projeto arquitetônico foi feito pelo engenheiro militar José Tibúrcio de Magalhães, inspirado no Teatro Scalla de Milão, na Itália. Foi a primeira casa de espetáculos construída na Amazônia, com uma acústica considerada perfeita até os dias atuais, lustres de cristal francês, dezenas de obras de arte e diversos elementos decorativos revestidos com folhas de ouro.
Sua imponência construída com elementos trazidos de diversos países europeus, se une a materiais locais que a maioria nem imagina existir.
O piso com pedras portuguesas, que forma um belo mosaico em seu hall de entrada, por exemplo, teve cada uma das pedras coladas com grude de gurijuba, peixe da região.
(Diário do Pará)
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