São mais de cem anos literalmente nas ruas, na esquina da Silva Santos com a Arcipreste Manoel Teodoro, em Belém, e as portas do Cinema Olympia continuam abertas para a chegada de uma nova idade. O aniversariante do dia completa 103 anos de história, glamour art decó e renovada importância para cineastas e amantes em geral da sétima arte, da pipoca vendida na calçada, “da espera na sala de espera”, como um dia escreveu Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “O Fim das Coisas”, uma despedida de seu cinema de rua favorito.
Por aqui, ainda mantemos esse “privilégio” de um cinema onde, passando na calçada à sua frente, olhamos no cartaz o filme do dia, e sendo a sinopse do agrado de quem passa, então é só comprar o saquinho de pipoca e entrar sem rodeios. “Ele é um testemunho de nossa história. Quantas pessoas passam e lembram ter visto nele um filme em 1984, em 1972, em 1990... Além da questão fílmica, ele é um patrimônio da memória de cada um, é também um herói da resistência do cinema de antigamente, são coisas que devem ser evidenciadas quando se faz aniversário”, destaca Marco Antônio Moreira, programador da sala e membro da comissão gestora do Olympia.
Oficialmente chamado Espaço Municipal Cine Olympia, a enorme sala de poltronas vermelhas e pesadas cortinas faz o cinema de rua considerado o mais antigo em funcionamento do Brasil. Localizado próximo ao Theatro da Paz, ele foi fundado no dia 24 de abril de 1912 pelos empresários Carlos Teixeira e Antônio Martins, donos do antigo Grande Hotel e do Palace Theatre. Suas atividades comerciais foram encerradas em 2006, reabrindo suas portas pouco tempo depois, já sob os cuidados da Prefeitura de Belém, para a exibição gratuita de filmes.
A programação consiste em filmes fora do circuito comercial, que ficam em cartaz por uma semana, exibidos uma vez por dia, sempre às 18h30. Segundo Marco Antônio, a partir de sua reabertura o Olympia se transformou em um cinema compromissado com a educação e a arte. “O público é formado por pessoas interessadas em ver coisas além da diversão, interessado em outras linguagens do cinema. É o jovem que quer conhecer novos diretores, o público mais velho frequentador há muitos anos, o turista que tem prazer em ir lá conhecer, os universitários e o público de impulso, que vê o cartaz e entra”.
Para o cinema se manter atraente diante desse público diversificado, foram construídas ao longo do tempo diversas parcerias com consulados, como o da Venezuela, que ajudou a trazer o filme “Bolívar” ano passado, e o do Japão. O espaço também apoia filmes independentes lançados por cineastas paraenses, nacionais e os premiados em festivais internacionais. “O que mais gosto, sem contar sua estrutura, é dos filmes exibidos lá. Principalmente quando eles fazem um especial do Chaplin, que para nós, amantes de cinema, é um artista fora do comum”, declara a universitária Walquíria Melo, 23.
Além de frequentar com assiduidade a sala de exibição do Olympia, a jovem está entre os paraenses que encontram ali partes de sua história. Ela já teve duas produções lançadas no Cine Olympia: o curta-metragem “Zero Hora” e o vídeo-minuto “Tempos de Bola”. “Ali fui premiada com o ‘Tempos de Bola’ na primeira Mostra Curta Pará de Cinema. E para nós, produtores independentes, ainda mais tentando iniciar uma carreira, tudo se torna mais importante quando acontece em um dos cinemas mais antigos do Brasil. É uma sensação que não tem preço”, diz Walquíria.
O próprio programador do Olympia guarda suas boas recordações do passado e o orgulho de colaborar para que ele continue construindo novas histórias. “Faço a programação desde a retomada em 2006. E faço isso com o maior orgulho! Eu morava próximo do Olympia... Ia para o Olympia e o Cine Palácio (onde hoje funciona uma igreja, na avenida Presidente Vargas) e lembro de ver filmes da Disney quando criança, ver Jack Nicholson, Hitchcock, na adolescência. Tenho grandes lembranças e filmes na memória. Tenho muito carinho por ele, como a maioria das pessoas, principalmente para quem tem mais de 40 como eu”, diz Marco Antônio, rindo pela referência à idade.
(Diário do Pará)
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